um lobo como tu (mais algumas considerações avulsas sobre António Sérgio)
Hoje, só hoje, não me importa esta atracção da sociedade do espectáculo pelos obituários. Antes tarde do que nunca: a RADAR vai dedicar-lhe algumas horas do presente dia; foi, para mim, reconfortante encontrar no blogsearch do google tantas referências e dedicatórias. Vá que não vá, o gosto de um gajo, por um dia, sente-se menos isolado.
Ao longo de tantos anos a segui-lo com atenção (religiosa no início, desde 77 até final da década de 80; dispersa depois, quase ateia durante os anos 90; e, finalmente, desde 2007 na RADAR, com a intermitência de um agnóstico), nunca deu para aquilatar qual o nome, qual a banda, que António Sérgio poria acima dos demais. Como outro radialista (não tão influente/talvez mais famoso) me confidenciou há décadas, em plena praia do rock'n'roll, em Vila do Conde: «isto de divulgar novidades diariamente tem um preço: chega um dia em que não sabes do que realmente gostas; divulgas o que te parece novo e o teu gosto pessoal fica muito lá para trás…»
Ao longo de todo esse tempo, houve alturas em que pensei que The Fall estariam no topo das preferências de António Sérgio; outras houve em que apontei para The Undertones (contágio, talvez, de John Peel). No decurso do último par de anos (Viriato 25, na RADAR), para além de tanto mais, surpreendeu-me com a divulgação persistente de blues da primeira metade do séc. 20; também com uma série de gravações ao vivo que os Echo & The Bunnymen fizeram em várias House of The Blues, nos EUA, e também com gravações antigas dos The Waterboys.
Na falta de melhor barómetro, deixo no topo «Wolf Like Me», um clip potentíssimo dos TV on the Radio. Quem não gostar é totó. Merece uma condenação perpétua: ouvir Beyoncé ou Celine Dion ou a actual MTV ou a banda sonora dos Morangos com Açúcar para todo o sempre.