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novembro 26, 2009

É mais que certo: não sinto a tua falta.
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.




José Miguel Silva

carla-van-de-puttelaar_2001.jpg
© Carla van de Puttelaar

novembro 25, 2009

bolas

para J.M.S., L.O., M.J.V., P.L. e Z.T.
pelo meu silêncio postal

O espelho lá de casa não está pelos ajustes. Tem oscilado entre o côncavo e o convexo; ora fosco e, logo após, luzente; lusco-fusco, afinal. Interrogo-o. Inquieto, diz-me que recorro demasiado aos verdes, castanhos e cinzas, demasiadas cinzas, tudo muito escuro, lamenta. Não é bem assim. Distraído, por vezes, até misturo quadrados centímetros de laranja, roxo e cores outras, piores ainda. Sugiro mostrar-lhe uma ou outra meia sem par, riscadas camisas de antanho, capazes de ocultar o Sol.

Ele, espelho, riposta (não sei se mais alguém entende a fala dos objectos... Boris Vian entendia... eu faço o que posso) que nem assim consigo esconder algum negrume que me vai por dentro. Insiste que eu deveria olhar para as coisas sob um ponto de vista mais terra-a-terra. Desse modo, acreditaria que vivo num planeta repleto de cores, rodeado de cambiantes sem fim. Balelas, claro.
planeta-pimba.gif

pulsar.gif
Viro-lhe as costas e deixo-o a resmungar com as paredes do WC. Mal ele sabe que, com umas lentes mais potentes, as cores desaparecem e o espaço interior confunde-se com o interplanetário: uma bola negra a fervilhar, onde, a qualquer momento, pode surgir uma luz que pulsa.


(imagens encontradas em www.eclipse.stars.gs, www.archive.org, www.gvarros.com;
a última só é visível com IExplorer + Safari)

no-harm-at-all.png

«Sparrow Falls», Woven Hand (mais pássaros)

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Desta vez não houve lezírias em pano de fundo.
Deixei as searas sossegadas
Imaginando o orvalho acordando os melros e as folhas da videira.

Imaginei demasiadas coisas (penso),
Enquanto os dedos da costureira nada consertam: nem o riso,
Nem a casa fechada na penumbra de uma rua qualquer.

Por acaso, abri um armário e li
Nitratos do Chile
E pensei – o mundo está bem adubado,
Bem temperado de sal, pimenta, picantes corpos.

E não encontrei nitratos no amor (erro meu, má sorte).


Rui Pedro Gonçalves

novembro 21, 2009

carla-van-de-puttelaar.jpg
© Carla van de Puttelaar

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luanda

Teve que voltar. Mais uns meses que vão pesar anos. Num esconso recanto da sua bagagem seguiu o que em mim ainda havia de jeito. Por segundos, iludo-me com um pensamento absurdo: pode ser que agora reste mais tempo para os ciúmes deste blog, para ler outros, ou nem isso. Francamente, não sei o que as minhas sobras ficam por cá a fazer. Já pouco me importa dos dois lados desta janela.

novembro 20, 2009

eugénio de andrade por artur bual

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A Eugénio de Andrade,
por «Véspera da Água»


Esta água vesperal que sobe em ti
e escorre em regos por areias campos
de verde negro crespas cabeleiras
levando flores vai e estrias brancas
do que tão chamas cal no ardor de tê-las.

Rumor de secos ramos e de olhares,
visões que os dedos têm tocando os troncos
e os caules duros por momentos longos,
correndo vai essa água transportando-as
a um mar que ondas recurva silenciosas.

Descendo pelo tempo que o desejo
anseia seja uma demora tensa
ante um passado a dissolver-se agudo –
essa água véspera de ser-se é tarde
pousando na paisagem das palavras.

Silêncio de só gestos que elas dizem
menos que dizem lembram ou contentam
na solidão sem rosto da nudez –
esta água corre escorre pedra em pedras
e sobe em ti como ervas sobre a terra
em que ninguém nos fita ou já nos vê.


Jorge de Sena, 1974
(in «Aproximações a Eugénio de Andrade», 2001
coord. José da Cruz Santos; dir. gráf. Armando Alves)

novembro 19, 2009

eugénio de andrade por emerenciano

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A Eugénio de Andrade,
agradecendo «Até Amanhã»


Lembras-te da primeira vigília que fizeste,
à espera, trémulo, da madrugada nova?

Deu o meio-dia, tilintava o oiro,
e anoiteceu-nos como se a nossa amada
fosse a descer à cova.

Depois,
tu esperaste sempre a madrugada,
mas sempre a noite paria nados-mortos,
sempre a esperança espancada cada dia:
frágil, de luz e de cristal, a tua fé
embaciou-se de melancolia…

Mas tu esperas ainda
- porque os teus versos ainda são
os do rapaz maravilhado
pela afogueada cor duma romã.

E vem dele a saúde a quem se cruza
contigo, no branco litoral:
«Até amanhã».


José Fernandes Fafe, 1957
(in «Aproximações a Eugénio de Andrade», 2001
coord. José da Cruz Santos; dir. gráf. Armando Alves)

novembro 18, 2009

eugénio de andrade por martins correia

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de volta à ociosidade das palavras e imagens alheias

Apeteceu-me notícias. Passei os olhos pelas edições online de vários jornais. Não havia notícias. Nessa ausência, regresso a «Aproximações a Eugénio de Andrade», livro/colectânea publicado em 2001, com 35 textos e 35 imagens assinados por nomes representativos de vários momentos da literatura e artes plásticas portuguesas do século passado.

Da segunda vez que o li, com o intuito de recolher o que mais me agradou, distraí-me tentando deduzir os sentimentos que cada um dos autores poderia albergar relativamente a Eugénio de Andrade. Simplificando, nalguns encontrei cuidada reverência; noutros, diversos graus de familiaridade; em quase todos, um hipertexto afectivo que acaba por ser natural num livro que, apesar da sobriedade do título, resulta em algo muito próximo de uma homenagem. Ainda assim, deparei com dois aparentes desvios a essa tendência. O primeiro, da autoria de Manuel Alegre:


Há em Eugénio de Andrade
uma tensão extrema
substantivos e verbos trazem os elementos
respiração da terra no poema
a vida intensa a breve eternidade
e as sílabas do sul entre o verão e os ventos


Passe o atrevimento de mero leitor, em face da quantidade atroz de lugares-comuns que quase todas as palavras encerram, ocorreu-me que talvez se tratasse de uma dedicatória de encomenda, apresentada sob a forma de poema manifestamente mau. No segundo desvio, qualitativamente nos antípodas do anterior, Manuel António Pina descobre, de modo singular e aparentemente ácido, a criança que prevalecia em Eugénio de Andrade:


No sítio mais fundo
do teu nome
fala o que não se pode dizer.

Que ninguém chame pelo teu nome,
que ninguém acorde
o teu nome que dorme.

Porque é o nome do homem
e o do menino,
o da vítima e o do assassino.

introdução à zoologia

«A minha sogra é um boi»: salvo erro, chegou a haver uma canção, ou uma banda, com essa frase, ou semelhante, por nome. O simples facto de se tratar de uma memória incerta leva-me a pensar que deveria estar mais atento à música portuguesa. Por outro lado, não tenho qualquer dúvida que a velhota de rádio na orelha, sempre à janela no prédio da esquina, é um peixe-avião. Talvez por isso não voe. Gostava um dia de vê-la bater as as asas por aquela janela fora.





Tradução: do pouco que conheço da música que se tem feito recentemente por cá, para além dos Peixe-Avião, que ainda não terão diluído suficientemente a influência dos Radiohead, mas parecem ter dedos para voar mais alto, de assinalar também vários nomes publicados pela Merzbau, e um ou outro projecto de imensas nertlabels que vão sendo divulgadas em Beats Play Free.

novembro 17, 2009

o meu blog é um cão

cao-triste.jpg


O cão? Encontrei-o à solta, meio perdido, no google images. A música é de umas moças britânicas que já tocaram em Portugal no Verão de 2007 e deixaram de fazê-lo em Dezembro desse mesmo ano. Chamavam-se Electrelane. Não primavam pelo virtuosismo; antes por uma intensidade, melhor dizendo, por variações na intensidade de cada música; intensidade essa conseguida, sobretudo, pelas modulações, por assim dizer, dramáticas do órgão. O último álbum tinha por título o pré-aviso de desistência «No Shouts, No Calls». «Invisible Dog» é o nome da música a tocar por baixo do cão com aqueles olhos terrivelmente expressivos. Parecendo que não (os últimos dias têm sido tão aprazíveis, caramba), isso deprime-me. Isto também: um olhar triste entre as flores.


Electrelane2.jpg


novembro 16, 2009

o meu blog é um cão

Amua e gane, também ladra de alegria ou protesto, luta, tropeça em fantasmas, cai, levanta-se do tapete, e, por vezes, corre em círculos atrás da própria cauda: tem sido assim este blog. Nesse sentido, não difere muito de um animal de estimação. O seu dono, no entanto, não sabe ser dono. Ultimamente, nem se dá ao trabalho de preparar refeições como dantes. Compra-as já feitas e, num só dia, publica-as com data futura, para que o cibernético animal tenha uma ou duas latas diárias com que entreter o estômago e as vistas durante a semana. Diz-lhe o dono que é mais fácil assim, que a qualidade da comida até melhorou, que não vai ausentar-se indefinidamente como no passado. Nessas promessas, contudo, o animal fareja sinais de abandono e gane, e amua, enroscando-se depois, demasiado quieto, num plataforma virtual que se confunde com o tapete.

o meu blog é um cão

Alguém colocou este clip no youtube em memória de um cão chamado Poppy, falecido em 23.7.09, com uma música dos Guillemots cujo refrão repete «the best things come from nowhere / i love you, i don’t think you care». Também tem um verso que diz «now there's poetry in an empty coke can», e acaba com o coro repetindo para quem quiser ouvir «yes, i believe you, yes, i believe you, yes, i believe you».
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novembro 15, 2009

Meto butes à inteira planura.
Esboroa-se a terra. Lá para trás,
sobraram o paleio e a literatura.
Aqui, na aparência, só a paz.

Mas que paz se desdobra a toda a anchura
do horizonte a que o olhar se faz?
Esta página em branco (ou sem leitura)
não terá uma chave por detrás?

Eu sei ler a cidade, mas aqui
sou um dedo parado em letra morta.
Uma guerra haverá, com o álibi
da paisagem que a outras me transporta.

Hei-de voltar para ler e presumir,
quando o Alentejo se puser a rir.


«Pelo Alto Alentejo», Alexandre O'Neill


novembro 13, 2009

quando não voamos até Luanda e Luanda voa até nós

Parece mais um título demasiado hermético, quiçá absurdo, para uma canção demasiado óbvia, e é mesmo. Nenhum mal vem ao mundo por isso. Hoje, só hoje, mal ouvi do outro lado do telemóvel «estou na Portela, vens-me buscar?» regredi ao jardim infantil, até cri: para algo de bom acontecer não preciso mexer-me nem ter esperança; basta desejar muito.

E agora, o que fazer, o que dizer? Não importa, seja o que o acaso quiser.

eugénio de andrade por jorge ulisses

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«o homem do sul»

Cheguei e perguntei
pelo grito do granito.

Rigor obstinado,
era o que ele dizia.
Ele, o homem do sul,
e persistia.

Deita uma palavra ao mar.
Exemplo: rio.
Abandona outra: vento, ao próprio vento.

Mas se o quiseres escutar
é melhor deixares
lá fora
o teu lamento.


Armando Silva Carvalho
(in «Aproximações a Eugénio de Andrade»)

novembro 12, 2009

eugénio de andrade por alberto péssimo

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um retrato do porto

Na cidade velha do Porto,
no primeiro andar de um restaurante,
a uma mesa da janela,
estava eu com o poeta português Andrade,
um homem seco com gestos de adolescente.

Comíamos tripas e bebíamos o vinho da sua terra
e falávamos um tanto timidamente
das literaturas dos nossos países e da França,
voltando sempre à revolução perdida,

enquanto lá em baixo brincavam os filhos dos pobres
e bolas de sabão voavam pela rua,
bola a bola passando pela nossa janela
e voltando sempre, a correr
contra o céu azul,
até se desfazerem contra os muros
sombrios das casas.


«Porto, cidade velha», Wolfgang Bächler
(traduzido do alemão por João Barrento,
in «Aproximações a Eugénio de Andrade»)

novembro 11, 2009

estranho conforto


Quando sobra tempo livre, quando não se é directamente afectado pelos problemas que preocupam a maior parte das pessoas (contas por pagar sem saber como, a saúde e educação dos filhos, as lesões do Cristiano Ronaldo), quando se evita a bestificação televisiva e seus derivados, pouco resta senão inventar pequenos desafios para driblar o tédio.

O desafio desta semana consistiu em tentar, em 5 dias úteis, semear o trabalho de um mês inteiro. Está quase. Tem corrido tão bem que até deu para reunir na mesma frase nomes como Hitler e Beth Orton, descobrindo realidades quase absolutas em «Comfort of Strangers» e «Arbeit Macht Frei».

Por um lado, o trabalho quase conseguiu libertar-me da droga da bloga.
Por outro, a gentileza que tenho recebido nestes dias da parte de estranhos que tenho visitado por essa Lisboa fora tem-me quase derretido. Hoje, até gente da classe média-alta, que usualmente não vai com o meu nariz e vice-versa, me recebeu como só os pobres ou os há muito ricos costumam receber. Não entendo isto - os outros - muito bem. Cheguei a coçar as costas para ver se me tinham colado um post-it com os dizeres «amem-me».

indecente é

ter prometido a mim mesmo que durante esta semana não navegaria na net e muito menos visitaria este blog (os últimos e os próximos posts em torno de Eugénio de Andrade foram “publicados com data futura” no passado Domingo), e, ao fim de três dias apenas, quebrar esse voto com assuntos que, mais uma vez, não podem interessar a mais ninguém senão a mim. Oh sim, isto é um weblog. Por vezes, o rodopio das modas consegue obnubilar o significado original das palavras, sendo certo que «Obnubilar» também soa muito bem. Soa a nome de escravo assírio, daqueles que os Nabucodonosores obrigavam a partir para a guerra com saiotes como uniforme. Nestes dias de trabalho a sério também vesti uma espécie de saiote: roupas mais claras, barba feita, risca ao lado bem definida, um primor. O facto diabo é que funciona (uma senhora chegou a dizer-me «o seu cabelo é cumó do Sócrates»): bons modos e meio-sorriso bastam para a água fluir para um moinho que não é o meu nem o deles. Conversa mole, palmadinhas nas costas e fica tudo em família. Leve o que quiser, olhe ali a nossa filha, tão bonita qu’ela é, você até parece uma pessoa decente. Santa ingenuidade! Podem fazer queixinhas dos poderosos, mas ainda cantam hossanas à Babilónia.

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indecente é

nos últimos três dias escrever onze vezes o nome «Eugénio» e oito vezes o apelido «Andrade», e nem um poema do dito para amostra.

eugénio de andrade por carlos amado

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«Já não é fácil, Eugénio, um poema»

Outrora várias vezes versos esperei
onde ficava fechada a amizade e vinham
num jogo de acalmia os instrumentos
de desenhar esse grão de penumbra. Enquanto
a casa e o corpo me protegiam.

Hoje tenho esta certeza de dizer-lhe
que nem a poesia é uma casa,
nem faz senão expor-nos ao banal
num corpo já entregue a bisturis,
apenas o espera cada cinza.

A claridade a que tento escrever-lhe
é tumefacta como um órgão ferido,
está sujeita numa cortina suja
e é à salgação da morte
que na janela adormecem os contornos.

Passámos na vida pelas nossas vidas
e, sabe que é raro, tudo esteve certo.
Agora é esperar o canto enfermo,
o banimento,
nem um abraço ficará
de nenhum de nada de nós.

Talvez nessa altura fogos presos
nos acendam em barcos as palavras,
estrondos surdos de luz cruzem a água
diante da qual por algum tempo
a mão de alguém fará lembrar
esses focos da noite, esquivos,
impossíveis de tocar.

E nessas brasas de tanta cor
outros escutam o desaparecimento.


Joaquim Manuel Magalhães
in «Aproximações a Eugénio de Andrade»

novembro 10, 2009

eugénio de andrade por jorge pinheiro

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vulcões, ilhas, abrigos

“Cocteau dizia que há homens com coração de diamante que apenas reagem ao fogo e a outros diamantes e negligenciam o resto. É junto destas raras vocações de sarça ardente que me sinto em família, o que equivale a explicar que quase sempre estou só. Mas não posso queixar-me: os acasos da vida ou o facto de navegar, por instinto, na direcção certa, fizeram que encontrasse, de longe em longe, Açores e Madeiras no vazio das ondas, Wolfram Schütte, Marisa Blanco, Eugénio de Andrade, vulcões de camaradagem exigente e limpa, ilhas fraternas de rigorosa ternura, abrigos de pedra suave onde encostar a inquietação da febre, pessoas que nos reconciliam com a noite mais escura […]"


«Bom dia, Eugénio», A. Lobo Antunes, 9.12.99
(in «Aproximações a Eugénio de Andrade», vários autores,
coord. José da Cruz Santos, dir. gráf. Armando Alves)

uma pausa no sexy-macumba-disco-light-show-intimista

Sem quê nem porquê (esta expressão… não sei não), ofereceram-me na semana passada um livro cheio de versos e reproduções de desenhos e pinturas dedicados a Eugénio de Andrade. Entre cerca de 70 nomes e muito xarope cultural fora do meu prazo, encontrei palavras decentes de A.M. Pires Cabral, Alberto Pimenta, Egito Gonçalves, João Miguel Fernandes Jorge, José Fernandes Fafe, Joaquim Manuel Magalhães, Manuel António Pina, e ainda imagens de Jorge Pinheiro, Alberto Péssimo, Artur Bual, Emerenciano, Francisco Simões, Laureano de Ribatua (este nome…), Jorge Ulisses, Mário Botas.

É então bem provável que os próximos dias neste sítio sejam exclusivamente preenchidos desse modo, por assim dizer… como dizê-lo?... Não sei dizê-lo.
Mais que não seja (mais uma daquelas expressões…), são quase oito da manhã, estão dezasseis graus e há nuvens aos tropeções sobre Lisboa. Se tal clima, por fim civilizado, se mantiver, poderei continuar a trabalhar como um mouro (outra…) durante a presente semana, para logo após voltar ao sexy-macumba-disco-light-show-intimista do costume.

novembro 09, 2009

eugénio de andrade por josé rodrigues

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2ª «aproximação a eugénio de andrade»



NAUFRÁGIO QUE LE PRINCE CHARMANT
SOFREU AO TEMPO DO LIVRO DE NAVEGAÇÕES
DE SÃO BRANDÃO

Procura ainda a vida que
podes viver quando
reflecte da floresta
a sombria folha que

no primeiro capítulo foi perdida.
Procura a proporção do que
cresce dentro
e fora de casa –

o corpo,
no seu existir dia a
dia similiter tui domine
deus. Procura

a vibração do mar e da terra e
desce
na cavidade medida
o mais profundo golpe.


[para Eugénio, o único poema que escrevi em 1999]

João Miguel Fernandes Jorge

novembro 08, 2009

lugares


1ª «aproximação a eugénio de andrade»

Trouxe-te um ramo de frésias
(não eram essas as flores dos jardins de
Castelo Branco?)
embrulhadas em celofane
por causa do frio
Trouxe-te um ramo de frésias
já que não te podia trazer um rio


«Aniversário», Jorge Sousa Braga

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novembro 07, 2009

7.11.93
...... 16




novembro 06, 2009

pequeno relatório de perdas e danos

Fileden.com, o armazém onde desde 2006 depositei quase duas centenas de mp3 que fui colocando neste e no blog anterior, informou-me esta semana que esses ficheiros se perderam durante uma troca de servidores.

---o---

O seu penúltimo tweet é de 28/9. O último é de 26/10.

---o---

Ontem e hoje, no 742 da Carris, encontrei o mesmo velhotinho, com olhos muito azuis e nariz adunco, a falar sozinho. Hoje, a cadência de disparates, onde se incluía o Chalana, sopa de alho francês e a puta da cunhada que não sei quê, agarrou a minha atenção. Mal reparou nisso, disparou: «Está a olhar para mim para quê?». Nem pensei antes de responder: «Estou a gostar de ouvi-lo». Retorquiu: «Deixe de olhar, eu não sou para ser gostado». Brilhante. Estive para dizer: «Eu também não», mas contive-me.

---o---

Voltei a telefonar-lhe perto das 21:00 de hoje. Nada.

---o---

Cinco discussões, cinco, acesas, escusadas, nos últimos dias, pensei há minutos, antes de ir para a janela ver se este presepiozinho de luzes, que estende por quilómetros até à Costa da Caparica, me distraía um pouco. Não seria a primeira vez. Não funcionou. Em vez disso, surgiu-me, de novo de supetão, uma sequência de versos que ressoavam decentes entre os parietais. Eram daqueles que relidos na manhã seguinte acordariam por certo a velha trindade interrogativa: «o que é isto? para que serve isto? a quem interessa isto?». Nem sequer os registei sem parágrafos.

---o---

Nunca estive em Luanda. Acordo quase todos os dias com o pensamento em Luanda.

---o---

São agora 22:47. Homens passeiam cães umas dezenas de metros mais abaixo. Um deles, em voz alta para o seu lulu, queixa-se da mulher e dos filhos que não o entendem, e do mais que eu não consigo ouvir.

novembro 05, 2009

o dia em que me ouvi defender um governo PS


(foto de Pedro Neves)


É vergonhoso. Nunca imaginei que esse dia chegasse. Hoje, ao fim da manhã, no carro que me transportava a rádio transmitia o debate parlamentar sobre o programa do governo. A senhora líder do PSD acusava José Sócrates de ter apresentado um programa que repetia as promessas eleitorais do PS, como se o PS tivesse ganho eleições com maioria absoluta. Daí a pergunta/desabafo: Mas que raio de argumentação… que oposição é esta? Por uma vez, admita-se que o primeiro-ministro foi coerente. Pior, mais condenável seria o programa de governo não reflectir as promessas eleitorais.

Muito pior, claro, é que todos já sabemos que, com ou sem coerência, raramente as medidas anunciadas se traduzem na prática. Sendo a “conjuntura internacional” favorável ou não, só uma parte demasiado exígua das promessas eleitorais costuma ser cumprida por qualquer governo. Podem sempre argumentar que já existe uma maneira de fiscalizar/penalizar o seu não cumprimento: o voto de 4 em 4 anos.

Tal seria verdade se vivêssemos numa democracia realmente representativa, se os jornalistas pudessem sê-lo sem pressões ou autocensura, se a memória dos cidadãos funcionasse ao longo dos anos, em vez se diluir numa avalanche de notícias, factos, factóides, irrelevâncias que costumam desaguar na decepção, no desinteresse, na alienação da cidadania. Só a título de exemplo: para além de uma ou duas, quais, quantas promessas efectuadas pelo PS em 2005 recordamos hoje?

gps virtual

Ontem, enquanto a Weblog sofria vários ataques de soluços, tropecei numa funcionalidade do Blogger que permite criar uma coluna de links. Num par de horas que pareceram dias, reuni umas dezenas de sítios onde fui passando nos últimos tempos. Conforme as especificidades de alguns deles e, sobretudo, para servir as minhas disposições virtuais, separei-os em oito grupos. O Blogger reordenou-os todos alfabeticamente. Foi justo, democrático, e resultou numa salgalhada que não me vai ser tão útil quanto poderia.
Só mais duas peculiaridades que atestam a cegueira do Blogger: o regressado «ágrafo», talvez devido ao acento pouco anglófilo, não ficou junto dos «aa»; não consegui incluir o «Frenesi», decerto por causa do «blogger content warning». Num dia qualquer, tenho de criar um blog com esse nome. Agora estou cansado. Passar os olhos por muitos blogues num curto espaço de tempo é um disparate - fica-se com vontade de fechar o nosso. Vou trabalhar. Talvez alguma ideia tropece em mim.

novembro 04, 2009

um anúncio pouco ortodoxo a partir de sebald e panero


Atrevi-me, por fim, a ler «Austerlitz», de WG Sebald, e «Poemas», de JL Panero. Mantiveram-se ambos em recatado desarrumo, desde o Verão, à espera que eu me decidisse. A leitura não tem sido tão áspera quanto supunha. Apesar de muito provavelmente nada existir de comum entre ambos os livros, consigo reuni-los numa só gaveta de coisas/assuntos/escritas que se encontram intrinsecamente distantes do que costuma interessar-me à primeira vista. Nessa mesma gaveta, encontram-se igualmente a eito outros livros com descrições (para mim) demasiado extensas, discursos intimistas (que não o meu), filmes cuja acção decorra em cortes dos séculos 16 e 17, documentários sobre mecânica automóvel, caixas de primeiros socorros, debates televisivos sobre o que for, conversas em torno dos hábitos alimentares dos bebés, enfim, uma série de coisas, que não sendo propriamente detestáveis nem inúteis, contêm, à partida, pouco de cativante. Até por isso, pelo potencial desconhecido que carregam, a leitura destes dois livros tem valido a pena.

dois poemas de juan luis panero



O FIM DA ESCADA

A estranha sensação de ter morrido
em Viena, numa tarde de outono de 1992,
numa casa cuja escada nunca subi.
De ser desde então um intruso, um farsante,
o actor sem futuro de uma comédia má.
De que o destino, implacável e rasteiro,
se vingou na longa noite de um hospital,
nas horas vazias que tento preencher.
Inventar, não heterónimos como fez Pessoa,
mas algo mais simples, o homem que escreve agora,
a medíocre perseverança dos seus feitos,
enquanto, insistente, me tenta a ideia de voltar,
de subir de vez os degraus, de bater a uma porta.
Mas quem sabe se ainda uma história pior,
um horror mais nítido me espera ali,
no fim da escada, diante da imaginada porta?


PIERRE DRIEU LA ROCHELLE
DIVAGA PERANTE A MORTE

No fim, penso que tinha razão
- toda a absurda intriga do poder,
a faca implacável da inteligência,
as sórdidas, políticas palavras,
os riscados projectos impossíveis –
sim, tinha razão nesse dia. Lembro-me bem
quando pensei, deitado junto dela,
que o único real era uma boa puta,
Uma pele cálida, uns lábios silenciosos, umas mãos peritas,
naquele bordel, ao pé de Neuilly, ao amanhecer.
Por isso, porque acho que tinha razão, sou mais culpado
- livros, declarações, ideias, lealdades,
o segredo de tudo, o avesso do nada –
quanto tempo perdido para chegar a isto,
para recordar, sem solução já, as suas longas coxas,
o sabor espesso da sua boca, os roçados mamilos.
Chegava uma luz cinzenta sobre a cama,
sobre o seu cu memorável, imóvel,
sim, tinha razão, aquela puta
de quem nunca soube o nome ou talvez tenha esquecido,
o fumo de um cigarro, isso é tudo, eu tinha razão,
e se não a tinha, que importância tem agora?


(trad. J. M. Magalhães)

um blog sobre lazer e viagens

Caímos na asneira de dizer que a foto se destinava a um blog sobre lazer e viagens e os convivas esfumaram-se da mesa num ápice. Na maior parte do tempo, é reconfortante estar rodeado de gente assim, saudável (repare-se na quantidade de água sobre a mesa), que desconfia das imagens em monitores, que não já não quer saber da net para nada, a não ser para comprar bilhetes de avião mais baratos. Noutras alturas, olha-se para a senhora de serviço às mesas e deseja-se que a mesma seja uma espia russa dos anos 50, que o seu estranho sorriso signifique que acabou de despejar nas bebidas um químico marado, daqueles que nos fazem acordar numa dacha siberiana, algemados a um samovar, indefesos diante de uma bond girl que nos afoga em maldades. Enfim, escrito isto, começo a duvidar se H2O seriam as únicas letras e números dentro do meu copo.

novembro 03, 2009

zoológica

"Tal como os animais do Nocturama, entre os quais há um número excepcional de raças anãs, minúsculos fenecos, lebres saltadoras e hamsteres, também esses viajantes me pareceram encolhidos, fosse pela invulgar altura do tecto da sala, fosse pela escuridão que se adensava, e creio que me assaltou a ideia, em si absurda, de que eram os últimos membros de um povo diminuto que tivesse sido expulso da sua terra ou perecido, e, por serem os únicos sobreviventes, traziam a mesma expressão triste dos animais do jardim zoológico.

O único animal que a minha memória reteve bem foi o urso-lavador, que observei longamente, sentado junto a um riacho com uma expressão severa no focinho, lavando repetidamente o mesmo bocado de maçã, como se tivesse a esperança, com todas aquelas lavagens muito para além de um zelo razoável, de poder escapar àquele mundo falso a que tinha chegado, por assim dizer, sem culpa nenhuma."


in «Austerlitz», W.G. Sebald

pop

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novembro 02, 2009

nem que troveje

Einaudi, Ludovico. Hoje, às 21:00, no CCB.

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um lobo como tu (mais algumas considerações avulsas sobre António Sérgio)


Hoje, só hoje, não me importa esta atracção da sociedade do espectáculo pelos obituários. Antes tarde do que nunca: a RADAR vai dedicar-lhe algumas horas do presente dia; foi, para mim, reconfortante encontrar no blogsearch do google tantas referências e dedicatórias. Vá que não vá, o gosto de um gajo, por um dia, sente-se menos isolado.

Ao longo de tantos anos a segui-lo com atenção (religiosa no início, desde 77 até final da década de 80; dispersa depois, quase ateia durante os anos 90; e, finalmente, desde 2007 na RADAR, com a intermitência de um agnóstico), nunca deu para aquilatar qual o nome, qual a banda, que António Sérgio poria acima dos demais. Como outro radialista (não tão influente/talvez mais famoso) me confidenciou há décadas, em plena praia do rock'n'roll, em Vila do Conde: «isto de divulgar novidades diariamente tem um preço: chega um dia em que não sabes do que realmente gostas; divulgas o que te parece novo e o teu gosto pessoal fica muito lá para trás…»

Ao longo de todo esse tempo, houve alturas em que pensei que The Fall estariam no topo das preferências de António Sérgio; outras houve em que apontei para The Undertones (contágio, talvez, de John Peel). No decurso do último par de anos (Viriato 25, na RADAR), para além de tanto mais, surpreendeu-me com a divulgação persistente de blues da primeira metade do séc. 20; também com uma série de gravações ao vivo que os Echo & The Bunnymen fizeram em várias House of The Blues, nos EUA, e também com gravações antigas dos The Waterboys.

Na falta de melhor barómetro, deixo no topo «Wolf Like Me», um clip potentíssimo dos TV on the Radio. Quem não gostar é totó. Merece uma condenação perpétua: ouvir Beyoncé ou Celine Dion ou a actual MTV ou a banda sonora dos Morangos com Açúcar para todo o sempre.

o império contra-ataca

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Depois da França (onde já existe, desde há poucos meses, uma lei que permite o corte da ligação à net após o 3º download ilegal), o Reino Unido:

“quem persistentemente descarregar música e filmes arrisca-se, a partir de meados de 2011, a ficar sem acesso à net”, declarou há uns dias Peter Mandelson, membro do governo britânico.


Dois breves comentários:
- “a partir de meados de 2011”, mais um exemplo deste truque democrático contemporâneo – quando uma medida pode causar demasiada polémica anuncia-se a mesma com antecedência bastante, para que o tempo até que entre em vigor dilua as reacções adversas.

- Nem debito de novo o que penso sobre os direitos de autor nos dias de hoje. Trata-se de uma questão demasiado vasta para permitir abordagens simplistas, como em quase tudo que ao Direito e à Economia diz respeito. Ainda assim, para os criadores que não são best-sellers já existe uma evidência incontornável. Estes, que constituem a maioria, têm, ou deveriam ter, a noção de que o download gratuito é actualmente o único modo de divulgarem o que fazem, e que o download ilegal (i.e., sem o seu conhecimento) permite que as suas obras cheguem a muito mais pessoas.
Também já era tempo de a maior parte de nós, consumidores, ficar com a noção de que estas medidas são um reflexo das pressões da grande indústria, servem sobretudo os interesses dos vendilhões de cultura.

(fonte)

novembro 01, 2009

António Sérgio

Em 80 e poucos, um radialista que passava umas temporadas no Reino Unido e nos EUA chegou a dizer-me, com algum espanto à mistura, que naqueles países a percentagem de pessoas que gostava do então denominado «som da frente» (o termo indie só se vulgarizou anos mais tarde) era muito menor do que em Portugal.

O principal responsável por essa “aberração” estatística foi-se, ontem, ao fim de quatro décadas dedicadas quase em exclusivo à Rádio. As minhas preferências musicais e as de uma imensa minoria teriam decerto sido diferentes sem a sua voz e gosto irrepreensíveis. Esse pequeno mundo dos megahertzes, de que fiz parte durante alguns anos e que foi de longe aquele a que mais gostei de pertencer, encolheu mais um pouco.

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(passe a autocitação: +1 post, este de 2007, sobre António Sérgio)

pomplamoose

ela: corpo e voz em perfeita sintonia
ele: um músico e pêras

ela, no entanto, explica que pomplamoose significa toranja em francês

ana c

Aparentemente sem noção de quão bonita é: suaves raios por fora e por dentro. Também não lho disse. Não fui capaz. Tive uma tontura mal entrou no restaurante. Pressentiu-a. Desculpei-me com uma mini preta, estômago vazio e não sei mais o quê. Terá acreditado?

sexta à tarde

Conheci Ana C. Prometi voltar.