Defender hoje utopias, mencioná-las no plural ou singular maiúsculo, quase equivale a contar anedotas ou, passe a redundância, a acreditar que J. Sócrates ou M.F. Leite têm soluções para o país. Enfim, são coisas que se dizem quando a vergonha escasseia.
Salvo melhor estatística, para além de um par de distintos anarcas vilacondenses e um ou outro octogenário, não conheço mais ninguém que se atreva a falar de utopias sem piadas à mistura.
Nem eu deveria fazê-lo, pois até me pagam para confrontar algumas pessoas com realidades desagradáveis. Pior ainda, a minha bagagem está demasiado furada para defender seja que utopia for. Entre os 15 e os 20, passei os olhos por Hegel, Marx, Feuerbach, Proudhon, Bakunin, Kropotkin (bem menos os dois últimos) e lembro-me de ter pensado: «esta malta escreve como se estivesse a ensinar trigonometria».
As únicas utopias que então conseguia ler até ao fim tinham sido elaboradas por gente como K. Dick, Heinlein, Le Guin, Aldiss, Gromov, Anderson… ena tantos! Chegou a ser deprimente constatar que alguns deles tinham desenhado futuros em que as máquinas iriam providenciar comida e tecto e tudo para todos, mais tempo livre para cada um fazer o que bem entendesse… Adiante.
Há poucos meses, envolvi-me numa breve troca de comentários que desaguou na utilidade ou não de utopias (i.e. na utilidade do futuro...). É claro que levei logo no trombil com a panela do costume: utopias-que-nem-pensar, porque os gulagues e o sangue, o sangue e os gulagues… aquilo parecia mais uma cabidela do que uma caixa de comentários.
Reside precisamente aqui, creio, o motivo da actual abominação do conceito, lato ou estrito, de utopia. Duas dezenas de sociedades, quase todas com organização e mentalidade tradicionalmente agrárias, trocaram pais-tirano de coroa por pais-tirano com boné militar, e, sem muito mais, foram politizadas e industrializadas à bruta, com o sacrifício de milhões num espaço muito curto de tempo. Onde estava nisto a utopia?
Desgraçadamente, em termos “formais” a principal diferença relativamente ao passado assentou na nacionalização quase total do aparelho produtivo, enquanto as mentalidades não terão mudado por aí além. E, raios, sempre me pareceu que sociedades estatizadas de alto a baixo, que até dizem funcionar melhor em tempo de guerra ou crise profunda, são as que mais longe se encontram da ideia de utopia; da minha ideia dela, pelo menos.
É notório algum romantismo subjacente. Deste lado, sempre vi com melhores olhos as esporádicas revoltas camponesas que de modo espontâneo, sem a intervenção de "vanguardas esclarecidas", aconteceram no sul de Espanha perto do final do séc. 19. Admiração equivalente sobrou para os milhares de marinheiros de Kronstadt, os quais, tendo participado na revolução bolchevique em 1917, foram quase todos abatidos em 1921, quando se sublevaram contra a crescente asfixia centralizadora liderada por Lenine.
Um século após, é necessário que no âmbito da Esquerda actual alguém desenhe uma outra utopia. Por cá, o PC e o BE, com mais ou menos ABS, oferecem travões para a ganância desenfreada dos grandes capitalistas. Mas travões não são utopia. São apetrechos de máquinas. É preciso ir mais além outra vez, pelo menos no plano teórico, pendurando um quadro novo no futuro, um conjunto vasto e coerente de sonhos a que valha a pena aspirar.
O desenho de utopias dessa dimensão precisa de gente que queime muito mais pestanas do que eu. Muitos deles não terão nascido ainda, estou em crer. Por agora, a noção de utopia que me resta é do mais infantil que se possa imaginar - de vez em quando, tropeça-se num objecto, numa ideia qualquer, e pergunta-se: «Esta coisa será mesmo assim? Não parece muito contente com isso. Porque não mudá-la?»