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algumas considerações avulsas a partir de duas opiniões de Paulo da Costa Domingos sobre os Joy Division

Talvez fosse conveniente passar primeiro pelo Frenesi para entender donde partiu o que se segue.

Vou deixar de lado o que considero acertado nas afirmações de PCD (i.e., aquilo com que concordo, yeah, grande parte, sobretudo o retrato sócio-económico da Manchester no final dos anos 70, e dos primeiros passos do neoliberalismo filho-da-puta que ainda predomina), e concentrar a atenção apenas em dois disparates de todo o tamanho:

Afirmar que os Joy Division tocavam “cançõezinhas para os adolescentes abanarem as tolas nos bares da noite” equivale ou deixa-me como se tivesse ouvido dizer que os poemas de PCD se destinam a saraus literários promovidos pela Leya. Para efeito meramente retórico, enegreço a provocação: os poemas de PCD têm como território/auditório ideal saraus literários promovidos pela Leya.

Suponho que haveria melhor forma de demonstrar que a música dos Joy Division simplesmente não lhe diz nada. Contra mim também deponho: em vez que dizer que os detesto, quando encontro alguém que adora a música dos Pink Floyd pós-1972 (uma das minhas bêtes-noires, sobretudo pelo que tinham criado até então), costumo repetir que nessa década ideologicamente semi-feliz (os setentas do século passado) a maior parte do pop-rock sinfonicó-progressivo não passava de presunçoso vácuo, exibição de mera forma, dedos hábeis mas estéreis, secos de substância, de vitalidade.

Onde pretendo chegar com este arrazoado? Tenho para mim como certo que o empenho e a seriedade entregues por PCD nos seus versos não serão muito distantes, em grau de intensidade, daqueles com que Ian Curtis emprenhava as suas letras. Daí ao segundo disparate: “o notório contributo [dado por Ian Curtis/Joy Diviison] para o ressurgimento de ideias nazis e rácicas”.

Perante isto só me ocorre pensar: «Notório?! Que dieta de cogumelos pode levar a tamanha alucinação? Também quero…». Afigura-se-me que só pode escrever tal coisa quem passou ao lado do pop-rock anglo-saxónico pós-1977, quem, por exemplo, reconhece apenas “explosão libertária” nas letras dos Sex Pistols, ignorando um ou outro slogan, roupas e adereços de algum público, por assim dizer, mais facilmente caracterizáveis como proto-nazis, que se colaram, como pústulas, a essa banda e ao ideário punk.

Note quem ainda não tinha nascido ou vivia desatento ao pop-rock de finais de 70, princípios de 80: nessa altura, em algumas capas de vinis, em panos de fundo de palco, eram visíveis pastiches do grafismo tipicamente soviético dos anos 20 e 30 do século passado. Terá cruzado a cabeça de alguém que se tratava de propaganda neo-marxista? Ou será apenas simples sensatez considerar que a apropriação de iconografias exóticas por parte da indústria musical britânica é/foi uma mera opção estética, mais um detalhe do modus operandi das sociedades capitalistas; diria mais, do presente em que vivemos, no qual uma imagem sobrevive frequentemente orfã do seu significado original?

Arre, se for esse o caso, i.e., não gostando da música dos Joy Division, em vez de apressar conotações neo-nazis, não seria melhor afirmar simplesmente: «não gosto da música dos Joy Division»?