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o dia em que me ouvi defender um governo PS


(foto de Pedro Neves)


É vergonhoso. Nunca imaginei que esse dia chegasse. Hoje, ao fim da manhã, no carro que me transportava a rádio transmitia o debate parlamentar sobre o programa do governo. A senhora líder do PSD acusava José Sócrates de ter apresentado um programa que repetia as promessas eleitorais do PS, como se o PS tivesse ganho eleições com maioria absoluta. Daí a pergunta/desabafo: Mas que raio de argumentação… que oposição é esta? Por uma vez, admita-se que o primeiro-ministro foi coerente. Pior, mais condenável seria o programa de governo não reflectir as promessas eleitorais.

Muito pior, claro, é que todos já sabemos que, com ou sem coerência, raramente as medidas anunciadas se traduzem na prática. Sendo a “conjuntura internacional” favorável ou não, só uma parte demasiado exígua das promessas eleitorais costuma ser cumprida por qualquer governo. Podem sempre argumentar que já existe uma maneira de fiscalizar/penalizar o seu não cumprimento: o voto de 4 em 4 anos.

Tal seria verdade se vivêssemos numa democracia realmente representativa, se os jornalistas pudessem sê-lo sem pressões ou autocensura, se a memória dos cidadãos funcionasse ao longo dos anos, em vez se diluir numa avalanche de notícias, factos, factóides, irrelevâncias que costumam desaguar na decepção, no desinteresse, na alienação da cidadania. Só a título de exemplo: para além de uma ou duas, quais, quantas promessas efectuadas pelo PS em 2005 recordamos hoje?