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setembro 30, 2009

a liberdade passou por ali


Começa assim

Graça que me couber da linguagem,
deixá-la quero pronta a esquecimento.

e acaba com

Liberação e atenção. A Argentina do Mundial-1978, a Escuela Mecánica de la Armada: as Mães sem Filhos em Nome do Pai Videla. Graça que me couber.

um abençoado pontapé num montão de monótonas consistências (coerência formal, expressividade monocromática, etc.) que costumam enfadar as minhas leituras virtuais. Só mais um pouco:

Isto cresce. É uma manhã civil. Nasceu pardacenta, luz de caixa-de-sapatos. Esta, como ontem, de dentro, pusilânime, a força. Estes avisos, que não apelos, à navegação. Força e trevas e muito amor e banditismo lírico.

Banditismo lírico, ora nem mais.

(isto, entretanto, passa-se no século XXI)


três palavras bonitas

Partido Operário Camponês do Nepal

setembro 29, 2009

gente

Dizem que vêm da Europa Central. Eu vejo-os vir
dos lados de Grijó em lassa caravana.

Debaixo da carroça trota a coelheira,
aproveitando a sombra débil e ambulante.
Sentado na boleia, as rédeas na mão morena
descuidadas, um homem cisma, confia
do caminho ao macho lento a decisão.
Outros homens a pé e mulheres novas
entretêm de riso a caminhada espessa.
Logo após, sobre os burros, os pertences.
Alguns velhos também, já cansados de tudo,
tiram partido do precário trote. As crianças
de peito sugam em sonolenta teima
as elásticas tetas sacudidas, mas alvas e redondas.
Os mais velhitos caminham repartidos
em pequenas e lúdicas manadas, dando
às hortas laterais breves saltos furtivos.

Toda esta gente é morena e tem fala cantada,
levanta para mim doces olhos castanhos.
Dizem que vêm
da Europa Central, de uma raça sem chão,
e aqui procura, de insultos rodeada,
cumprir a sua luta, seu degredo
e sua primitiva vocação.

Dizem que os ciganos desenterram animais defuntos
de alguma enfermidade menos limpa
e neles cravam dentes de fome milenária.
Dizem que as mulheres estão na intimidade
das estrelas e a troco de uns mil-réis
lêem nas mãos destinos coloridos.

Dizem que roubam quintais e assaltam capoeiras,
e os aldeões, em pânico secreto,
os expulsam com voz impiedosa e decidida mão
das cercanias do seu chão governado.
Dizem que enganam os crédulos campónios
em negócios sempre escuros de animais,
em que fazem passar por uma estampa
o mais escalavrado e cego dos cavalos.
Dizem que na vila, ao desfazer das feiras,
têm por costume, depois de embriagados,
trocar com as bengalas possantes e vistosas
pancadaria rija, de que morrem.
Dizem que vivem estranhos dramas passionais.
Dizem que não têm deus e que se casam
lançando ao ar jubilosos chapéus.

Dizem tudo isso dos ciganos. Eu não sei.
Vejo-os vir dos lados de Grijó
e estão todos de frente para mim
e parecem-me gente - nada mais.



«Os Ciganos», A.M. Pires Cabral
(música: Can + imagem de autoria/origem desconhecida)

jornal

Dizem que Cavaco Silva vai falar dentro de 3 minutos e tudo indica que pessoas irão ouvi-lo.

música bonita

relíquias

Falta ainda trazer para cá três ou quatro excertos d'O Livro dos Mysterios ou Manual de Exorcismos, Bençãos e Excomunhões, original de 1913, reedição de 2006 - muito provavelmente a única comédia que li nos últimos meses. Se outro assunto mais actual não surgir no entretanto, vai ser esta a dieta deste blog para hoje. Ressalvando a devida distância, o tom faz-me lembrar as paródias do blog Provas de Contacto sobre Laurinda Alves e o Movimento Esperança Portugal.


V

Reliquias Preciosas

Aos crentes que possuam fortuna recommendam-se as reliquias abaixo mencionadas, o que proporciona uma agradabilissima viagem. D’este modo, á salvaçao da alma, juntam a satisfaçao do corpo, o que não é para desprezar. Escusado é repetir que as reliquias são authenticas.

Um dedo de Sant’Anna , em Roncevaux.
Onze dedos de Santa Thereza, um dos quais está em Paris, e a mão direita em Roma.
Sangue de S. Januario, em Napoles. O sangue d’este santo tem a propriedade milagrosa de se liquifazer no dia da sua festa, o que em 1799 ficou bem demonstrado. N’este anno o milagre não se fizera por causa da occupação dos francezes, facto que parece tinha desgostado o santo. Mas o General Championnet intimou os padres a que no prazo de cinco minutos o milagre se produzisse; e a Fé, representada n’aquelles padres era tão grande que a liquifação do sangue se operou.
Só pela intervenção divina é que Maria Alacoque, ainda creança, podia fazer votos de virgindade perpetua. E S. Luiz de Gonzaga que não podia ficar só com a mãe porque a presença d’aquella mulher o fazia corar? E Marianna de Jesus, que aos quatro annos não se deixava beijar pelos homens? E que dizer d’outro santo, que creança de mama, já recusava o peito da ama às sextas-feiras e outros dias de jejum?
Aos scepticos que julgarem que estes factos maravilhosos são pura invenção, recommenda-se a leitura do livro de Julien Vinson, Les Religions Actuelles.

setembro 28, 2009

dungeons & fake dragons, versão 2

É estranho como a realidade (aquela coisa que gira-que-gira-e-torna-a-girar, mas não exactamente da mesma maneira, para podermos acreditar que a Evolução existe) afinal até se repete como uma entediante máquina de fotocópias.
Em Junho de 2006, quando me zanguei com o único Master of Innuendos da blogosfera, a dada altura recebi na troca de mensagens cifradas um clip foleiro dum poeta-cantor (Leonard Cohen), que sempre achei sobrevalorizado enquanto músico, mas não enquanto poeta.
Três anos depois, calhou zangar-me com um Apprentice of Innuendos e, já sem pachorra para batalhas navais, levo com o mesmo clip-tiro num submarino-amizade que já afundou. Ora fodam-se os innuendos e as playstations! Apesar da minha vontade de não ter razão neste caso muito particular, nem Darwin estava exactamente certo nem Paulo Portas sabia comprar submarinos.

o que conta... afinal nem conta

Espera-se a alba e o verde do semáforo.
Ordinário, o taxista identifica
em voz alta duas velhas raparigas,
corpos cansados mas em forma
de pergunta. Há gente que se questiona
como consegue sobreviver a tanto azar.
Costuma encontrar-se gente dessa
em paragens de autocarro,
à medida que vagueia entre mundos
irreais, lugares extremamente verdadeiros
onde o que conta é a sinceridade.
A moral, quando muito, vem depois.


«Cais do Sodré, a desoras», Vítor Nogueira

afinal, era só um corvo

(origem)

setembro 27, 2009

a idade do meio

alfama.jpg
(uma Travessa em Alfama)


Em finais do séc. 19, um treinador de canoagem, a propósito do meu empenho em aprender racionalmente todas as minúcias, todas as técnicas daquele desporto, resumiu-me uma dia uma parábola zen mais ou menos conhecida. Nela, um arqueiro mais velho (vou chamá-lo Xiao-Ping, porque sim) dizia ao arqueiro mais novo (Ping-Xiao, porque não?) que ele só acertaria no alvo quando a sua mente estivesse completamente livre da vontade de atingi-lo. Que isso explicava porque a minha técnica era melhor no início, a sorte dos principiantes, a objectividade das crianças, etc. Eu respondi-lhe que sim senhor, fazia sentido, mas os lugares-comuns daquela malta dos olhos em bico… mal sabia eu que iria encontrar-te pouco depois.

Ociosos anos mais tarde, deparei com a dita parábola num livro que tu arrumaras naquela tua casa fantástica. Li-a de uma ponta à outra. Afinal, o meu treinador de canoagem só me tinha contado o início.
No que faltou, se bem que continuasse a repetir que tentar, por si só, era uma garantia de fracasso, porque implicava a presença tóxica da vontade, Xiao-Ping dizia a Ping-Xiao que não parasse de tentar, que praticasse diariamente. Chegaria um dia em que seria o arco a pegar nele, em que o alvo atrairia todas as flechas, mesmo as que não lhe eram destinadas.

Se piada houver na idade do meio, está precisamente aqui: os nomes já pouco interessam; umas vezes é-se Xiao-Ping, outras Ping-Xiao, desde que os olhos continuem em bico, quase sempre embasbacados, hesitantes diante do bocejo e da imprevisibilidade de tudo isto.

que pariu o zen

Se bem que os ensinamentos zen não devam ser confundidos com os budistas, pode encontrar-se em muito do mambo-jambo oriental uma tendência para denegrir o papel da vontade. Certo é que um conjunto de ideias, por mais benignas que aparentem ser, perdem o seu valor quando, na prática, permitem que milhões aceitem como naturais as fomes mais básicas. E não, isto não vale só para o zen nem para todas as religiões. Isto é política. Vá lá, senso-comum.

zen: uma súmula, ou algo assim

procuro, não te encontro
desisto, sou encontrado
aí, zen para que te quero

como é que...?


política

E lá se foi outra. Uma, duas, três alfaces a voar. Este Outono promete.
Basta dizer o que se pensa. Não há coligação ou amizade que resista.

intervalo publicitário

Vá, vão lá votar na corja do costume.

setembro 26, 2009

hippie

A tarde já aí vem
Anda
Vem daí

Perguntas
Para onde
Fica
Já não caibo nesse sofá
Da plástica simplicidade
Podes sempre iludir-te
Com o teu pão acabado de cozer
Ora foda-se
O teu fermento veio do Pingo Doce

Fecha os olhos
Cobre as varizes do mundo
Veste flores

Nem assim o baldio mais próximo
Existe
O plasma estoirou
Livros que já não ardem nas mãos
Bicicletas sem pernas

Tantos raios quebrados
Vou consertar os teus
Longe de mim

setembro 25, 2009

outra gente

para Vinício Pereira (1956-2007)

Não conheço o meio do surf. No passado já distante tive duas aproximações: uns brevíssimos segundos em cima de uma prancha e uma semana como intérprete numa campetição internacional que decorreu em 80 e muitos, na Praia da Barra, perto de Aveiro. Se a primeira experiência foi acidentada, a segunda foi acidental. Ninguém na organização daquela prova precisava de ajuda para comunicar com estrangeiros. A minha presença naquele meio estranho deveu-se, creio, a uma espécie de troca desnecessária. Vini Pereira, amigo, residente em Vila do Conde, então membro da Fed. Port. de Surf, deve ter achado por bem oferecer-me uma semana de férias, com comida e dormida de borla, como forma de devolver a mão que lhe tinha emprestado nos meses anteriores na correspondência com as federações estrangeiras. E assim abalei para a belíssima costa de Aveiro, munido apenas de um saco cheio de curiosidade por saber como funcionavam as pessoas daquele meio.

A noção prévia era muito vaga. Tinha visto dois ou três filmes do subgénero, donde ressaltava um certo culto da marginalidade, não no sentido policial do termo, mas antes como modo de vida alternativo relativamente às rotinas da maioria (trabalho das 9 às 5 e seus derivados). Seja como foi, tratando-se de uma competição, não parti à espera de encontrar aves raras. Apesar disso, encontrei-as. Quase todos o eram, excepto a equipa francesa, que valorizava demasiado os troféus em disputa. Os que preferi tinham vindo da Austrália. A expressão «boa onda» é capaz de ser um lugar dos mais comuns e, no entanto, assentava nos aussies como luva justa. Levavam livros para a praia, conseguiam conversar sobre tudo, quando sorriam quase todos sorriam com todos os dentes. A maior parte deles trabalhava seis meses por ano. Depois, iam estoirar os dólares por esse mundo fora, à boleia de competições ou nem isso.
Onde queria chegar com tudo isto? Receio ter-me perdido pelo caminho, pois nunca mais encontrei um meio (como dizê-lo?) sócio-qualquer-coisa tão saudável. O Vini tinha muito disso. Tenho saudades do Vini.

setembro 24, 2009

nunca-mais-chove.jpg

documentário de 1966 sobre surf

nada se perdeu que já não estivesse perdido

Na nossa rua as casas são tortas
e ouve-se gente a cantar.
As nuvens e as horas, tudo passa
sem razão, mas na feira dos cubanos
hei-de comprar-te um anel com as pedras
do teu signo: turquesa, água-marinha,
opala de imitação – tanto reluzem as bagatelas do amor.
Iguais aos estranhos que atravessam as vielas rumorosas,
confiaremos o dia ao planeta que o influi
e seremos apanhados pela lente
do turista: um enigma irresolúvel
para quem nos descobrir
(mortos que estaremos já) numa gaveta futura.
Sim, devo dizer que acredito na ascendência
das estrelas: elas arderão ainda
sobre o pó que há-de restar
quando não houver mais nada
para arder.



Rui Pires Cabral

setembro 23, 2009

cirurgia clínica


Dizem que esta banda costuma actuar com máscaras de cirurgia.
Digo que é muito difícil encontrar as suas letras.
Deu-me para escrever uma a partir de mim e do clip mais abaixo.

if you could read your my mind

Sim, tem pêras e maçãs e sonhos de laranja,
o vermelho e negro da ordem, mais
as restantes que o espectro abandonou,
à toa na cal da garagem.
Tem cinzas e sombras livres do molde,
naus e batéis, um estaleiro disso,
velas, máscaras que o tempo rasgou,
outras que resistem, descaradas figuras,
embuçados que prefiro não despir. Vá lá,
algumas páginas continuam em branco.


Lisboa no seu melhor, ou pior, ou mais do mesmo, não sei bem

Um dia, com mais vagar, gostava de escrever sobre assuntos realmente úteis. Um exemplo: os perfeitos pastéis de bacalhau do restaurantezinho quase na esquina da Avenida de Roma com a Rua Frei Amador Arrais.
Outro que, tal como o anterior, não é brincadeira: Há mais de um ano que as laranjas do Pingo Doce não prestam.

Em vez disso, como tenho trasladado para aqui excertos d’O Livro dos Mysterios ou Manual de Exorcismos, Bençãos e Excomunhões, adianto agora as circunstâncias absurdas como esse livro me chegou às mãos.

Prefaciando, tem a ver com uma conversa de quase uma hora com uma senhora brasileira de trinta e poucos anos, alegadamente a tirar uma pós-graduação numa destas ciências ocultas modernas (Economia, creio); uma pergunta dela quase no final: «você se sente atraído sexualmente por mim, não sente?»; um pensamento típico do meu pai («Isto anda tudo doido») traduzido numa resposta: «Como raio é que isso lhe passou pela cabeça?», mais o resto do diálogo que vai já de seguida.
Uma ressalva apenas para a omissão de algumas frases, repetições próprias da oralidade, e de algumas expressões brasileiras que não consegui fixar.

- Foi esse jeito que você tem de me olhar directo nos olho, de me escutar como mais ninguém faz.
- Só isso?! Mas eu faço isso com quase toda a gente.
- Não sei não, até o rapaz da mercearia da esquina… lembra quando me encontrou lá na primeira vez, quando veio à procura de mim? Pois ele me disse depois que você daria um bom marido para mim.
- O merceeiro?! O merceeiro não me conhece de lado nenhum. Ele tem um problema no nariz, não tem?... Esqueça. Diga lá que sinais é que eu lhe dei para pensar uma coisa dessas. Da primeira vez, agora, um momento que fosse, viu-me a olhar para o seu corpo com desejo? Fiz algum joguinho de palavras, daqueles meio parvos, para dar a entender que estava a falar de sexo?
- Não, claro que não. Foi só nos olho, mas mais ninguém aqui me dá atenção como você.
- Que exagero! E desde quando atenção é vontade de sexo? Caramba, você é mesmo uma criatura de cidade grande.
- Me acha feia? Não serviria para si?
- Não, nada disso. Agora repare, se não resolvermos hoje o seu problema – o que me trouxe aqui – vai ser difícil voltar a sua casa. Sempre que olhar para si, vou recear que você pode pensar que estou a pensar em sexo e isso vai estragar qualquer conversa. Veja uma coisa, por favor: se eu pensasse em sexo consigo, ficava entupido. Mal abria a boca. Quando menos esperasse, aproveitava um silêncio e perguntava-lhe «E se fossemos… ver se isto funciona melhor... debaixo de lençóis ou dum chuveiro?» Resultou quase sempre no passado, mas era bom para mim que soubesse que nunca, mas nunca mesmo, olhei para si dessa maneira.
- Tou sabendo… Não vai ficar zangado comigo, vai?
- Não, isto já passa. Até vou ficar a gostar mais si por não ter escondido o que pensava. Pode ser que a gente se encontre por acaso daqui a uns tempos e se vá rir desta conversa.
- Seria baita de legal, mas agora vou querer que você leve consigo este Manual, para acabar de vez com esse feitiço, sabe. Por obséquio, podia-me ler o exorcismo da página 38?
«Ai que me dá uma coisa má», pensei, mas já não disse, e lá tive de recitar um exorcismo o melhor que pude. Acabava assim: «Senhor, ouvi a minha supplica e o meu brado». Nem sei se vai funcionar. Bradei, está bradado.

setembro 22, 2009

mundo possesso

VI

Signaes, sòmente provaveis, mas não certos, de Vexação


1º Quando alguem de natureza resoluta tém imaginações orriveis, e de precipicios, quando lhe aparecem visões de cousas espirituaes, sem fundamento de santidade; quando sente alocuções interiôres que não são por Deus; quando a pessôa, aliàs timorata e casta, tem sonhos terriveis e libidinosos; quando de repente se esquece das sciencias em que é versado.

2º Quando, fóra do costume, prefére os lugares ocultos e aborrece a sociedade; quando deseja e procura perigos; quando odeia sem causa principalmente sacerdotes; quando foge dos parentes, nem se entrega á òração ou meditação, mas permanece na solidão oprimido pela ancièdade e melancolia, sem têr tido que o aflija.

3º Quando foge dos Oficios Divinos e d’ouvir Missas, êle que era um devoto; quando sem causa foge do cubiculo, ou da cidade, ou da luz, se entristece, se aflige e ignora a causa ou procedencia.

Quando se precipita e fica incolume; quando sem causa se irrita contra si, contra Deus, contra os Santos, e profere blasfemias; quando vê as cousas de um modo diverso, por ex.: um homem lhe parece um cão.



in «O Livro dos Mysterios ou Manual de Exorcismos, Bençãos e Excomunhões», orig. 1913, reed. 2006 (a negrito o que mais me cativou)

mundo possuído

Juntamente, tudo passa e tudo volta,
mas diverso – só por isso, justamente,
tem piada estar aqui, abrir os olhos,
conferir ainda e sempre, na vitrina
da manhã, a produção da Primavera.

Rodas e repetições, é assim o tempo
na carne. Mas o que aprendeste
com o primeiro desengano não te preparou
para o segundo, o terceiro e todos
os que se seguiram. Entretanto faz sol
e o mundo existe, é quase uma pintura
de inocente intenção.

Mas melhor: de outra maneira
que de noite não pode imaginar-se,
enquanto o quarto se nos enche
de sol e vizinhança calma, como o tempo,
e de história serena.



excertos de
«Volta ao Mundo», José Miguel Silva
«Jephson Gardens», Rui Pires Cabral,
«Canción de Aniversario», Jaime Gil de Biedma

setembro 21, 2009

benção

manual-exorcismos.jpg

Um achado (mais exactamente, um oferecido) com três «ses»: se não tivesse a tarde ocupada; se não estivesse no intervalo de almoço; se não tivesse proibido Aziz, o simpático funcionário deste cibercafé, de me vender mais uma hora de navegação, debitaria neste momento os pormenores da cena de rock’n’roll (forró, melhor dizendo) em que uma senhora/rapariga brasileira me obrigou, de forma assaz literal, a aceitar este livro.
A imagem veio daqui. O relato e mais excertos do livro ficam para depois.

em louvor das urtigas

A ortiga, tão desprezada, condemnada como um pária dos campos, arrancando-se desapiedadamente onde quer que apparece, é uma das plantas mais uteis.
Offerece aos animaes um alimento fresco e tanto mais precioso quanto é uma das plantas mais temporãs. As vaccas e as cabras que se alimentam com ella dão melhor leite e mais abundante, e com mais nata de sabor assucarado.
Basta na primavera arrancar-lhe os novos rebentos, deixal-os seccar um pouco ao ar e mistural-os depois na proporção de uma quarta parte á herva e á palha, não havendo receio de que piquem a bocca dos animaes, que a comem com avidez.
O esterco que resulta d’esta mistura favorece muito a cultura.


in «O Livro dos Mysterios ou Manual de Exorcismos, Bençãos e Excomunhões», orig. 1913, reed. 2006

.

setembro 20, 2009

meteorologia

cada vez mais elegante
de dia para dia a dançar melhor

don't
let
my
show
convince
you
that
I've
been
happy
since
I ...

e a mentir pior

epígrafe para poema ausente

Ah, y entonces, dónde puedo encontrar
una razón humilde para permanecer aquí
como la imagen de un espejo que la vida
va desfigurando?

Diego Doncel


setembro 19, 2009

astrofísica

(pode não parecer, mas este blog existe)


Os filmes de guerra não enganam (- não?). É quando o tempo e o conforto escasseiam que se reinventam léxicos e mais depressa se esbarra na formidabilidade das coisas. Verdade ou consequência da inimputável deriva dos corpos siderais, encontrei muito recentemente dois para mim novéis blogues. Um já conhecia de nome, mas não de vista. O outro… há sempre um outro, e outro, e mais outro à nossa espera ao dobrar as esquinas da bloga e demais esferas.

Não é muito diferente de cirandar pelo Rossio num final de tarde de Setembro. Há quem, a troco de atenção e mais não sei quanto, nos ofereça véus, haxixe, relógios, sexo (- não, obrigado); quem descerre gabardines cor de nódoa para exibir pequenos insectos mecânicos que sobem e descem pelo forro negro e esburacado (- levo dois). E assim por diante, como se para simular vida bastasse darem-nos corda.



(esta caixa também existe, mas será melhor aprender klingon)


setembro 18, 2009

vidinhas

Furtado-Malhoa-Alberto.jpg


O que ontem referi acerca de Catarina Furtado, Sílvia Alberto e Ana Malhoa foi perfeitamente execrável. Não é que não as ache bimbas (sobretudo as duas primeiras), mas era desnecessário dizê-lo.

Deveria ter sido mais loquaz. Poderia antes ter começado por divagar sobre uns amigos que nos anos 80 fabricavam canoas e pranchas de surf, abrir um parêntesis para uma analogia demasiado óbvia entre os dentes de Paulo Portas e a cera com que pincelam os peixes de hipermercado, e só lá mais para diante concluir que o sorriso, as fatiotas e a própria pele de Catarina Furtado, Sílvia Alberto e Ana Malhoa (sobretudo as duas primeiras) parecem ter sido fabricados em poliuretano expandido, com um suave revestimento de resina epoxy.

Mas isso não seria bastante. Algures no meio, deveria semear uns cravos e umas ferraduras, salvaguardando que, não obstante Catarina Furtado, Sílvia Alberto e Ana Malhoa (sobretudo as duas primeiras) serem eficazes instrumentos de bestificação colectiva, mantenho o maior respeito pelo seu desempenho profissional.

Só então, de um modus airosamente católico, que desculpabilizaria a Humanidade num só parágrafo, remataria que todos fazemos o que podemos pelas nossas vidinhas.

setembro 17, 2009

as audiências não mentem

Estou a pensar em publicar umas fotos com moças saudáveis, raparigas que sabem o que querem da vida. Catarina Furtado, Sílvia Alberto, Ana Malhoa? Tanto faz, desde que pareçam bimbas.

pés no chão, cabeça nas nuvens

«Reality Poem», de Linton Kwesi Johnson + gif em www.eyje.com


Às vezes, por trinta dinheiros mensais entro no carro do topo e ocupo o meu lugar no banco traseiro da História.
Noutras, com os olhos firmados em estrelas mortiças encolho-me na berma das estradas e nem assim consigo esquivar-me dos coices do Futuro.
Dar e receber, disse alguém do Amor o que há muito sabíamos da natureza do boxe.

boxe

Agora já sabem o que penso dos vossos estudos, da vossa senilidade, da vossa propaganda, dos vossos livros, das vossas salas de aula malcheirosas e dos vossos cábulas masturbados, dos vossos gabinetes cheios de merda e dos vossos zaragateiros sonsos, dos vossos carreiristas esverdeados e caixas-de-óculos, dos vossos técnicos presunçosos, dos vossos quadros enfiados no cu da burguesia, dos vossos médicos ladrões e dos vossos juízes corruptos. Bolas, falem-me de um bom combate de boxe. Também está viciado, mas ao menos alivia.


in L'Herbe Rouge, Boris Vian

trabalho

A trabalhar como um cão. Não sendo esquimó nunca entendi esta expressão, mas lá que ando, ó se ando. Nem tem sobrado tempo para uivar.

politiquice

Basta andar nas ruas, abrir a tv, respirar monóxidos. Numa altura em que no-la metem pelos olhos dentro, atentem em dois blogues que quando nela batem batem a valer: Frenesi e A Natureza do Mal.

setembro 15, 2009

um saco de utopias

Defender hoje utopias, mencioná-las no plural ou singular maiúsculo, quase equivale a contar anedotas ou, passe a redundância, a acreditar que J. Sócrates ou M.F. Leite têm soluções para o país. Enfim, são coisas que se dizem quando a vergonha escasseia.
Salvo melhor estatística, para além de um par de distintos anarcas vilacondenses e um ou outro octogenário, não conheço mais ninguém que se atreva a falar de utopias sem piadas à mistura.

Nem eu deveria fazê-lo, pois até me pagam para confrontar algumas pessoas com realidades desagradáveis. Pior ainda, a minha bagagem está demasiado furada para defender seja que utopia for. Entre os 15 e os 20, passei os olhos por Hegel, Marx, Feuerbach, Proudhon, Bakunin, Kropotkin (bem menos os dois últimos) e lembro-me de ter pensado: «esta malta escreve como se estivesse a ensinar trigonometria».
As únicas utopias que então conseguia ler até ao fim tinham sido elaboradas por gente como K. Dick, Heinlein, Le Guin, Aldiss, Gromov, Anderson… ena tantos! Chegou a ser deprimente constatar que alguns deles tinham desenhado futuros em que as máquinas iriam providenciar comida e tecto e tudo para todos, mais tempo livre para cada um fazer o que bem entendesse… Adiante.

Há poucos meses, envolvi-me numa breve troca de comentários que desaguou na utilidade ou não de utopias (i.e. na utilidade do futuro...). É claro que levei logo no trombil com a panela do costume: utopias-que-nem-pensar, porque os gulagues e o sangue, o sangue e os gulagues… aquilo parecia mais uma cabidela do que uma caixa de comentários.

Reside precisamente aqui, creio, o motivo da actual abominação do conceito, lato ou estrito, de utopia. Duas dezenas de sociedades, quase todas com organização e mentalidade tradicionalmente agrárias, trocaram pais-tirano de coroa por pais-tirano com boné militar, e, sem muito mais, foram politizadas e industrializadas à bruta, com o sacrifício de milhões num espaço muito curto de tempo. Onde estava nisto a utopia?

Desgraçadamente, em termos “formais” a principal diferença relativamente ao passado assentou na nacionalização quase total do aparelho produtivo, enquanto as mentalidades não terão mudado por aí além. E, raios, sempre me pareceu que sociedades estatizadas de alto a baixo, que até dizem funcionar melhor em tempo de guerra ou crise profunda, são as que mais longe se encontram da ideia de utopia; da minha ideia dela, pelo menos.



É notório algum romantismo subjacente. Deste lado, sempre vi com melhores olhos as esporádicas revoltas camponesas que de modo espontâneo, sem a intervenção de "vanguardas esclarecidas", aconteceram no sul de Espanha perto do final do séc. 19. Admiração equivalente sobrou para os milhares de marinheiros de Kronstadt, os quais, tendo participado na revolução bolchevique em 1917, foram quase todos abatidos em 1921, quando se sublevaram contra a crescente asfixia centralizadora liderada por Lenine.

Um século após, é necessário que no âmbito da Esquerda actual alguém desenhe uma outra utopia. Por cá, o PC e o BE, com mais ou menos ABS, oferecem travões para a ganância desenfreada dos grandes capitalistas. Mas travões não são utopia. São apetrechos de máquinas. É preciso ir mais além outra vez, pelo menos no plano teórico, pendurando um quadro novo no futuro, um conjunto vasto e coerente de sonhos a que valha a pena aspirar.

O desenho de utopias dessa dimensão precisa de gente que queime muito mais pestanas do que eu. Muitos deles não terão nascido ainda, estou em crer. Por agora, a noção de utopia que me resta é do mais infantil que se possa imaginar - de vez em quando, tropeça-se num objecto, numa ideia qualquer, e pergunta-se: «Esta coisa será mesmo assim? Não parece muito contente com isso. Porque não mudá-la?»


setembro 14, 2009

escorregando pela serra de sintra sem nenhum respeito pela propriedade


Esta coisa, este post destinado apenas a ilustrar um final de tarde algo acidentado numa encosta da serra de Sintra, não era para ficar como ficou. Era suposto a imagem e a música de Jonathan Richman surgirem dentro de um vídeo alojado no Youtube ou no Dailymotion. Tal não foi possível devido à eficácia dos ilustres causídicos da multinacional discográfica WMG.
Antes de mais, os meus parabéns para eles, pois o que deveria ter demorado cerca de 15 minutos custou-me um par de horas. Explico melhor:

Nem cinco minutos tinham passado do video upload do meu cpu para aquele armazém, quando num mail educadíssimo a malta do Youtube me informa da eliminação do clip devido à transgressão de uma lei qualquer da «propriedade intelectual» (sic).
Enquanto macaco lusitano não me restou senão fazer novo upload, retirando desta vez o nome da música e do músico. Ainda o upload não tinha terminado e recebo novo mail do Youtube com a mesma informação. Concluo que a detecção continuou possível porque o ficheiro tinha por nome «richman.wmv», e desisto do Youtube.

Ciente de que no Dailymotion ainda se podem encontrar alguns clips proibidos no Youtube, abro uma conta nesse armazém provavelmente mais permissivo, faço novo upload, transfiro o clip para o blog e vou dormir.
Na manhã seguinte, um mail semelhante das gentes do Dailymotion dá-me entender que o clip apenas se aguentou 1:30h no ar.

Sei o que penso de Jonathan Richman: um marginal deste quilate e da minha afeição, que tem gravado na Vapor (editora independente criada por Neil Young), talvez não devesse servir-se de uma multinacional de abutres como a WMG para distribuir os seus discos.
Por outro lado, Jonathan Richman desconhece a minha noção medieval dos direitos de autor e dos direitos de reprodução: não deveriam existir.

Não acontecerá decerto nos próximos tempos, mas não custa nada desejar um dia em que os criadores seja do que for não vão precisar de intermediários para fazer chegar ao público o que bem entenderem. Isso implicará o divórcio entre as indústrias e as artes, o fim das uniões de facto entre críticos e editoras. Sem indústria nem intermediários, cada um publicaria o fosse criando sem precisar da chancela de ninguém. A divulgação dependeria apenas do boca-a-boca, da multiplicação de links, ou seja, igualdade de oportunidades, um conceito/realidade cada vez mais distante, sei-o bem.

Enquanto esta modesta utopia não se realiza, fica a moral da história para os piratas do presente: se pretenderem fazer o upload para os armazens do costume de um vídeo cujos direitos pertençam à WMG, ou a outra multinacional, não identifiquem os autores no descritivo nem sequer no nome do vídeo. Um futuro com menos abutres ficar-vos-á grato.

setembro 13, 2009

domingo


- Estiveste a chorar?
- Não, não sou de chorar.
- Mas tens os olhos vermelhos e húmidos...
- Deve ser da música. Só pode ser da música.

setembro 11, 2009

tudo a ver com o 11 do 9

Este clip destina-se apenas a quem duvida de teorias da conspiração por serem isso mesmo, e a quem, como eu, estava tentado a acreditar que o 11 do 9 aconteceu porque era conveniente deixá-lo acontecer.



O entrevistado chama-se Richard Gage. É arquitecto e um dos responsáveis por uma associação, denominada «Architects and Engineers for 9/11 Truth», cujo número de signatários tem vindo a crescer nessas classes profissionais desde 2006.
No seu sítio, para além de muito mais, pode encontrar-se uma sequência de slides que pretende comprovar que não foram apenas dois aviões que derrubaram as torres gémeas.

Qualquer céptico deveria perder uns minutos no referido sítio. São apresentadas provas, recolhidas no local, de um material explosivo (nanothermite) utilizado em demolições controladas e que não poderia derivar dos aviões nem das torres nem da osmose de ambas; juntamente com gráficos não demasiado técnicos e vídeos de depoimentos recolhidos pelas televisões naquele dia, corroboram a tese de que os extremistas árabes não foram os únicos responsáveis pelo atentado.

É óbvio que tudo isto não vai bastar para convencer quem ainda acredita que não há criaturas que deixem morrer uns quantos milhares para arrecadar uns largos milhões e o poder que deles advém.
Nada do outro mundo. Afinal, qualquer sistema, por mais utópico ou realista que seja, precisa de uma maioria de ingénuos para funcionar.

pouco a ver com o 11 do 9

É, no mínimo, impressionante como três dúzias de versos podem ser mais eficazes do que milhares de telejornais. Os que se seguem, não justificando tudo, ilustram, como nenhuma agência noticiosa ocidental tenta fazer, metade das razões pelas quais a guerra no Médio Oriente não vai terminar tão cedo.


toma nota:
eu sou árabe
e o número do meu BI é cinquenta mil
e os meus filhos são oito
e o nono chegará depois do verão.
e então, isso irrita-te?
toma nota:
eu sou árabe
e trabalho com um bando de operários numa pedreira
e os meus filhos são oito.
trago-lhes uma fatia de pão,
e roupas e cadernos das pedras
e não peço caridade à tua porta
e não me encolho na tijoleira das tuas entradas.
e então, isso irrita-te?

toma nota:
eu sou árabe,
eu sou um nome sem título,
paciente num país onde todos
vivem em convulsões de fúria.
as minhas raízes
cravaram a terra antes do nascer dos tempos
e antes do abrir das eras
e antes do cipreste e da oliveira
e antes do despontar da erva.
o meu pai é da família do arado,
não de grandes senhores,
e o meu avô era lavrador,
sem educação, sem linhagem.
educa-me o assomar do sol antes da leitura dos livros,
e a minha casa é a barraca do caseiro,
feita de galhos e de canas.
e então, agrada-te a minha condição?
eu sou um nome sem título!

toma nota:
eu sou árabe
e a cor do meu cabelo é negra cor de carvão
e a cor dos meus olhos é castanha.
e os meus sinais particulares são
sobre a cabeça um cordão em cima de uma cúfia
e a palma das minhas mãos rija como um penedo
arranha ao toque.
e a minha morada:
eu sou de uma aldeia perdida, esquecida
de ruas sem nome,
e os seus homens estão todos no campo e na pedreira.
e então, isso irrita-te?

toma nota:
eu sou árabe
tu roubaste os pomares dos meus avós
e a terra que lavrei
eu e os meus filhos todos,
e não nos deixaste nada, nem a nenhum dos meus netos,
senão estes penedos.
pois vai o vosso o governo
levá-los, como se diz?

portanto
toma nota
à cabeça da primeira página:
eu não odeio os homens
e não ataco ninguém,
mas se tiver fome
como a carne do meu usurpador.
cuidado
cuidado com a minha fome
e com a minha fúria.


«Bilhete de Identidade», Mahmûd Darwîsh


(origem / via)

setembro 07, 2009

praia do guincho

Leio vou lendo
Fi-lo tenho-o feito
Em goles receosos
Em bento respeito
Dos que morreram
Das drogas de hipermercado
Como a vida
O pudor em vivê-la
Ou a liga dos campeões
Um amor e alguns simulacros
Uma ou duas sombras peregrinas
As amizades que ficando se vão
A rádio a bloga as poesias

Tudo isso
Como o resto continua
Dependente de estafados manuais
De sobrevivência que poucos lêem
Como iguanas como
Deve ser

Pouco falta
Para provar a esterilidade das sementes
A inutilidade de todos os meteoros
E do seu reverso
Qual
Que importa

Ar pulmão
Sangue coração
Tudo aos pares
Mais e menos
Alinhados como planetas obedientes
Enfezados cientes
De números fórmulas
Mentindo esgravatando papiros
Carcomidos sabendo de antemão
Que um mais um
Nunca serão um
Que dois é uma foda
Que não basta

Assim apodreço
Nesta contabilidade de mercearia
Um dia amanhã
Terei de partir
O que for
Em mil pedaços
Rasgar tudo recomeçar

sugestão laboral para esta 2ª feira

O ritmo deveras freewillin’ de um gato numa versão de «Don’t Think Twice, It’s All Right», por Ramblin’ Jack Elliot. A voz de Dylan…



(um pouco mais sobre Ramblin’ Jack Elliot, um cowboy que avistei pela 1ª vez no clip de Malvina Reynolds mais abaixo)

setembro 06, 2009

nem todos os domingos são malditos

cócegas para T.

I've found a way to make you smile

I read bad poetry into your machine
I save your messages just to hear your voice

You always listen carefully to awkward rhymes
You always say your name like I wouldn't know it's you
At your most beautiful

At my most beautiful I count your eyelashes secretly
With every one I whisper I love you
I let you sleep

I know your closed eye is watching me listening
I thought I saw a smile


M. Stipe

destaque deste e dos próximos domingos, espero

Ivor Cutler

setembro 04, 2009

para vladimir

maiakovski2.jpg
Macacos envernizados,
que culpa têm?
Será do pêlo ou do verniz?
Nem sei. Limitaram-se a pensar
com os seus tomates de porcelana.
Se bem que estaladiços,
como eu, tu e todos,
esperava mais deles, mas
quanta previsibilidade poderia mais
aguentar, Vladimir? Posso, mas
não devo condená-los. Devo, mas
não consigo perdoá-los.
Que os pariu. No meio
de tantos milhares
outros haverá
que me façam sentir
útil.

setembro 03, 2009

maria da natividade


A feição do corpo e o sorriso luminoso de Malvina Reynolds contribuíram bastante para ficar agarrado à sua voz logo na primeira audição. Lembraram-me de imediato a D. Natividade e sigo por essa memória fora, sem querer saber que isto só poderia interessar aos seus amigos e familiares.

D. Natividade, regressada de Angola em 1975, viveu em casa dos meus pais durante um par de anos. Para além de ser dona do tal sorriso e de uma alegria tranquila que, juntamente com os peidos singularmente dramáticos do seu marido, inundaram de luz e galhofa aquela casa, foi quem primeiro ouvi associar alguma estranheza à quantidade de muros que existiam em Portugal, delimitando campos e casas e caminhos.

Não tendo por hábito lamentar-se, «é um sufoco» dizia por vezes, revelando a um miúdo, que só conhecia Vila do Conde, Lisboa e pouco mais, a ligação natural entre espaço e respiração: «parece que aqui não há terra livre, todas têm dono… não dá para sair um dia de manhã e ir por aí, ao calhas, por onde apetecer, sem saber onde se vai dar».

Nessa como noutras alturas, eu ficava a olhá-la fixamente em silêncio e o que em mim era apenas deslumbramento traduzia-o ela como sendo incredulidade. Seguia-se inevitavelmente: «não ligues, isto é só ar e vento na minha cabeça».

D. Natividade tem actualmente 78 anos. «No Hole In My Head», de Malvina Reynolds, vai por inteiro para ela e para quem já viveu em sítios sem muros.

rente ao chão

(achada na um achado d'A Terceira Noite)

arbicidas

Na casa do bairro operário, pequena manhã de sábado, acordo ao ruído de uma moto-serra. No pátio das traseiras da casa do lado uma árvore está a ser abatida. A árvore que resta de um pomar que, há 50 anos, sobreviveu à construção dos prédios desta rua, agora na primeira periferia da cidade. Está a ser decepada. Ramo após ramo. O sangue escorre das superfícies de corte, os ramos e as folhas estendem-se, os frutos rolam no cimento. O executor empunha o instrumento de abate. O mandante arruma os limões a um canto, cabisbaixo. Não se vê ninguém além do homem indignado que assiste a esta execução e se interroga sobre a razão deste abate. Impedia o trânsito no pátio? Dava sombra em excesso? Os ramos batiam no automóvel que queria estacionar? Foi derrubada por ser excepcional? A última árvore dos quintais. Nunca saberemos. Os arbicidas acabaram o seu trabalho. Silêncio no bairro. A classe operária irá para o paraíso e terá à espera um sol abrasador.


Luís Januário

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façonnable

Sou a engomadeira do Vale das Flores e passo os meus dias a brunir. Há muito que deixei de ver as vossas camisas para me perder nos campos de algodão nas mãos dos operários têxteis indianos nas fábricas das ilhas da Indonésia. Sou um elo dessa cadeia humilde que leva aos corpos. Sou quase nada. Faço a recolha de manhã, entrego ao fim do dia. Levo trocos e trago de volta as cruzetas. Aliso a roupa lavada de fresco com o meu ferro dragão. E é aí que me sinto, por vezes, façonnable.

Luís Januário

setembro 01, 2009

do piorio

«Available» (The National ao vivo, faixa extra no 1º trabalho homónimo) assenta num simples riff que remete de imediato para os entediantes U2 do início dos 80. Mais uma vez, a voz de Matt Berninger encobre por completo o que de mediano vai ressoando dos outros instrumentos.

Seja como for, a raiva do minuto e meio final pode até despertar o cadáver mais indiferente, gerar combustões instantâneas num blogger indigente, levando-o, logo após a 1ª audição, a roubar beijos aleatórios, semeando marcas de fome nos ombros de quem se gosta.

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das piores coisas que se podem dizer a uma mulher, a quem for, em qualquer altura

«you just made yourself available» (Matt Berninger)

das piores coisas que se podem a dizer a uma bonita cantora que se acabou de conhecer numa tarde de 5ª feira

- Quando chegar a casa vou sacar o vosso álbum da net.

das piores coisas que se podem dizer a um simpático livreiro que se acabou de conhecer numa tarde de 6ª feira

- Os livros deviam ser todos de borla.

das piores coisas que se podem dizer a uma mãe num início de agosto

- És demasiado sincera.

das piores coisas que se podem fazer numa madrugada de 3ª feira

Vir aqui retalhar intimidades que não me pertencem por inteiro. Bem que podia falar de outras gentes; de quem cai e se ergue, de joelhos ou de rastos esbraceja e arranha, tacteia e esmurra; de quem, apesar de tudo, persiste lá fora. Mas este sol aborrece-me, confunde-se comigo, parece já ter revelado o que havia para revelar.