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dois poemas de juan luis panero



O FIM DA ESCADA

A estranha sensação de ter morrido
em Viena, numa tarde de outono de 1992,
numa casa cuja escada nunca subi.
De ser desde então um intruso, um farsante,
o actor sem futuro de uma comédia má.
De que o destino, implacável e rasteiro,
se vingou na longa noite de um hospital,
nas horas vazias que tento preencher.
Inventar, não heterónimos como fez Pessoa,
mas algo mais simples, o homem que escreve agora,
a medíocre perseverança dos seus feitos,
enquanto, insistente, me tenta a ideia de voltar,
de subir de vez os degraus, de bater a uma porta.
Mas quem sabe se ainda uma história pior,
um horror mais nítido me espera ali,
no fim da escada, diante da imaginada porta?


PIERRE DRIEU LA ROCHELLE
DIVAGA PERANTE A MORTE

No fim, penso que tinha razão
- toda a absurda intriga do poder,
a faca implacável da inteligência,
as sórdidas, políticas palavras,
os riscados projectos impossíveis –
sim, tinha razão nesse dia. Lembro-me bem
quando pensei, deitado junto dela,
que o único real era uma boa puta,
Uma pele cálida, uns lábios silenciosos, umas mãos peritas,
naquele bordel, ao pé de Neuilly, ao amanhecer.
Por isso, porque acho que tinha razão, sou mais culpado
- livros, declarações, ideias, lealdades,
o segredo de tudo, o avesso do nada –
quanto tempo perdido para chegar a isto,
para recordar, sem solução já, as suas longas coxas,
o sabor espesso da sua boca, os roçados mamilos.
Chegava uma luz cinzenta sobre a cama,
sobre o seu cu memorável, imóvel,
sim, tinha razão, aquela puta
de quem nunca soube o nome ou talvez tenha esquecido,
o fumo de um cigarro, isso é tudo, eu tinha razão,
e se não a tinha, que importância tem agora?


(trad. J. M. Magalhães)