hostia! son casi las doce y no me he ido a trabajar

(Jaime Gil de Biedma)
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(Jaime Gil de Biedma)
Este será Jaime Gil de Biedma.

Este é Iggy Pop.

Este não sei quem fui.

Há algumas semanas, Saramago terá sido referido como não sendo um verdadeiro blogger. Parece que para atingir tal estatuto seria preciso uma caixa de comentários aberta e links para outros sítios. Talvez seja assim mesmo, ou não exactamente. Já experimentei essa abordagem e raramente senti melhorias na minha capacidade de comunicação. A bem dizer, nunca me senti mais "verdadeiro" ou "mais" blogger por dialogar em caixas ou deixar de fazê-lo. Haverá, porventura, outros parâmetros que permitem igualmente avaliar essa verdade virtual. Aproveito a minha realidade para sugerir mais um:
O "verdadeiro" blogger é também aquele que numa manhã de 5ª Feira (esta, p.ex.) provoca um pequeno choque em cadeia na A5 e, logo que chega a casa, termina um post com: «caramba, hoje consegui comunicar».
(«20.000 Deaths...», Xiu Xiu + jpeg já não sei donde)
Que adianta, gostaria de saber, mudar de casa,
deixar para trás uma cave mais negra
que a minha fama – e já é dizer muito -,
pôr cortinas brancas
e arranjar criada,
renunciar à vida de boémio,
se vens tu depois, calaceiro,
embaraçoso hóspede, pateta vestido com meus fatos,
com as tuas mãos lavadas,
sujar-me a casa e comer no meu prato?
Acompanham-te os balcões dos bares
derradeiros da noite, os chulos, as floristas,
as ruas mortas da alvorada
e os ascensores de luz amarelenta
quando, bêbedo, chegas
e páras a olhar no espelho
a cara destruída,
com aqueles olhos ainda violentos
que não queres fechar. E se te censuro,
ris-te, recordas-me o passado
e dizes que envelheço.
Poderia lembrar-te que já não tens graça.
Que o teu estilo casual, o teu desenfado
chegam a ser truculentos
quando se tem mais de trinta anos,
e o teu encantador
sorriso de jovem sonolento
- certo de agradar – é um resto pungente,
um propósito patético.
Enquanto me fitas com os teus olhos
de verdadeiro órfão, e choras
e me prometes que não o fazes mais.
Se não fosses tão puta!
E se eu não soubesse, há algum tempo,
que és forte quando sou débil
E que és débil quando me enfureço…
De teus regressos guardo uma impressão confusa
de pânico, pena e descontentamento,
e o desespero
e a impaciência e o ressentimento
de voltar a sofrer, outra vez mais,
a humilhação imperdoável
da excessiva intimidade.
Com muito custo, levar-te-ei para a cama,
como quem vai para o inferno
para dormir contigo.
Morrendo a cada passo de impotência,
tropeçando nos móveis,
às cegas, atravessamos o andar
torpemente abraçados, vacilando
de álcool e de soluços reprimidos.
Oh ignóbil servidão de amar seres humanos,
e a mais ignóbil
que é amar-se a si próprio!
«Contra Jaime Gil de Biedma»
Jaime Gil de Biedma (trad. José Bento)
Esqueça-se, por momentos ou anos, a utilidade do distanciamento crítico e o presumível modo de olhar um filme por parte de um crítico de cinema. Tente-se não reparar no movimento da(s) câmara(s), em detalhes como os enquadramentos, o modo como algumas imagens, como algumas cenas são coladas às seguintes, se a banda sonora intervém ou apenas decora o filme, se a narrativa é fluída ou estática, previsível ou intencionalmente assimétrica, se a interpretação deste e daquele actor é excepcional ou mediana, se aqui e além o realizador parece piscar os olhos à história do cinema, até mesmo se no fundo da tela os figurantes se movem com naturalidade, e mais um montão quase infinito de pormenores que o meu olhar desconhece.
Esqueça-se, na medida do possível, tudo isso. Entre-se inadvertidamente pela tela, pela pele de um actor dentro. Este fenómeno de carácter identitário, mais difícil, presumo, de ser experimentado por um crítico, continua a ser a principal garantia da adesão da maior parte dos espectadores, da viabilidade financeira da indústria, bem como a razão pela qual estopadas actuais e de antanho perduram na chamada memória colectiva. Perde-se frequentemente a noção do todo em troca de uma experiência, por assim dizer, mais física. Já foi mais usual (a idade não perdoa), mas não resisto quando assim acontece.
Ontem, em «Sinédoque, Nova Iorque», aconteceu simplesmente logo no início, quando reparei na imensa dificuldade que o protagonista (Philip Seymor Hoffman) denotava ao comunicar com médicos. A identificação foi de tal modo imediata que aproveitei uma cena literalmente macabra no dentista para lhe saltar para dentro da pele. Daí em diante foi só sofrer.
Não faria sentido narrar todas as minhas desventuras dentro do corpo de Hoffman. Tal como o próprio filme, a personagem é imensa, quer na possibilidade de leituras quer na travessia de pequenos eventos, trágicos, dramáticos, cómicos, surreais, que se vão sucedendo de modo amiúde imprevisto. É, por isso, mais do que tempo de concluir este post. Considere-se os parágrafos anteriores como preliminares. Termino assim esta experiência de bodysnatching com um breve relato da figura ridícula que desempenhei durante as cenas de sexo:
Hoffman, de cada vez que se deitava com uma mulher, começava a chorar, o que me causou algum embaraço e acordou uma vaga solidariedade masculina. Em duas outras ocasiões, também colocou uns auscultadores, donde, qual cassete de autoajuda, realizador, deus ex-machina, o que for, uma voz feminina nos ia indicando o que fazer e dizer.
Por momentos, desejei que o meu hospedeiro também levasse os auscultadores para as camas que íamos repartindo para que a mesma voz nos pudesse sussurrar: «Não chores agora. Ninguém respeita choramingas sistemáticos. Isso de as mulheres valorizarem fragilidades masculinas aí não vai servir de nada. Acredita que durante esse acto nem tu nem ela vão querer despertado qualquer instinto maternal».
Em vez disso, uma voz masculina, com 82 anos e sotaque nortenho, ecoou dentro dos meus tímpanos: «Deixa-te de bazófias, rapaz, que não conheceste assim tantas. Mulheres não são sinédoques; nem os homens. Cada um, cada uma, são como um filme que até convém não entender na totalidade».

Talvez quem já adorou ou feriu alguém, até àquele ponto em que se deseja ser atropelado pela vítima, possa entender isto. Duas horas depois de ter visto «Sinédoque, Nova Iorque», permanece a sensação de ter sido trucidado, num cruzamento de linhas, por dois, três, quatro TGVs carregados de palavras assustadoramente contemporâneas.
Alguém deveria publicar tudo aquilo em papel. Não sei como, mas deveria. Nem que fosse o guião original. Daqui a dezenas, centenas de anos talvez dissessem daquele texto o que hoje se pensa sobre alguns gregos de antanho: podiam, por vezes, tomar a parte pelo todo e vice-versa, mas conheciam-se, e às pessoas do seu mundo, como ninguém daquele tempo.

Pode dever-se a algum excesso de grão na memória, mas julgo vislumbrar naquele miúdo mais novo, que não conheço de lado nenhum, uma desconfiança precoce das câmaras que terá levado:
1. a não existirem, do norte ao sul deste mundo, mais do que vinte e poucas fotos com a sua fronha estampada;
2. à falta de sentido do ridículo no acto de fotografar com o seu telemóvel retratos da casa dos seus pais;
3. a um dia, muitos anos depois, ter repelido com um «vá chatear outro» uma repórter televisiva que no Rossio interpelava transeuntes sobre a gripe A.
Também é certo que o chapéuzito, o balde e as sandalinhas brancas já não auguravam nada de bom.
Há quem abomine a expressão «dei por mim a». Não posso alinhar nesse exercício. Apesar de implicar frequentemente uma perda de tempo, a consciência de si mesmo parece ser incontornável em quase todos os humanos.
Vai daí (outra expressão perfeitamente abominável para quem quiser), nos últimos 8 dias dei por mim a vomitar umas 3 vezes de modo abrupto. Não se trata de metáfora estafada. Foram mesmo vómitos a sério. Repito «de modo abrupto» porque não consumo opiáceos, alcalóides, nem pastilhame, e raramente bebo álcool. Nem charros fumo, sequer. Para alucinar em seco ou vomitar verde-alface basta-me um par de horas com os olhos vidrados num monitor qualquer. Sou um totó, não há nada a fazer.

Pérola encontrada num blog chamado «Portugal dos Pequeninos», durante uma polémica que, dizem, terá envolvido um professor universitário, um candidato a deputado e um funcionário público, curiosamente todos baptizados com o nome «João». Parece que tinha a algo a ver com os partidos do costume, quem é pai de quem, se serão todos filhos do mesmo, etc. A querela atravessou igualmente outros blogues, denominados «Jamais», «Simplex» e «Jugular», tendo alastrado, como é de bom tom acontecer à honorabilidade das mães, a muitos mais.

Do sótão onde habitei década e meia, o mar surge lá no fundo dos telhados, mas o meu telemóvel não conseguiu vê-lo. Fora dessa estreita objectiva, ficou também a rua mais abaixo, do lado esquerdo, onde se encontram pendurados dezanove de versos de Ruy Belo sobre a dita.
Cheguei a falar com os vizinhos Sr. Joaquim, Sr. Eduardo e Dona São, que me disseram olhar aquela rua, e a própria terra, de forma semelhante à do poeta. Eu nunca consegui. Mesmo sabendo que não posso responsabilizar uma rua, uma terra, pelo tempo que nela perdi, ainda hoje não consigo.
Enfim, há dias, vai havendo. É como quem diz: cá vamos indo, mudos e surdos, o telemóvel na mão, a cabeça entre as orelhas. Algo assim, aparentemente pop.

In late autumn a young girl set fire to a field
of wheat. The autumn
had been very dry; the field
went up like tinder.
Afterward there was nothing left.
You walk through it, you see nothing.
There's nothing to pick up, to smell.
The horses don't understand it-
Where is the field, they seem to say.
The way you and I would say
where is home.
No one knows how to answer them.
There is nothing left;
you have to hope, for the farmer's sake,
the insurance will pay.
It is like losing a year of your life.
To what would you lose a year of your life?
Afterward, you go back to the old place—
all that remains is char: blackness and emptiness.
You think: how could I live here?
But it was different then,
even last summer. The earth behaved
as though nothing could go wrong with it.
One match was all it took.
But at the right time-it had to be the right time.
The field parched, dry—
the deadness in place already
so to speak.
«Landscape (3)», Louise Glück, 2006
(em Telhados de Vidro, Maio 2009)
|
Vezes demais,
esqueço coisas
assim.
Sei lá eu
(sabes tu?),
talvez o tempo,
assim,
assim mesmo,
sem muito mais,
por breves instantes
se esqueça de nós.
(Diz-me sem favor:
será tarde?) |
Desta vez, os sonhos em Vila do Conde conseguiram ser mais difusos do que em Lisboa. Não foi imediata essa ocorrência: Lisboa, terra de sol demasiado, dissolve incertas zonas de sombra, mas não define quase nada, excepto a impossibilidade de revelação plena, inerente às coisas do Mundo. Lisboa é impotente, acrescento. Lisboa precisa de um Viagra homeopático, extravaso, de uma bactéria perene que faça irromper ervas daninhas entre os intervalos do basalto, algo que expluda a mentira desta calçada. Enfim, antes que volte a falar de mim, esmiúço sem vestígio de esperança:
Havia uma figueira no quintal de Gloster. Sonhei com ela. Chegou a existir no que era, e ainda é, o “meu” quintal.

Gloster era, e é, passe a autocitação, uma personagem de Agustina. É também um avatar do Guilherme de Shakespeare, uma criança que deposita uma fé demasiada no Verbo e, por isso mesmo, um corcunda que sobrevive a todos os léxicos; tal e qual a figueira bíblica, que o pavor da redundância me inibe de citar, e o seu clone no previsível Nobre:
"E assim, ao ver no Outono numa figueira nua,
Se os figos caem de maduros, pelo chão:
Cuido que é a ossada do Traidor, a luz da Lua,
A chorar, a chorar a sua alta traição!
-Ó minhas figueiras, ó minhas figueiras
Deixai-o falar!
Oh, vinde de ir ver-nos a arder nas fogueiras
Cantar e bailar";
mais concreta, em D.H. Lawrence:
"The fig is a very secretive fruit:
As you see it standing,
You feel at once it is symbolic;
And it seems male.
But when you come to know it better,
You agree with the Romans,
It is female"
Poesias, dirão com desprezo, sem conseguir distanciar uma verdade qualquer, e o facto é que a cortaram – a figueira de Gloster – tal como fizeram aos gatos, aos “meus” gatos.

Eram 6 no Verão passado. Mãe e 5 filhos comiam, defecavam, brincavam, costumavam esperar por mim em Agosto (pela comida que lhes levava, concedo), enchiam de vida aquele quintal.
No entretanto, tornaram-se 11, «insuportáveis para economia doméstica», disseram. Viram-se livres de quase todos. Não importa quem nem como, assegura «la famiglia» e a sua consubstanciação jurídica (cfr. artº 134º do CPP). Falaram-me de exílios do outro lado do Ave, de pontes que os gatos não atravessam.
Ficaram 2. Já nem querem saber de comida. Dormitam a tempo inteiro. Olham-me como se fosse igual aos demais. Em bom rigor, não é que o seja, mas desisti de prová-lo. Tal como Gloucester, sei que há batalhas que não vale a pena travar, mas não me sinto melhor por isso.
Enquanto do pousio de mês e meio não resulta alguma coisa de jeito (desnecessidade: será que alguma vez resultou?) seguem-se 2 músicas interpretadas por Ney Matogrosso, sob o contágio involuntário do cartel de música sul-americana acantonado numa livraria da Rua C. de Sousa, nº 11, em Lisboa.
Visto-o sem rigor: o hábito de reserva, a fatiota da discrição. Visto de lado, defronte, detrás, isto é de uma lamechice atroz. Resgatado pela tinta invisível de alguns mails, registo-o neste sítio semi-público porque a gratidão não costuma sobreviver à passagem do tempo. Registo-o para não esquecer como JMS, MJV, PL e Rui R, cada um à sua maneira, me demonstraram que vale a pena comunicar.
L'encre invisible ou encre sympathique est une substance utilisée pour l'écriture, qui est invisible, ou le devient rapidement, et qui peut être rendue ultérieurement visible par certains moyens d'action. L'usage de l'encre invisible est un procédé de stéganographie et a été utilisé dans l'espionnage. D'autres usages peuvent inclure: action contre la censure, billets de banque, tatouage de biens, jeu d'enfants. Un exemple très connu et ludique est l'écriture au jus de citron. Le message se révèle en roussissant le papier à la flamme. (da wikipedia)
"Nem tudo se resume a uma Playstation" - o trabalho que não foi convencê-lo disso: Boris, 12 anos, sobrinho de Simone.
Perto dele, Simone resplandece. Tal e qual, sem muito mais, a náusea de finais de Junho esvai-se entre o mobiliário metálico do botequim, driblando tornozelos de turistas nórdicas. Esconde-se, por fim, na sarjeta vizinha, |
just know
something good's going to happen
don't know when
but saying it could even make it happen
(daqui)