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outubro 31, 2009

música doméstica (POMPLAMOOSE)


outubro 30, 2009

um óscar selvagem

"A desobediência, aos olhos de qualquer pessoa que tenha lido História, é a virtude original do homem. [...] Posso compreender aquele homem que aceita as leis que protegem a propriedade privada, admitindo que esta se vá acumulando, enquanto que ele mesmo, sob estas condições, tenha possibilidade de realizar, de uma forma ou de outra, uma vida formosa e intelectual. Mas não posso compreender que aquele a quem essas leis destroçam e tornam a vida horrível, possa estar de acordo em que as mesmas continuem. [...] Por esta razão os agitadores são absolutamente necessários. Sem eles, no estado incompleto em que nos encontramos, não haveria qualquer avanço da civilização."


in A Alma do Homem sob o Socialismo, Oscar Wilde

uma coroa de plumas e um anel às cores enfiado no pénis

Umberto Eco, que parece um sujeito atinado, demasiado previsível, creio, por vezes surpreende. No âmbito do Carnaval perpétuo em que as tvs e os jornais tentam encerrar-nos, escreve ele num dos capítulos iniciais de «A Passo de Caranguejo»:

“O imbecil que viaja ao nosso lado no comboio e dirige operações financeiras em voz alta está na realidade a pavonear-se com uma coroa de plumas e um anel às cores enfiado no pénis.”

da música enquanto instrumento de tortura

-- em 5 episódios, uns mais sérios, outros nem por isso



Dizem-me pais de adolescentes o quanto sofrem quando expostos a este tipo de música. Deviam espreitar este vídeo. Sob várias leituras, parece-me muito decente.

---o---

Dizem que os REM e os Pearl Jam, entre outros, subscreveram um pedido formal para que o governo dos E.U.A. divulgue se as suas músicas foram ou não utilizadas para torturar prisioneiros em Guantanamo.

---o---

Dizem que o actual governo hondurenho, através de um potente sistema de som direccionado para a embaixada brasileira onde o presidente deposto se encontra recolhido, tentou impedir o pobre homem de dormir. A banda sonora incluía guinchos de animais selvagens, heavy metal (desculpem a redundância), e uma cantante mexicana com o nome invejável de Paquita La Del Barrio.

---o---

Dizem-me que no final da tarde de ontem terei obrigado alguém muito próximo a ouvir «The Blue Ocean», de Eduardo Mourato, mais de uma dúzia de vezes. Não confirmo nem desminto.

---o---

Digo que enquanto trabalhei entre quatro paredes fui obrigado pelos colegas a ouvir durante dias, meses, purgatórios sem fim, a RFM e a Rádio Comercial.


outubro 29, 2009

um pouco de rap

[…]
Mais ma France à moi elle vit, au moins elle l'ouvre, au moins elle rie,
et refuse de se soumettre à cette France qui voudrait qu'on ne bouge.
Ma France à moi, c'est pas la leur, celle qui vote extrême,
celle qui bannit les jeunes, anti-rap sur la FM,
celle qui s'croit au Texas, celle qui à peur de nos bandes,
celle qui vénère Sarko, intolérante et gênante,
celle qui regarde Julie Lescaut et regrette le temps des Choristes,
qui laisse crever les pauvres, et met ses propres parents à l'hospice.

Non, ma France à moi c'est pas la leur qui fête le Beaujolais,
et qui prétend s'être fait baiser par l'arrivée des immigrés,
celle qui pue le racisme mais qui fait semblant d'être ouverte,
cette France hypocrite qui est peut être sous ma fenêtre,
celle qui pense que la police a toujours bien fait son travail,
celle qui se gratte les couilles à table en regardant Laurent Gerra.

Non, c'est pas ma France à moi, cette France profonde...
Alors, peut être qu'on dérange, mais nos valeurs vaincront,
et si on est des citoyens, alors aux armes la jeunesse,
ma France à moi leur tiendra tête, jusqu'à ce qu'ils nous respectent.


«Ma France à moi», Diam’s

maria



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um programa de governo

- Sei que esta aparênciazita que herdei te leva a pensar que nasci para isso. Até já tenho idade para saber dizer o que convém para chegar lá, mas não quero. Acho que abandonei o sonho de ser astronauta por volta dos 18. Subindo por essa escadaria – é de sucesso que falas, não é? – vai-se ficando cada vez menos capaz de emitir surpresas, de reconhecer novidades. Antes continuar de passagem, conhecendo pessoas de carne e osso, ainda com vísceras, se possível, no máximo de tempo livre que conseguir. Aí já cheguei. Escalar nunca foi vocação. Acima das nuvens, depois da estratosfera, existe um breu medonho. Ao contrário do que se pensa, não é pela lonjura nem pelas limitações técnicas que o espaço sideral é pouco frequentado. É por lá haver muito pouco que valha a pena: satélites, um exagero de satélites, e calhaus, demasiados calhaus convencidos de que são astros.

uma

colecção

uma frase

não porque seja moda e bonito não se terem verdades

outubro 28, 2009

o moinho

“A cultura ocidental desenvolveu a capacidade de deixar livremente a descoberto as suas próprias contradições. Pode não resolvê-las, mas sabe que existem e di-lo abertamente.”

Esta afirmação pode ser lida perto do final de «A Passo de Caranguejo», de Umberto Eco, num capítulo sobre labirintos na antropologia, a dificuldade de estabelecer parâmetros minimamente fiáveis na comparação de culturas muito diferentes, e coisas assim.

Mal passei os olhos por ela, por momentos senti-me também ocidental, melhor dizendo, um figurante de um western, digo, um western spaghetti, daqueles filmados nos bonitos desertos da meseta de Castela. Nele, estou próximo de um moinho quase sem grão. As velas giram sozinhas, sem vento aparente. Rocinante e Sancho já se foram há muito, alegando falta da ração. Foi justo. Quanto a Dulcineia, parece feliz. Adora o calor e a ausência de vento. Eu, eu já nem sei. Gostava que chovesse, trovejasse de vez em quando e, logo após, mais sol, nuvens sem parar, mas receio exigir demasiado. Este moinho parece não ter assim tanto para dar.

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outubro 27, 2009

uma definição de ilha

[e, simultaneamente, um modo ínvio de não dormir ao relento esta noite]

tenho de comprar auscultadores

[fui severamente ameaçado caso Eduardo Mourato continuasse em repeat]

dos açores até à nicarágua

Me presentan mujeres de buen gusto
Y hombres de buen gusto
Y últimos matrimonios de buen gusto
Decoradores bien avenidos viviendo en médio
de un miserable e irreprochable buen gusto.
Yo sólo disgusto tengo.

Un excelente disgusto, creo.


«No», Carlos Martínez Rivas
(encontrado no Pisca de Gente)

só mais uma vez

Gostava que ficasse claro que não estou a judiar com o Sr. Eduardo Mourato (acho esta melodia, o acordeão e o sotaque simplesmente irresistíveis) e muito menos com as gentes dos Açores. Fi-lo uma só vez em Lisboa, quando um casal de amigos de Ponta Delgada se pôs em sentido ao ouvir o hino nacional, e fui de imediato fuzilado pelos seus “maus” olhados. De facto, o único sítio do país onde repetiria férias seria nos Açores (obrigado Elsa, Júnior, Toni, sem esquecer os anónimos tremendamente simpáticos com que nos cruzámos há uns anos em S. Miguel, no Faial, na Terceira e até no Pico).

da silveira, pedro

Agricultor, escriturário, delegado de informação médica, jornalista, historiador, tradutor, bibliotecário, poeta. E também anarquista.

my name is mourato, eduardo mourato

[falta aqui um vídeo]


Chamo-me Pedro, sou Silveira e sou
também Mendonça: um tanto duro, como
Pedro é pedra; picante agudo assomo
de silva dos silvedos-não me dou!
Raiz flamenga, já se sabe; e um gomo,
no fruto, castelhano. E assim bem pouco,
pois, que doce me passara à outra
pátria (ou língua?) que me coube e tomo.

Ainda Henriques (alemão? polaco?)
e outros cognomes mais: espelho opaco
de errâncias várias, que mal sei. (Desfaço,
talvez por isso, no que faço.) Ilhéu
da casca até ao cerne – e lá vou eu,
sem ambição maior que o livre Espaço.


«Soneto de Identidade», Pedro da Silveira

os ceús dos açores estão sempre a mudar

já o mesmo não se pode dizer da música, hoje.

três versos de Pedro da Silveira

Fiquem os restelos para os secos e pecos
que tiveram medo da navegação.
A mim, o Mar!

oh, mas o céu ficou tão azul

Nas minhas redondezas não entendem o groove de Eduardo Mourato nem a razão pela qual este clip se encontra em repeat. Tampouco concordam quando defendo que não se trata de pimba, antes puro pop, que eu gostaria de tê-lo escrito, que o meu nome poderia ser Eduardo Mourato. Por birra e sem qualquer pudor, repito-o.

portugal e o futuro: albânia ou somália?


Quem vive em sítios de menor densidade demográfica do que Lisboa tem uma percepção mais imediata de que metade, ou mais, da população das cidadezinhas, vilas e aldeias deste país dependem directa e indirectamente de empregos municipais, muitos deles com salários que não vão muito além de 500 euros mensais.

Os neoliberaizitos, sejam da bloga ou da análise televisiva, têm razão quando repetem que a sociedade portuguesa se encontra demasiado estatizada. Eu também acho que este país já deveria ter mudado o nome para Albânia ou Bielorussia. O problema é que, sem esses salariozinhos de caridade, e com a pequena indústria e o pequeno comércio a desaparecerem de dia para dia, este país poderia, em poucos anos, passar a chamar-se Sudão ou Somália, um sítio desses onde o Estado praticamente não existe.

Seja com um Estado demasiado presente/decadente, seja com a lei da selva às claras, esta choldra nunca vai deixar de o ser. Não existe vontade bastante para fazer deste um país mais decente para viver, nem nos que realmente detêm o poder, nem na classe média que vai emagrecendo, nem nos que vão disfarçando a miséria como podem.

A única solução, que só peca por ser temporária, foi apontada por Manuel João Vieira há uns anos: deveríamos traçar uma linha recta de Norte a Sul, que delimitasse uma língua de terra com cerca de 5-10 km até ao mar, vender o resto do país pelo melhor preço, e ir estoirando esse rendimento enquanto durasse. Foi o que sempre soubemos fazer.

outubro 26, 2009

algumas particularidades sobre o estado actual da função pública

drunfo.gif

Se, para além da indistinta lata, existe algo de nauseabundo nos arautos da xuxialite vigente são os elogios à coragem do governo anterior em implementar a chamada Reforma da Função Pública.

Qualquer funcionário público, ou quem deles estiver próximo, sabe que na prática as medidas que foram impostas nos últimos anos nem sequer serviram interesses economicistas; tratou-se apenas de contabilidade de mercearia. Nem é preciso atentar nos números oficiais ou oficiosos sobre o défice público para ficar com a noção de que se pouparam uns trocos travando a progressão das carreiras, enquanto se gastaram outros com mordomias, frotas automóveis, etc. Exceptuando a informatização (dos equipamentos, sobretudo), que já vinha dos governos anteriores, a agilização dos procedimentos na compra de casa e na cobrança de dívidas fiscais, pouco mais mudou.

Alguém conhece outrem que possa jurar que o atendimento ao público tenha melhorado, que o tempo de resolução dos casos nas repartições em geral tenha diminuído? Pode ser que se encontre uma ou outra excepção, mas não conseguem esconder o óbvio: a motivação da maior parte dos funcionários públicos, se nunca foi exemplar, é cada vez menor.
Sem rodeios: a responsabilidade deste estado de coisas pertence aos próprios funcionários, às campanhas mediáticas que, por moda, facilitismo ou má-fé, culpabilizam a função pública por todos os défices, e à implementação do famigerado SIADAP.

Este esquema (Sistema Integrado de gestão e Avaliação do Desempenho da Administração Pública), anunciado como solução, imperativo nacional, quase-milagre que iria obrigar finalmente os funcionários, “esses parasitas”, a trabalhar, consiste basicamente nisto: dificultar o acesso da maioria aos salários mais altos no final das suas carreiras e colocar nas mãos do chefe de cada repartição o poder de avaliação dos seus subordinados.

Convenho, o defeito não reside exactamente na aparente razoabilidade desses princípios se nos esquecermos que as chefias da maior parte das repartições (as excepções, que as há, que me desculpem a generalização seguinte) têm entre os 50 e os 60 anos, quase todos com 20-30 anos de serviço, já desiludidos com a catadupa de medidas para-inglês-ver que os sucessivos governos foram implementando só para mostrar serviço, já sem grande vontade de assimilar impulsos de renovação dos procedimentos, a contar os anos que faltam para a reforma, muitos deles rendidos a essa prática siciliana de beneficiar sobretudo os amigos e os lambe-botas, prática essa, diga-se passagem, comum à maior parte dos portugueses e que compromete, logo à partida, a eficácia de qualquer avaliação pelo mérito.

A maior parte dos funcionários entre os 30 e os 40 anos (esses mesmos, os da chamada “geração rasca”, nascidos nos anos 70, mais habilitados em termos informáticos e ainda com vontade de mostrar o que valem) pode afiançar o que acabei de referir sobre demasiadas chefias na função pública.

Não pertenço a essa “geração”, não trabalho numa repartição, mas já trabalhei alguns anos e conheço de perto muitos dos que ainda nelas trabalham; conheço o suficiente para acreditar no que me vão dizendo: os novos métodos de avaliação, se poderão servir para poupar uns cêntimos no futuro, não têm valorizado o mérito individual como apregoam, não melhoraram o serviço público e só têm contribuído para desmotivar os funcionários. Como será possível considerar estes sistemas esquemas de avaliação elementos-chave da Reforma da Função Pública, se não passam de um conjunto de medidas que tem reforçado o poder dos que já ganhavam mais e que, apesar disso, continuam a ser os menos motivados para melhorar seja o que for?
Até já me ouço a repeti-los, aos mais velhos, a esses mesmos que acabei de criticar: é só treta, vão enganar outro.

outubro 25, 2009

pin-ups


Pin-ups. É desta. Vou perder algum tempo a procurar fotos de pin-ups. A imagem do gajo feio mais abaixo merece contrapeso. Ademais, fotos com pin-ups descansam as vistas. Podem ser hollyosas, mas não o gajedo langoroso do costume. A Scarlet Não Sei Quê? Nem pensar. Há mais luz nos olhos de uma mosca morta.

Pin-ups. Têm de deixar transparecer uma faceta única (delas ou do fotógrafo, não importa), um lume que ressalte do olhar, um clarão preso na pele que recobre os ílios, aqueles ossos-parêntesis que desenham as ancas. E as clavículas? Oh as clavículas! Palavra nenhuma nem mil biopsias do coração conseguem revelar a fragilidade de um ser quanto aquelas travezinhas de osso que seguram os ombros e libertam o vampiro adormecido em cada um… onde isto já vai… mordo a língua.

Pin-ups, vou perder algum tempo a procurar fotos de pin-ups. Desde que não se confundam com estátuas gregas, entediantes na sua perfeição. Desde que simultaneamente transmitam perigo e conforto. Vou perder tempo, claro: as pin-ups vivem dentro de redomas.

outubro 24, 2009

gente execrável

VitorConstancio.jpg

Qual a credibilidade deste gajo? Não conseguiu controlar as asneiras de 3 bancos – o seu trabalho – e tenta de novo, com os bitaites do costume, condicionar os salários de milhões. Ridículo.

Igualmente ridículo é utilizar o argumento da competitividade para justificar o congelamento dos salários. Todos os defensores desta falácia sabem-no muito bem: para competir com os asiáticos teríamos de reduzir os salários para níveis de há 20-30-40 anos ou mais, o que seria obviamente impraticável. Dizem eles também que ganhamos mais do que aquilo que produzimos. Ora, é visível por essa Europa fora que os portugueses quando bem pagos rendem tanto como os demais. Por esta altura, já deveria ser claro que o único objectivo desta corja é manter, senão aumentar, os privilégios que detém, marimbando-se para o resto da população.

gente admirável

palacios.jpg

"Morreu Artur Palácios. O nome não dirá muito a muitos leitores. Tinha 74 anos. Militante comunista muito antes do 25 de Abril, foi do PCP, depois da UDP e por fim do Bloco de Esquerda. Foi aí que o conheci. Foi operário e activista na Lisnave e, como morador do Casal Ventoso, em Lisboa, um lutador incansável pelas condições de vida dos seus vizinhos. Um líder de tal forma insistente que todos os poderes locais, mais tarde ou mais cedo, acabavam por lhe ceder. Fosse porque não os largava, fosse porque lhes punha os moradores na Assembleia Municipal ou, quando a coisa era mais grave, a cortar a Avenida de Ceuta para que alguém os ouvisse, com ele nunca nada ficava apenas pelo lamento inconsequente. Dentro do partido, era rijo e muitas vezes crítico.
Discordaríamos em muita coisa, com toda a certeza. Mas o Palácios, que não deixava ninguém parar, […] tinha o mais importante, muito para lá de qualquer discordância: vivia para a política naquilo que ela tem de melhor. No fim, já praticamente cego, continuava a sua militância no Bloco e as lutas no seu bairro. Entregou a sua vida à política e ao trabalho e morreu pobre. Lutou até morrer. Os livros não falarão dele. […] Mas os seus vizinhos e os seus camaradas nunca o esquecerão. E é destes homens sem fama que se fez e faz a história da esquerda. Homens como o Palácios."


no Arrastão

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outubro 23, 2009

hendrix

Se puderem, perdoem-me mais uma vez o tom aparentemente hiperbólico: mais abaixo encontra-se o sumo (é uma versão, mas não importa) do melhor pop-rock de sempre. «Rock» pela evidência; acrescento-lhe «pop» pela contenção, pela síntese, pelo brilho da guitarra que nunca vai demasiado além, pelos versos quase bíblicos do trovador que nunca aprendeu a cantar. Consta, também, que Hendrix não era avesso a alimentar a sua veia com aditivos. Mal ele sabia que uns quinze anos anos depois me iria servir desta música para sair da cama e varrer umas frequências a jacto, tal como ele se serviu dos dedos únicos, acelerados pela cocaína e pela heroína, para incendiar guitarras e os tímpanos de quem o ouvia. Ainda hoje, já a seguir, vamos partir para a noite de Lisboa, embalados nos seus riffs. Não é novidade para nós: somos medíocres, felizes por vezes, não precisamos de muito mais.



devaneio sobre o afecto, o conhecimento, o abandono e a depressão pós-parto

Há, talvez haja, uma qualquer relação doentia entre o conhecimento e o afecto. A meia dúzia de excepções que tive a sorte de encontrar não me afastaram da vizinhança desta regra: quanto maior é o esforço dispendido na formação do bom-gosto menor parece a capacidade de demonstrar afecto.

Em cima ficou a parte aparentemente razoável deste devaneio. Se conseguisse, como dantes, ler livrecos de ficção científica, o passo seguinte seria confabular uma entidade pan-galáctica, minimamente divina, empanturrada de conhecimentos que lhe teriam permitido fabricar criaturinhas como nós, para se ver, pouco depois, obrigada a abandoná-las para todo o sempre, por ser absolutamente incapaz de sentir fosse o que fosse por elas.

Descendo das nuvens, deixando para trás o contágio religioso, demasiado comum na ficção científica: cheguei a conhecer duas mães que diziam não sentir o que seria suposto as mães sentirem pelos seus bebés. Isso, sim, foi estranho, muito mais do que qualquer fantasia.

outubro 22, 2009

trivialidades sobre kerouac

Enquanto buscava as duas imagens mais abaixo de Kerouac deparei com algumas trivialidades. Na segunda metade dos anos 60, quando os seus livros da década anterior circulavam como gotas de LSD pelos campus das universidades americanas, Kerouac terá evitado as atenções públicas, refugiando-se em casa a cuidar da sua mãe, cito-o, «para compensá-la dos anos em que trabalhou para que ele pudesse escrever». Consta que chegou a afugentar jovens admiradores com argumentos em defesa da guerra do Vietname. Numa entrevista televisiva, Truman Capote terá dito sobre a sua escrita «aquilo não é escrever, é dactilografar». Já antes disso, Kerouac tinha afirmado ter demorado três semanas a completar On The Road e costumar escrever em rolos de papel de telex (cfr. foto abaixo) para não interromper a torrente de palavras que o importunava. E é só. Hoje, não me apetece debitar moralidades de sacristia sobre o facto de Kerouac ter passado o início da sua vida enquanto escritor em busca do reconhecimento público e o final dela a fugir disso como um junkie da polícia. É só, dizia eu, se bem que me agonie esta associação recorrente entre a escrita e a necessidade de solidão. Seja como for, foi nessa condição que Kerouac veio a falecer, com 46 anos, entre vómitos de sangue. É só, repito, antes de procurar alguma música para afugentar esta azia. Não gosto nada deste blog em dias assim. Preciso dançar.

«where my ink comes from», jack kerouac

Pins and needles from within
reach out toward
the air,
the oxygen that I breathe in.

I feel them push against
my skin,
aiming to puncture
and win.
My defense is this paper
and this pen.

I concentrate the pain
to fit nicely
on this page,
by letting it seep
slowly from my mind,
and into this ink;
where on this page
it begins to sink.

mundivisão

Eu até ontem lia um jornal chato. Agora leio o i. Gosto desta mundivisão. Um menino ficou debaixo do comboio, foi arrastado 30 metros, e saíu ileso. Lemos o título, vemos os fotogramas e depois voltamos, para ler as letrinhas pequeninas. Mais à frente, outro título informa-nos de que o filho de um jogador de futebol caíu do 7º andar. Estranhamente, lemos isto sem angústia e voltamos a folha, na mesma paz. Confirma-se a benignidade destes desastres: a criança, amparada pelo i, só partiu uma costela, coisa de nada.
Na página três uma sexóloga informa que a vagina das mulheres fica húmida "quando o tempo aquece".
Mais à frente, Cardinali é amigo dos animais, ninguém duvida. No i, o leão branco está feliz pelo cativeiro e por ser exibido às crianças de Évora.
O mundo do i é levezinho, curto, como uma brincadeira de crianças em que morremos e nos levantamos em seguida, ninguém se magoa e a Laurinda Alves faz pendant.


n'A Natureza do Mal

outubro 21, 2009

kerouac

jack-kerouac1.jpg

but then they danced down the street like dingledodies, and shambled after as I've been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn

levezinho

O moço até podia ser indonésio, ou espanhol, que eu não quereria saber, pois já vai sendo tempo de extinguir tudo o que assemelhar a um passaporte. Só que os futebóis não vêm ao caso.

liedson.jpg

O "problema" esconde-se atrás do conceito de «leveza». Decididamente, não aquece nem arrefece. No que mais me interessa (as palavras? as pessoas? a gastronomia), esquecendo pindéricas “tias”, alguém consegue jurar satisfação diante da “nouvelle cuisine” ou da chamada “comida gourmet”? Nestes tempos de dilúvio de imagens, palavras, ideias-enfim, um "prato" levezinho simplesmente não funciona. Só snobes enfartados da gordura dos dias (“peidos-moles”, diria um saudoso amigo) preferem a elegância à substância, trocam as fomes que deveras sentem por suspiros delicodoces. Pois bem, se isso vos agrada, óscares-pouco-wilde da pastelaria da esquina, continuem a enfiar rebuçados nos vossos cus. Até que se fartem de tais odores, os narizes do povo ficar-vos-ão agradecidos.

Os artistas da minha terra enchem de sucesso as mesas dos cafés. Vêm todos de famílias muito antigas, numerosas e diversificadas. Enquanto perecem em leitos de versos, sons e imagens, alguém lhes pergunta: vão-nos deixar filhos? Mas eles respondem como se ouvissem: vão-nos deixar, filhos? Abotoam-se em casacões de feltro, abraçam-se uns aos outros. Com cem euros de idiotia compram muitas soluções para cozinhados líricos. Dão-lhe com o almofariz na rima e o poema d’alho na frigideira. É refeição. A fábrica que lhes coseu as dobras faliu, o psi foi entrando numa queda que nunca mais se viu, a idade ordena-lhes revisões no orçamento. Para eles, é apenas uma questão de tempo. Transaccionam acções como quem coça os colhões.


Henrique Manuel Bento Fialho

Eu sou a cabra que tu vês à esquina logo de manhã quando caminhas com o cabaz das compras e a criada atrás
Fui eu quem assaltou hoje a mercearia do sr. José, coitado, mesmo à tua porta, e causou um alvoroço enorme
Eu, arrastei a tua catraia tão sossegadinha à força para o vão duma escada e, acredita, nunca pensei que uma miúda assim já soubesse tanto
E passo acima-abaixo na rua rente à janela do teu lar à procura dum homem, tu és dos que chamam palavrões a este cio homossexual e escondes a cara nas cortinas
Eu sou das que perdem os dias no café sem fazer nada, essa canalha
Deito-me com mulheres de qualquer idade e até faço amor com uma filha
Tenho vísceras astrais, a minha boca conhece a do anjo de Filadélfia
Visto-me de maluca, visto-me de bom senso, quando calha até me visto de coisa sonsa e hipócrita
Durante a noite ando aos caixotes, mergulho o nariz na náusea dos edifícios
E partilho das gamelas dos freaks desta cidade
Não me chateies com os teus problemas transcendentes


Paulo da Costa Domingos

outubro 20, 2009

um olhar a norte

m-a-e.jpg

autenticidade é o nome do sítio

Nem pensar em construir um edifício coerente. Deixemos isso para engenheiros do previsível, para quem rega hoje o que plantou ontem e pretende colher amanhã. O mais das vezes, aproxima-se o nariz e o resultado é a mesma merda de sempre.

Qual o problema em assumir hoje uma posição antagónica à que defendemos ontem, há um, seis meses? Desde que ao proferi-la nela acreditemos e dela façamos parte, de alto a baixo, o que importa o resto?

Atentar em contradições é função dos notários, dos conservadores de estufa, dos amantes do mofo, de quem receia experimentar toda a paleta do espectro. Se bem que pareça, não me refiro à agricultura nem à construção civil. Construção individual? Talvez ou nem isso.

Esta abordagem do dia-a-dia permite dizer o que se pensa a quem se acabou de conhecer, sem querer saber das consequências. Se um ou mais reagirem de forma negativa, qual o óbice? Apenas um sinal de que este ou aquele preferem palmadinhas nas costas, evidência clara de que não vale a pena porfiar em conhecê-los.

Não, não estou a falar da Verdade e labirintos do género. Autenticidade é o nome do sítio. Experimentem passar por lá uma, mais vezes. Pode doer aqui e ali, mas a sensação de liberdade que daí resta não tem preço.

a pedido: uma canção de amor dos everything but the girl

Ontem à noite. Final do pedido:
- Posso judiar um pouco com o refrão?... É assim meio…
- Basta-me que ponhas a música. O resto é contigo.

[a partir daqui, o diálogo, se bem que possível, foi inventado]

- E se meter a seguir um belo poema russo para que as pessoas por natureza mais taciturnas, e sobretudo as que assumem tal pose, se sintam um pouco mais mais sábias que as demais?
- Se lhes servir de consolo…



Vinte e um. Segunda-feira. É noite.
No escuro uns contornos de cidade.
Algum vagabundo escreveu
que na terra pode haver amor.

E por tédio ou por preguiça,
todos acreditaram e assim vivem:
esperam encontros, temem adeus
e cantam canções de amor.

Mas a outros revela-se o enigma,
e o silêncio repousará sobre eles...
Descobri isto por acaso
e desde esse momento sinto-me mal.


Anna Akhmatova

dois versos de Tracey Thorn

so pay no mind to those who say the world is unkind
that's just something they've read

outubro 19, 2009

mais um seriíssimo candidato a comentário do ano

comentario-do-ano.png

de como aleivosamente me servi de Dylan & Buarque para desancar nos mais velhos

No meio de tanta caralhada debitada em quase cinco anos disto, receio nunca ter utilizado o palavrão «idiossincrasia». Desfaço o tabu: ressalvando as idiossincrasias de cada um, e mesmo sob a noção de que posso estar a cometer uma enorme injustiça com dois autores, cuja obra, de tão vasta, não merece ser limitada a uma frase, suponho que posso definir o meu apreço por Bob Dylan e Chico Buarque de uma só forma: valorizo as suas palavras na razão inversa da sua voz.

Não seria preciso, mas especifico: algures no século passado, cheguei a pensar que a minha aversão por ambos derivaria/estaria contaminada pela pouquíssima consideração que tinha e tenho por muitos dos seus fãs. Na segunda metade da década de 70, ainda demasiado jovem, ainda demasiado totó, o irmão mais velho já tinha levado para casa um livro com os poemas/canções de Dylan, que me impressionaram, não pelas ideias (era demasiado cínico, virtude que a passagem do tempo foi esbatendo), mas pela forma como brincava com as palavras. Não obstante, considerava uma estopada, sem redenção possível, os finais de tarde na mítica praia do rock’n’roll, em Vila do Conde, com amigos a cantarem «the answer, my friend, is blowin’ in the wind», e outras xaropadas, piores ainda, de Cat Stevens e afins.

Vou mais além: aos meus olhos púberes, a maior parte daquela malta que então inspirava arrobas de liamba para exalar pouco mais do que «yá-tás-a-ver-podes-crer, o que é preciso é curtir, amor-muito-amor», queria apenas aproveitar a liberdade sexual que não existia antes do 25 de Abril. Sexo e foçanguice, ora aí está. Paz e amor eram meros chavões importados, talvez utéis nos preliminares. Claro que é muito fácil debitar moralidades enquanto se é jovem. Mais difícil seria fechar os olhos diante da hipocrisia de tanto falso profeta que surgiu depois da revolução dos cravos. Convém aqui acrescentar que Dylan sempre rejeitou (cfr. diversas entrevistas, disponíveis nos tubos do costume) ser considerado como porta-voz da sua geração.

Quanto ao Sr. Buarque, a aversão adveio muito depois. Muito da sua melhor música foi divulgada por cá no pós-25 de Abril. Dez, vinte anos após, foi quase doloroso vê-lo idolatrado por quem agora terá entre 50 a 60 anos, quantos deles fãs de chatos como Luís Represas e da chamada world music, adeptos inconscientes de preceitos morais proto-fascistas no que toca aos seus filhos, presos em noções ultrapassadas de respeitabilidade artística, tantos deles sem qualquer noção de rock’n’roll.

Pois bem, o facto de A ou B, e outras letras do alfabeto, adorarem Dylan e/ou Buarque não bastaria para me impedir de gostar da sua música. A origem da minha aversão é bem mais simples: sendo a voz é o instrumento que mais privilegio nos outros custa-me valorizar quem só sabe cantar pelo nariz. Lá por isso, no post de baixo, segue uma versão instrumental e não a canção original de Chico Buarque.

dois posts e um vídeo encontrados n'A Barriga de uma Arquitecto

A arquitectura, às vezes, também me chateia

A sério. Eu não quero ter mau feitio. Mas a arquitectura, às vezes, também me chateia. É que parece que vivo no país dos Mister Glasses. Acho que os meus colegas arquitectos pensam que somos todos parvos. Parece que é coisa da arquitectura contemporânea, aquela com “linhas modernas”, genuína da Bayer. Vocês sabem. As caixas brancas suspensas no ar. Eu cá não sei, mas parece que imaginamos o povo como uma cambada de tolinhos a “extasiar” perante as paredes brancas. Paredes não, paramentos, que é mais poético. Eis, então, tudo a extasiar perante os volumes hirtos no horizonte. Coisa linda. E depois aquelas rampas, é sempre importante meter umas rampas o mais compridas possível. Não interessa de onde vêm e para onde vão. É importante é estarem lá, a fazer rima na poesia. Como a arquitectura, não precisam de ir a lado nenhum. E que dizer daqueles espaços exteriores, ermos de terra batida. É que agora até está na moda meter uns animais nos renders, é um trend, sabem? Mas, nestes projectos, nem as vacas lá podem pastar. Fico sempre sem saber se faltou o dinheiro ou faltou a inteligência. Quer-me parecer que faltou o primeiro por falta da segunda.
É que me dá cá umas comichões nos neurónios que fico a pensar que prefiro uma boa casa de emigrante. Que diabo. Essa ao menos diz-nos coisas, está cheia de pequenas pérolas de sociologia. Sim, os autores podem ser uns labregos, mas estão vivos, vibraram com aquele azulejo, sonharam com aquela escada saída de uma casa de estrunfe como viram na telenovela. Estão refucilando alegremente na charca da vida. A mim, às vezes, confesso, também me apetece.



Eu nunca quis ser jovem (com negritos meus):

Eu nunca quis ser jovem. O que queria era ter história. Estas palavras de Lina Bo Bardi são hoje tão contra-corrente que merecem reflexão. O modo como encaramos o acto de envelhecer muda durante o percurso de uma vida inteira. Todos sabemos, em abstracto, que vamos morrer um dia. Mas, enquanto jovens, a abstracção esmaga-lhe o significado. É bom ser imortal. Recordo-me do tempo em que envelhecer tinha um sentido de desfasamento das coisas. Ficar velho é perder o fio da contemporaneidade, é o caminho para a incompreensão do presente, na linguagem, na música, na moda. Ah, quanta arrogância. Há um momento na vida em que a morte, por uma conjugação de factos, se torna real. Percebemos que a morte está lá, algures na nossa frente, inevitável. Para alguns a consciência trará temor, angústia. Para todos, talvez, um enorme sentido de perda das coisas, de toda a experiência, todo o saber que se vai perdendo em nossa volta, até que nós próprios nos extingamos, um dia, no vazio do esquecimento dos outros. Presumo que não seja fácil ser jovem, hoje. Mergulhados num mundo que os envolve em subtilezas, adquirindo comportamentos, costumes, códigos invisíveis. Curioso que a sociedade da televisão produza uma imagem eternamente rebelde dessas criaturas mitológicas, para citar João Lopes, estereotipada à exaustão em mil e uma novelas “para jovens”. Uma estética desalinhada, no penteado, nas calças descaídas, no estilo informal, simulação perfeita de uma irreverência toda ela ficcionada. Quem leia o conteúdo pela superfície tomará essa imagem como digna dos novos hippies, de tão ostensivamente anti-sistema. E, no entanto, nos mais pequenos pormenores se denuncia o afinco de um produto de consumo desenhado em laboratórios de marketing social, fabricando pequenos seres para quem a vida não faz sentido sem os seus iphones e ipods. Não, não é fácil ser jovem, hoje. Não é fácil resistir aos estrategas dos targets que barricaram o seu trajecto, implacáveis. Não é fácil compreender que nem sempre o que somos e o que pensamos nasceu na nossa cabeça. Que as convicções, os gostos, os desejos, até a formatação dos afectos, nos é incutida por uma profusão de veículos externos afinados para nos seduzir como esponjas. Sei que estou a ficar velho. Pertenço a uma geração sem causas. A minha geração não tem nada que a defina para além de uns programas de televisão e umas gasosas que deixaram de existir. Não, nós não fizemos nenhuma revolução, não protagonizámos nenhum conflito de gerações, não vislumbrámos nenhum sentido, não erguemos nenhum símbolo, não alvitrámos doutrina em que valesse a pena erguer uma sociedade. Na melhor das hipóteses, mostrámos o rabo a um qualquer ministro por causas fúteis há muito esquecidas de todos. Somos uns rebeldes na nossa cabeça. Uma coisa apenas nos define. Não gostamos muito uns dos outros. Mal educados para a vida em comunidade, somos complacentes com os nossos defeitos que intoleramos, passe a palavra, em todos os outros. Desengane-se quem tome tal por desatenção ou charme latino. É, tão só, uma tragédia. Sim. Eu sei que estou a ficar velho.

outubro 18, 2009

Baker

chet-baker-stereo.jpg

Carlin

- To be considered a success in a mediocre culture doesn’t say a lot for you.


(entrevista)

Vidal

Jornalista: Of course, it’s too early to talk about your legacy, but how do you want to be remembered?
Gore Vidal: Anybody who is stupid enough to want to be remembered deserves to be forgotten right now.

(entrevista)

outono ainda, outono sempre

p.f. não me acordes morde
quem tentar não oiças o refrão
resiste ao fado dos dias mata
o primeiro cabrão que se atrever
a repeti-lo p.f. não me acordes
deixarei de acreditar em ti logo
que o faças sem pressa o inverno
há-de chegar antes tarde que
cedo tudo nesse entretanto

and her bones curve with notional time

She has full, soft lips and is beautiful.
How he knows she is beautiful who can say?
She may be the image of the Malay bride on the travel guide cover.
But she is faceless, not frightening,
and her bones curve with notional time.
He is kissing her. They are naked. The she is singing
in the only African language he can understand.
Her voice is a young woman desiring a child.
She is singing the lullaby or nursery rhyme with an elusive melody
that he has heard before, years ago, in another dream.
The traces of her song could deconstruct him if allowed to,
but before he can summon a word they are inaudible again.


The Dream, John Mateer

outubro 17, 2009

oh no! oh my! let's ride bikes into the sea?

este outono, caramba

Não sei onde esconderam as maçãs. Esta luz, no entanto, tem andado por lá, ao fim da tarde, na praia do mesmo nome.

parabéns para o arrumador e para o comentador

Neste dia de semi-aniversário do blog Jugular, transcrevo um post de 15/10, de Fernanda Câncio, que recebeu um comentário que eu gostaria de ter escrito:

"hoje fui falar com um arrumador de carros da zona do marquês que fica com as chaves de dezenas de carros. a ideia era fazer um perfil dele, daqueles com foto. contar a história da vida, porque é que faz aquilo, quanto ganha, como conseguiu que lhe confiassem os bólides, etc. lá o abordei, sorridente, explicando quem era (jornalista do dn) e ao que vinha. e ele: 'obrigado mas não tou interessado'.
e eu, parva: 'não? porquê? não quer ser famoso, é?' (tive vontade de me esbofetear logo ali). ele: 'não'.
ainda insisti um bocadinho mas lá bati em retirada. é para aprender."



.

outubro 16, 2009

o que é feito da crise?

Esta tarde, na boca do metro do Rossio, estava uma rapariga com um gigantesco par de mamas debaixo de uma t-shirt preta com os dizeres: A VOID WITHIN.

Num outro dia, o parágrafo supra bastaria para mais um post ocioso, mas, se qualquer ironia se dilui quando demasiado evidente, há factos que, não sendo uma novidade, devem ser relembrados, não para exaurir a notícia em si mesma; antes para que esses factos possam, um dia, deixar de sê-lo. Seguem-se dois exemplos retirados do Público (via O País do Burro).

Segundo a Assistência Médica Internacional (AMI), os seus centros Porta Amiga apoiaram no primeiro semestre deste ano mais 10 por cento de pessoas do que no mesmo período do ano anterior. "Estes valores demonstram uma nítida tendência para um crescente número de casos de pobreza persistente. A grande maioria destas pessoas encontra-se em plena idade activa, entre os 21 e os 59 anos de idade", pode ler-se num comunicado daquela organização. […] Também a Rede Europeia Anti-Pobreza se manifesta preocupada com a situação em Portugal, onde afirma que 18 em cada 100 pessoas vivem na pobreza. […]

Em declarações à Lusa, o presidente da União das Misericórdias Portuguesas considerou que "a pobreza envergonhada é um problema crescente em Portugal e a crise veio dar amplitude a este fenómeno". […] apontou o exemplo de Itália, também confrontada com idêntico fenómeno, onde o apoio alimentar, por exemplo, é distribuído por instituições sociais em carros não identificados e em sacos plásticos de supermercado". […]
"São situações que devem ser abordadas com delicadeza e cautela. Temos casos em que os pedidos chegam por e-mail, tentando evitar dar a cara". […]
"O perfil dos utilizadores das nossas cantinas tem vindo a mudar. Ao contrário do que era habitual - as pessoas chegarem, conversarem e deixarem-se ficar - agora temos muitas pessoas que chegam, comem rapidamente, se possível viradas para a parede, e saem […] São normalmente pessoas que pertenciam à classe média” […]

Ainda n’O País do Burro:
"Entre nós fala-se muito pouco disto: a maioria das pessoas que perderam o emprego no último ano ainda está a receber subsídio de desemprego, mas, à medida que o tempo passe, serão cada vez mais aqueles que verão chegar ao fim o período em que tinham direito a recebê-lo. Caso os moldes de atribuição da protecção social no desemprego não sejam entretanto alterados, ficarão entregues à sua sorte, quer na subsistência, quer no cumprimento das suas obrigações de crédito. Ao contrário do que tenta vender-se, o pior da crise ainda não chegou."

estes não são candidatos a ministros do próximo governo




nem este verso é de Ronsard: Mignonne, allons voir si la rose...

outubro 15, 2009

para o Igor, um emérito egitaniense

Sobre «Walter Benjamin», de Esther Leslie, escreveu Rui Bebiano n'A Terceira Noite:

Este é um retrato quase íntimo, como um close-up, da vida e da obra de Walter Benjamin. Conhecem-se os livros publicados em vida – apenas quatro monografias, uma colectânea de cartas, traduções avulsas para o alemão de Proust, Balzac e Baudelaire – suficientemente frequentados e glosados, mas o berlinense deixou outros indícios. São alguns destes – pequenos ensaios e notas de leitura redigidos para jornais, revistas literárias e publicações académicas, transcrições parciais de alguns dos 90 programas de rádio que realizou, cartas e memórias deixadas por muitos daqueles com quem cruzou os passos – que Esther Leslie aproveitou de forma inédita para seguir de perto o seu trajecto invulgar.

Pequenos trechos, ténues pistas, anotações casuais que permitem seguir Walter no seu extravagante amor por brinquedos, pelos livros infantis, por barcos e viagens, por mulheres impossíveis. Entre os contactos com a Escola de Frankfurt, as ligações que manteve com Adorno, Scholem e Brecht, e as constantes deambulações pela Europa, redescobre-se a genealogia quase diletante dos seus escritos mais conhecidos, os fundamentos do limitado impacto que à época detiveram, bem como os contornos de uma vida privada quase sempre instável, dependente, atormentada. Ao mesmo tempo, recontextualiza-se o interesse multifacetado e fragmentário pela estética da tecnologia, pela cultura urbana, pelo peso das ruínas ou pela teoria marxista, reconhecendo em Benjamin alguém que viveu fundamentalmente, quase sempre, para o/através do relacionamento com os outros [...]


Carretera 340

brilho-cinza.jpg

[num regresso a Portugal, no Verão de 2004]


Há ali uma estrada, entre Tarifa e o Cabo Trafalgar, onde pessoas correm o risco de desaparecer. Não deve, mas parece ter sido desenhada à medida da condução nocturna. Se a Lua estiver insomne, o mar ocupa toda a visão lateral, enquanto curvas suaves se estendem em frente, por incalculáveis quilómetros sem casario. No meio da penumbra, a água tremeluz por defeito lunar. A cada ondulação da estrada, os faróis do carro acendem e apagam o asfalto. Ao longe, viaturas em sentido contrário devolvem essas intermitências em tamanho reduzido. Quando se aproximam, ninguém parece conduzi-las.

E tu, dentro do teu carro, sorris para quem há muito te acompanha, ambos imersos num emudecimento cúmplice, trocando olhares nos relevos mais pronunciados do caminho. Nem tu nem o teu amor são exactamente visíveis, mas há um brilho pálido que vem do redor e vos afaga os contornos. E então pensas, mas não dizes, podíamos perfeitamente morrer neste instante, agora que este céu parece ter descido sobre nós; porventura, não precisamos porfiar, não há mais além para onde ir. Claro que, pouco depois, um medonho camião se vos cruza e desperta, num enorme bruá que ambos, agora tagarelas, agradecem.




[também não vem muito ao caso, mas, perto dali, há uma praia onde naquela altura costumavam arribar africanos com sonhos de Europa, para serem depois devolvidos à procedência / a tocar lá em cima: «Hospital», de Alberto Iglesias, pela London Session Orchestra]

outubro 14, 2009

algumas diferenças entre capitalismo e democracia

Por volta do minuto 2:20, Moore reformula uma pergunta do entrevistador:
- Caramba, Mike, tens uma boa vida. Podias gozá-la. Porque te importas com toda essa gente sem empregos nem seguros de saúde? Tu não perdeste os teus...

reflexões de um canguru sobre caviar e cavalos de tróia

Uma questão pertinente colocada, uns posts mais abaixo, por John Mateer:

Posso dizer oponho-me a toda a civilização sem me encontrar numa cidade cercada, sem ser um cavalo de tróia?

pode levar-te a saltar para um parágrafo antigo de Carl Sagan, em Broca’s Brain:

Reparo que muitos jovens já perfeitamente desencantados com a civilização tecnológica ocidental – frequentemente por boas razões – continuam a manter uma fervorosa dedicação a certos aspectos da alta tecnologia; por exemplo, aparelhos musicais de alta fidelidade.

e, logo após, para o prefácio de Ernesto Sampaio em O Declínio da Mentira, de Oscar Wilde:

Digamos que [Wilde] não resistia ao prazer perverso de proclamar as excelências do ancien régime ao mesmo tempo que se revoltava contra ele, como aqueles aristocratas franceses bandeados para o campo revolucionário, que gritavam viva o rei enquanto ajudavam a cortar-lhe a cabeça.

para poisares, depois, perto daqui:

Podes não poupar o suficiente para as sonhadas férias na Ásia Central e na Patagónia, os teus cinco ou seis amigos decentes podem viver a 400 kms de distância, mas eis-te chegado a um Outono em que os mais e os menos da tua vida afectiva, profissional, financeira e o diabo, se encontram em sossego. Organizaste a tua vidinha o melhor que sabias, sem nada fazer pelos demais. Sentes-te quase livre de constrangimentos e labirintos; quase livre de ti mesmo só te resta atentar no redor. E não gostas de muito do que vês. E ouves-te proferir (não aqui, não exactamente aqui) apreços e pareceres frequentemente mais radicais do que aquilo que conheces de ti mesmo. Pressentes algo de errado nisso, mas não podes deixar de fazê-lo enquanto os que têm razões mais fortes para protestar continuarem mudos.

isto não é uma girafa


relatório trabalhista ou o que andarão a tomar alguns velhotinhos de lisboa?

Ao fim de quinze minutos de entrevista da minha praxe com uma senhora de setenta e tal anos sem nada de incomum a assinalar, diz-me ela que da janela da sala, está ver? daquela ali, costuma avistar crocodilos a descer do céu em paraquedas. Sorrio, claro, como não?, mas por dentro sobra algum desconforto por ter demorado tanto a aperceber-me da condição mental da senhora. Já não é a primeira vez com pessoas desta idade. Andarei menos atento? Tenho de ver se há algum padrão nisto. De qualquer modo, à saída, pergunto-lhe se posso usar aquela imagem do crocodilo de paraquedas na internet. Ela sorri, acho que não entendeu, diz que sim, mas não diga que foi a Adília que disse. Coço uma têmpora e fecho a porta. O seu nome nem sequer era Adília. Há dias em que isto dói.

outubro 13, 2009

sobre o peso que quase todos vamos sustentando

No Auto-Retrato, sobre as legislativas, mas extensível a todas as outras eleições desta democracia:

Mas se não fosse a sério, pensaríamos: coisa estranha que aconteceu aos líderes dos partidos no momento do discurso da vitória; eles, que se apressam sempre a lamentar os números da abstenção e o desinteresse geral dos portugueses, esqueceram-se de referir a ausência de 4 milhões. Ausência ou presença absoluta? O regime que nos tem governado faz por esquecer estes descontentes, mas, mais tarde ou mais cedo, o seu peso será insustentável.

não vivo no porto, provavelmente nunca viverei, e também acho curioso esse facto

Não será a primeira vez, nem a última, espero, que encontro, fora dos blogues mais especializados em actualidades de natureza política, reflexões/constatações muito bem formuladas que se enquadram nessa mesma área. Desta feita, em Welcome to Elsinore:

“Os mais acérrimos defensores (que conheço) da actual gestão autárquica, não vivem e provavelmente nunca viveriam no Porto. Sempre achei curioso este facto.”

mateer

a língua e a cidade

As I write this line it is in a foreign language.
As I think What does this mean? I remember a sentence
by the allegorical novelist who is said not to speak.
He was a linguist, and his wife is said to interrupt party conversations
by saying : "John has something to say." Can I say,
I oppose all civilization, without being in a city under siege,
without being a Trojan horse?

As I write these words,
the sentence I DO NOT SPEAK MY OWN LANGUAGE is in my head
like the line of an ascending aeroplane piercing through cloud.
But I must tell (who?) --

Beware of those bearing grief in comprehensible words.
Beware of your mouths.


«Dark Horse», John Mateer

outubro 12, 2009

a raquel

constant-gardener.jpg


constant-gardener1.jpg

dois recortes do filme O Fiel Jardineiro

valha-nos isso

Devo dizer que sempre preferi
os versos feridos pela prosa
da vida, os versos turvos
que tornam mais transparentes
os negros palcos do tempo, a dor
de sermos filhos das estações
e de andarmos por aí, hora após
hora, entre tudo o que declina
e piora. Em suma, os versos
que gritam: Temos as noites
contadas. E também
os que replicam:
Valha-nos isso.


«Conserve este bilhete até final da viagem», Rui Pires Cabral

no coração de The Razor's Edge

Sempre achei que havia algo de patético nos fundadores de religiões que impunham, como condição para a salvação, a crença na doutrina que pregavam. É como se tivessem necessidade da nossa fé para terem fé em si próprios. Fazem-nos lembrar aqueles aqueles deuses pagãos que ficavam lânguidos e desfalecentes quando as oferendas dos devotos não os sustentavam.

W. Somerset Maugham

ainda nas cercanias de The Razor's Edge

Não podemos [nem queremos] atravessar duas vezes as águas de um mesmo rio, mas o rio corre continuamente e as outras águas que atravessamos são igualmente frescas e agradáveis.


W. Somerset Maugham

três versos de Ralph Waldo Emerson

They reckon ill who leave me out
When me they fly, I am he wings
I am the doubter and the doubt
[...]

outubro 11, 2009

contradições do meu de todos os umbigos

A propósito de um dos momentos mais marcantes de sempre da música popular, três observações: o groove dos músicos armados de calculadoras (nunca a expressividade dos Kraftwerk terá sido tão física); por volta do minuto 1:50, um deles oferece a calculadora para que alguém do público participe, por instantes, na música (ocorrência muito pouco frequente em concertos de rock mais tradicional); não obstante, o que poderá representar o refrão «I’m the operator with my pocket calculator» senão uma clara definição do tal umbiguismo?

parece que o isaltino venceu mais uma vez

Dizem que é próprio dos blogues mais intimistas e devem ter razão:
Às vezes, surgem aqui um, dois, demasiados posts que se assemelham, senão na linguagem, pelo menos na sua substância, a inquéritos efectuados por revistas de consultório médico; mais exactamente, aqueles em que personagens da vida airada revelam os seus gostos pessoais (ex: gosto de pêra abacate / não gosto de Bora-Bora na high season), como se isso importasse ao resto do mundo.
Outras vezes, sirvo-me de escrituras alheias para ilustrar momentos que vivi ou, pior ainda, para definir uma ou outra imagem que tenho de mim (fi-lo há pouco com dois excertos de The Razor’s Edge, como já o tinha feito previamente, com maior pudor).
Francamente, não sei se se pode chamar a isto umbiguismo, hardcore, ou mera dança do ventre. Também é verdade que há dias em que o mundo, do lado de fora do umbigo, nada tem de surpreendente.

um rito de passagem

Até que não correu mal. Um grupo pequeno, tudo gente decente. Sabiam conversar de coisas simples do dia-a-dia, de política e de coisa nenhuma. Nenhum transformador de diálogos em monólogos. Uma harmonia rara em ocasiões deste género. Surpresa-mor: o padre. Oh, mas que padre! Já velhote, com uma pança de respeito, e um saber-estar que lhe permitiria, creio, funcionar em qualquer negócio que dependesse de relações públicas. Exemplifico: imediatamente antes do final da missa, desatou a falar, com invejável informalidade, sobre vários assuntos daquela paróquia. Sobre as eleições, apenas disse que ninguém estava dispensado de votar. Referiu-se também ao jornal da paróquia, dizendo que, apesar de gratuito, custava tempo e dinheiro, e daí ser-lhe difícil entender as sobras de demasiados exemplares. Concluiu de forma resignada, mas enérgica: «leiam o que for, mas leiam».

Por esta altura, a minha atenção estava já conquistada. Terminada a missa e esvaziada a igreja, seguiu-se o baptizado.

A mesma informalidade intervalou as diversas fases do ritual. Numa delas, depois de ter lido uma breve passagem de um evangelho qualquer, o padre virou-se para os presentes e perguntou qual a palavra mais repetida no que tinha acabado de ler. Diante da surpresa e silêncio subsequentes, sorriu e desculpou-se: «não, isto não é uma aula; gostava só de saber se entenderam o que li». O mais idoso dos presentes arriscou e acertou na palavra «nascer», o que deixou o padre satisfeito, tendo continuado a cerimónia com ligeiros apartes aqui e ali, ultrapassando assim o carácter mecânico da maior parte daquele ritual inútil.

Isto talvez merecesse, agora, uma graça final, qualquer conclusão que redimisse a secura do relato. Não me advindo tal coisa, fico-me pelo início: até que não correu nada mal.

a ladaínha do padre devia ter sido esta

Os mais difíceis poemas onde falo de amor
são aqueles em que o amor contempla.

O amor esquece ao contemplar,
esquece que não existe e encantado olha
um raio anónimo sob o vento mais leve.

Contempla, amor, contempla.
E vai criando o nome que darás ao raio.


«Baptismo», Jorge de Sena

uma canção fora do tempo, duas jarras e um castiçal

Quão mais adequada poderia ser a embalagem musical para uma manhã de Domingo em que se tem de participar num ritual religioso caduco?

nem sei que título dar a isto

No único baptizado a que assisti, ainda no século passado, nem o padrinho nem a madrinha nem sequer os pais da criança eram casados. Era visível a falta de vontade do padre em realizar a cerimónia. Eu compreendi-o: se os pais não precisaram da bênção da Igreja para viverem juntos, para quê baptizarem o seu filho? Enfim, aquilo lá se fez por insistência da avó do petiz. O padre, sem vírgulas nem pontos finais, leu a correr a ladaínha do costume, chapinhou a cabeça da criança, e nem três minutos demorou aquele ritual idiota. Um alívio para todos, creio. Daqui a uma dúzia de horas vai decerto ser diferente. Foi-me dito que a geografia familiar que iremos encontrar será bem mais tradicional. Vai demorar muito mais e eu vou sofrer, sem sombra de dúvida. A criança deverá chorar quando o padre lhe despejar a água benta na cabeça. Eu choverei por dentro, por todo, desejando que raios e trovões irrompam pelo templo e terminem aquela estopada enquanto o diabo esfrega um olho.

outubro 10, 2009

frage: wer ist diese frau?

antwort: ihr name ist herta

19.jpg

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receio transilvânico

Um baptizado este Domingo? Posso ficar cá fora? Não? Como é que… sabes quantos amigos ficaram zangados comigo por me ter recusado a ir aos seus casamentos? Não te admires se me desfizer em pó, mal ponha um pé dentro da igreja.

outubro 09, 2009

um sem número de clichés sobre o fio da navalha mais dois vídeos de faca e alguidar


O que dizer sobre The Razor’s Edge, best-seller publicado há 65 anos, que ainda não tenha sido dito? Não sei bem e também não fui ler o que já disseram. Fico-me por generalidades que tentarei particularizar.

Li-o com 13 ou 14 anos. Impressionou-me, então. Com vinte e tantos anos, calhou ter visto uma pavorosa versão cinematográfica de 1946 e voltei a lê-lo para conferir o que antes me teria cativado. Achei-o tremendamente datado no assunto: busca do divino e da felicidade terrena, materialismo burguês versus idealismo pré-“geração beat”, carradas de budismo que até dão comichão (pior ainda, o porquê da existência do bem e do mal, quando basta ter umas noções de física e química para deixar essa questão para trás).

O que poderia, então, ter impressionado um miúdo de 13-14 anos, e levado tantos milhares/milhões a comprá-lo?
Desconheço a mecânica editorial da actualidade e muito menos a existente em 1944; nem acho que isso importe no apreço do que se pode encontrar dentro de um livro. Suponho que a caducidade das arquitecturas sociais que conduziram à 2ª Guerra Mundial e o desencanto com a natureza humana dela decorrente podem justificar, em grande parte, o sucesso do apelo a uma existência, hum, “mais espiritual”, subjacente em The Razor’s Edge. Mais um cliché: a actualidade, ou pertinência, de um tema não garante, por si só, o sucesso de um romance. O que raio haveria, então, de peculiar neste?

Ainda agora, ao passar os olhos pelo livro, com o intuito de recolher os excertos mais abaixo, foi imediata a constatação da técnica do modus narrativo de Maugham. Passe a devida distância em quase tudo o resto, há contos de Agustina Bessa Luís em que a narração também parece chegar-nos do outro lado de uma mesma mesa.
Em The Razor's Edge, mais do que coloquialidade, sente-se a respiração de uma conversa. Maugham fala-nos, sem aspas, como se estivesse sentado numa esplanada a contar a história de meia dúzia de vidas, com saltos para trás e para a frente, como naturalmente costuma acontecer nessas conversas, algumas/poucas descrições, algum/muito ar do tempo (entre as duas guerras mundiais), e um agudo sentido (como evitar mais dois clichés?) das contradições inerentes à natureza humana, que lhe permitiu conferir uma densidade quase tridimensional à maior parte das personagens.

De facto, Maugham vai afirmando ao longo do romance, e quase tem êxito nesse intento, que aquelas pessoas realmente existiram. Li há uns anos que houve até quem se deu ao trabalho de encontrar os “modelos” que terão servido para a construção do protagonista, Larry Darrell. Isso, todavia, serão trivialidades que não vêm ao caso. Isto sim (aí vai o último cliché): a especiaria fundamental por trás da popularidade de um romance é apenas um jeito muito especial de contar uma história, uma relação de quase familiaridade que se estabelece com o leitor. O que daí sobra, claro, são as competências técnicas do autor e, já que falamos de popularidade, cada vez mais da eficácia do marketing.

E chega de escrever o que já todos sabemos. Daqui a pouco, tenho de fabricar uma refeição a partir de um frigorífico quase vazio e, aí, não vai haver livro de receitas que me valha.


no primeiro capítulo de um best-seller

Era aproximadamente da altura de Elliot, devendo ter pouco menos de um metro e noventa; magro e despreocupado. Simpático; sem ser bonito nem feio; um tanto tímido e em nada extraordinário. Despertou o meu interesse porque, embora não tivesse pronunciado meia dúzia de palavras desde que entrara, parecia perfeitamente à vontade e, estranhamente, dava a impressão de participar na conversa mesmo sem abrir a boca.

…/…

- O que se pode fazer com um rapaz que nunca discute, mas faz exactamente o que quer e, quando é repreendido, apenas diz que sente muito e deixa que a gente esbraveje à vontade?

…/…

- Ouvi dizer que lhe ofereceram um bom emprego.
- Um óptimo emprego.
- Vai aceitá-lo?
- Creio que não.
- Porquê?
- Não tenho vontade.
- Bom, sabe que, quando uma pessoa não consegue fazer nada, torna-se escritor.
- Não tenho talento.
- Mas, então, o que pretende fazer?
- Vadiar.

no último capítulo de um best-seller

Aqui termina a minha história. Não tive mais notícias de Larry, nem esperei tê-las. Já que geralmente ele cumpria o que dizia, acho provável que, ao chegar à América, tenha arranjado emprego numa garagem, indo depois guiar um camião até ficar a conhecer, como queria, a pátria da qual se ausentara durante tantos anos. É bem possível que tenha, depois, posto em prática a ideia louca de se tornar motorista de táxi; é verdade que foi apenas uma sugestão atirada a esmo, numa mesa de café, mas não me admiraria se a levasse a cabo – e em Nova Iorque nunca tomei um táxi sem relancear o olhar para o motorista, na esperança de encontrar o sorriso grave e os olhos encovados de Larry. [...]
Não tem ambição nem desejo de se tornar célebre; distinguir-se aos olhos do público ser-lhe-ia sumamente desagradável; é portanto admissível que se contente em levar a vida que escolheu [...]
Conforme o seu desejo, Larry incorporou-se naquela tumultuosa conglomeração de criaturas entregues a interesses tão contraditórios, perdidas na confusão do mundo, tão amantes do bem, tão arrogantes na aparência, tão tímidas no intímo, tão boas, tão duras, tão confiantes e desconfiadas, tão mesquinhas e generosas, que formam o povo americano. É só o que posso dizer dele; reconheço que é muito pouco satisfatório; que posso fazer? […]


«The Razor's Edge», W. Somerset Maugham

outubro 08, 2009

epígrafe para o mau feitio

was named Rodion
and this ain’t no poem
just paragraphs I broke

as plain as I could get
fuck’d up voyer
just to ease your pain
while readin’

what I was told to be
a screw’d up son o’ gun
named Rodion

bear this in mind
while you can bitch
this ain't me
completely

a minha cidade em números

Descendo a pé do Alto de S. João
até às traseiras de Santa Apolónia,
cansado de esperar pelo 742:

Larry Darrell ou Rodion Raskolnikov?
Ambos, como sempre? Olha, lá vem ele,
carregado de humildes, o 742.

Já é tarde para correr. E porque haveria,
se o meu amor, que não me quer
personagem, só arriba às 18?

outono azul

outono.jpg
(imagem não sei donde)

da aleatoriedade enquanto desporto saudável

- Esse tem cores muito vivas. Gostei mais deste. Você parece que espreitou para um balneário de anorécticas.
- Tome. É seu.

na revessa dos últimos dias

Esta possibilidade de publicar posts com data futura consegue trocar-me as voltas aos ponteiros do relógio que não tenho. Ouvi ontem (ou seja, hoje, 4ª Feira) três músicas quase deprimentes de tão belas. Uma é dos meus bem-amados Califone. Chama-se «Funeral Singers» (passível de download gratuito no sítio da banda) e foi extraída da banda sonora de um filme de Tim Rutili, ainda por estrear durante este mês. As outras são dois instrumentais de arrepiar os tímpanos e as paredes do estômago («Hospital» e «Justin’s Death»), retirados da banda sonora do filme «O Fiel Jardineiro». Mas já passa da meia-noite e meia. Outras noites e melhores pretextos haverá para colocá-las aqui. Vou para junto de quem me assoe a alma, ou lá o que é isto atrás dos pêlos das orelhas.

coisa horrível de se escrever (Jean, deixei de ser teu fã)

Todos já experimentaram como o tique-taque de um relógio consagra a intimidade de um lugar: é ele que o torna análogo ao interior de nosso próprio corpo. O relógio é um coração mecânico que nos tranquiliza a respeito de nosso próprio coração.


in «O Sistema dos Objectos», Jean Baudrillard

outubro 07, 2009

embed with madonna

Por um triz, estive para não fazer o embed deste clip. Bastaria deixar o link, e o sentido do post e o meu imaculado gosto musical ficariam quase intactos... Explico melhor esse arremedo de pudor: estão aqui os piores versos deste planeta e talvez de toda a galáxia (ex: zephyr in the sky at night, I wonder… waiting for the time when earth will be as one, etc.), combinados com as imagens mais banais que alguém se lembrou algum dia de incluir num vídeo.



Não obstante tudo isso, esta manhã, alguém muito próximo de mim lembrou-se de subir o volume da rádio. Pouco passava das 7:30. Eu elevei o som um pouco mais. Imagino que a família do lado e a senhora brasileira que mora por baixo (Dona Clô, não é nada de pessoal, mas tanto Chico Buarque merece castigo), não devem ter achado nenhuma graça ao bum-bum-bum de Madonna. E lá dançamos, ou isso, durante breves minutos. De seguida, abalámos para o trabalho, trauteando o intrauteável, judiando com os trejeitos dançantes de cada um. Bem haja, Sra. Ciccone, ou quem a produz, reduz, reluz, não importa. Ficou diferente o resto do dia.

tudo vale?

Quase. Tirar olhos, não, mas também ando sem vontade de desenhar. Apetece-me feijoada. Por outro lado, as minhas desculpas para não chegar a horas a lado nenhum continuam um assombro. Isto está tudo ligado. Tem tudo a ver.


rimas parvas

- Laurinda, abre-me a porta!
- Não aibro, não, que te foste ido.
- Vá lá, minha pêra da horta.
- Ai tu que nem penses, bandido!

outubro 06, 2009

eu podia ser um deles, um delinquente ou um turista desapontado com a revolução

They have their hands in his pockets and around his neck.
They’ve pinned him against the wall.
In the public toilets there are no surveillance cameras.

The tourist just off the plane has no witness to his struggle,
no one but himself to testify to his calm,
how he is telling himself, I could have been one of them,
disappointed with the Revolution

The wall persists, abrasive, against his cheek
as he’s being bitten on the shoulder in this land of AIDS.


«The Tourist», John Mateer

mesmo

Mesmo que isso só a mim diga respeito, sabem o que detesto neste blog?
Saber de antemão que se o assunto for política, mesmo sob a abordagem atípica que me esforço por debitar, o nº de visitas vai aumentar nos dias seguintes. Pior ainda: se o assunto tiver a ver com bimbas (Catarina Furtado, Ana Malhoa, p.ex.), durante uma semana, pelo menos, o google trar-me-á mais 20-30-40 visitas diárias.

Mesmo que não fique bem dizê-lo, sabem o que, acima de tudo, abomino neste blog?
Saber de antemão que se deixar poisar aqui dois ou três poemas, não importa quais, nem os seus autores, nos dias seguintes terei menos 20-30-40 visitas. Deixem-me insultá-las, a estas 20-30-40 visitas a menos: Por mais que compreenda que estejam fartos de palavras, não passam de broncos se não conseguem ver que ainda há poetas e gentes anónimas que expõem, sem verniz mediático, o melhor e o pior das suas entranhas.

Mesmo que isto não tenha ponta por onde se lhe pegue, sabem o que mais me agrada neste blog e no dia-a-dia?
Raramente saber o que vou enfrentar, como vou reagir, enfim, o que vai surgir aqui amanhã.

de volta à comédia

Termina assim, de forma muito neo-hippie e algo anti-hípica, «O Livro dos Mysterios ou Manual de Exorcismos, Bençãos e Excomunhões» (1913):

Fujamos do cheiro enervante das cavallariças, das possilgas, dos logares muito fechados, onde o ar não basta para uma respiração livre e desafogada, se não queremos ter dores de cabeça, vertigens, desfallecimentos, desmaios, e doenças.

outubro 05, 2009

post gerado aleatoriamente, mais um

Lado B de uma tarde chuvosa: luta de almofadas.

coisas que pouco mudaram

(imagem em www.laicidade.org)

sobre as reses públicas

Segue-se um excerto de um artigo intitulado «Philosofando sobre a Revolução», publicado em 15-07-1888 no primeiro jornal anarquista português, «A Revolução Social».

Se não fossem os factos affirmal-o seria preciso affirmar-mos mais uma vez a corrupção, a decadencia, a podridão, emfim, da sociedade portugueza. Não é, infelizmente ou felizmente. Na classe exploradora, não ha um partido forte que se imponha ás exigencias de qualquer facção ou grupo burguez. Apenas bandos bem ou mal capitaneados procuram chegar ás eminencias do poder, para melhor se locupletar á custa do povo.
Da parte d’este não se sente a menor sombra de dignidade. Não vivemos em um paiz civilizado, mas sim em um pantano.
Fallae ao proletariado portuguez em luctar dignamente pela sua emancipação, e recebereis em resposta o silencio dos cemiterios.
Por toda a parte, um lodaçal de cobardia, de um lado, do outro um mar de infamias e corrupção.
As figuras mais salientes dos bandos burguezes insultam-se mutuamente, para o dia seguinte se abraçarem mutuamente.
O povo observa e aplaude.
[…]



in «O Socialismo em Portugal, 1850-1900», César Oliveira

outubro 04, 2009

uma razão para festejar a república, a união de facto e a ausência de relógio

Parece mais uma brincadeira, mas não é. Para além das já conhecidas, existem vantagens na vida a dois completamente impossíveis de prever. Podemos regressar a Lisboa, descansadinhos das silvas (esta parte, sim, é mentira), a ouvir ska do final dos 60, e, ao atravessar a ponte 25 de Abril, podemos dizer para a outra metade da nossa cara: «e se não fossemos trabalhar amanhã?», para ouvir como resposta: «mas amanhã é feriado».

cus

Talvez ninguém tenha escrito de forma mais graciosa sobre o fundo das costas.
(autor: Serge Gainsbourg; versão de Dominique Walter)



E chega, por ora. A Arrábida espera-nos. Bons pudins para todos.

outubro 03, 2009

lembrete para amanhã

Um post com os dizeres: «Ó Serra da Arrábida, Ó Serra da Arrábida».

(sublembrete: até lá, descobrir rimas para «polvo» e «Restaurante Farol»)

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aposta na preguiça

Se ainda não deveu, alguém devia escrever canções folk sobre a Praia das Maçãs. Modestamente, contribuo com o mote «Ó Praia das Maçãs, Ó Praia das Maçãs». Às almas mais hábeis e diligentes, até sugiro rimas com romãs, sertãs e polibans. E por aí fora, desde que metam lá pelo meio um tom do momento, um cheiro local, uma rima branca com um travo real: «Vem, amor, que eu indo me vou/Ainda são 18 e já faz um frio do caraças».

outubro 02, 2009

that's entertainment


Segundo Eduardo Pitta, do blog Da Literatura, André Cabaço, André Gago, António Jorge Gonçalves, António Rosado, Bernardo Sassetti, Camané, Carlos do Carmo, Ciganos D’Ouro, Cristina Branco, Diogo Dória, Faith Gospel Choir, Gabriela Canavilhas, Graça Lobo, Inês de Medeiros, João Gil, João Grosso, José Cid, José Wallenstein, Kalú, Kimi Djabate, Laura Soveral, Lúcia Sigalho, Luis Represas, Mafalda Arnauth, Manuel Paulo, Margarida Vila-Nova, Mário Laginha, Nancy Vieira, Natasha Marjanovic, Nélson Cascais, Nigga Poison, Pedro Jóia, Rui Vieira Nery, Sérgio Godinho, Vítor de Sousa e Zé Pedro foram alguns dos artistas presentes no concerto «Todos por Lisboa», realizado anteontem no âmbito da candidatura de António Costa à Câmara de Lisboa.

Não me vou pôr aqui a debitar moralidades sobre quem está a usar quem, nem sobre a conciliação impossível entre a promiscuidade política e a integridade pessoal, ou mesmo artística, nem sobre a necessidade de abanar a cauda para mais tarde receber um subsídio-migalha (bolas, acabei de fazê-lo).

É claro que os artistas têm o mesmo direito de outros profissionais em escolher os políticos que bem entenderem apoiar publicamente.
Também é evidente (cfr. alguns dos nomes supracitados) que os políticos não são tão criteriosos na escolha dos artistas do regime.

red pottery

«Red Pottery» não é bem «cerâmica vermelha»; é mais «cerâmica pintada de vermelho». Seja como for, a passagem do tempo foi descascando essa cor das peças da foto.
Passe a publicidade, as 5 cortesãs têm 13,5 polegadas de altura, os 6 músicos atingem as 8 polegadas. São todos da Dinastia Tang e encontram-se à venda pela módica quantia de 40-50.000 dólares. Confiram aqui.
Aproveitem. Depois de 11 de Outubro talvez o preço não seja o mesmo.

outubro 01, 2009

noir désir en route pour la joie

portugal não pode parar

Fui à procura do que Cavaco terá dito. Daniel Oliveira, do blog Arrastão, caracterizou o presidente como «desestabilizador institucional permanente». A ser verdade, estaríamos finalmente no bom caminho.

trabalhismo

Para espanto dos presentes, quase habituados a intervenções mais arrevesadas, perguntei-lhes o que Cavaco tinha dito anteontem. Ninguém me soube dizer.

nomes bonitos e nomes feios

Narayan Man Bijukchhe é secretário-geral do Partido Operário Camponês do Nepal. Narayan é um bonito nome. Poderia usar o mesmo adjectivo para qualificar a prática política do seu partido na última década.

Nas eleições legislativas de 1999 conseguiu 0,6% dos votos e 1 deputado.
Em 2005, quando o rei Gyanendra (nome feio, caramba!) dissolveu o parlamento e instituiu a lei marcial, o partido de Narayan juntou-se à Aliança dos Sete Partidos, a qual, através de greves e outras acções simultaneamente agressivas e enquadráveis no Direito político contemporâneo, obrigou o rei de nome feio a ganhar juízo.

Segue-se agora o que o me importa: quando em 2007, no âmbito da Aliança dos Sete Partidos, foi convidado a fazer parte do governo, o partido de nome bonito pura e simplesmente recusou-se. Foda-se! Isto sim, é bonito e irresponsável, como todos deveríamos ser um poucochinho mais.