pequeno relatório de perdas e danos
Fileden.com, o armazém onde desde 2006 depositei quase duas centenas de mp3 que fui colocando neste e no blog anterior, informou-me esta semana que esses ficheiros se perderam durante uma troca de servidores.
O seu penúltimo tweet é de 28/9. O último é de 26/10.
Ontem e hoje, no 742 da Carris, encontrei o mesmo velhotinho, com olhos muito azuis e nariz adunco, a falar sozinho. Hoje, a cadência de disparates, onde se incluía o Chalana, sopa de alho francês e a puta da cunhada que não sei quê, agarrou a minha atenção. Mal reparou nisso, disparou: «Está a olhar para mim para quê?». Nem pensei antes de responder: «Estou a gostar de ouvi-lo». Retorquiu: «Deixe de olhar, eu não sou para ser gostado». Brilhante. Estive para dizer: «Eu também não», mas contive-me.
Voltei a telefonar-lhe perto das 21:00 de hoje. Nada.
Cinco discussões, cinco, acesas, escusadas, nos últimos dias, pensei há minutos, antes de ir para a janela ver se este presepiozinho de luzes, que estende por quilómetros até à Costa da Caparica, me distraía um pouco. Não seria a primeira vez. Não funcionou. Em vez disso, surgiu-me, de novo de supetão, uma sequência de versos que ressoavam decentes entre os parietais. Eram daqueles que relidos na manhã seguinte acordariam por certo a velha trindade interrogativa: «o que é isto? para que serve isto? a quem interessa isto?». Nem sequer os registei sem parágrafos.
Nunca estive em Luanda. Acordo quase todos os dias com o pensamento em Luanda.
São agora 22:47. Homens passeiam cães umas dezenas de metros mais abaixo. Um deles, em voz alta para o seu lulu, queixa-se da mulher e dos filhos que não o entendem, e do mais que eu não consigo ouvir.