Habermas (1)
Para Habermas, até ao séc. 18 tinha predominado na Europa uma cultura “de representação”, em que uma parte dela procurou representar-se a si própria através da subjugação dos seus súbditos. Como paradigma, referiu o Palácio de Versalhes, com que Luís 14 pretendeu demonstrar a grandiosidade do Estado francês e do seu rei.
De acordo com a teoria marxista, identificou essa cultura de “representação” com o feudalismo e referiu que a «esfera pública» surgiu com o capitalismo. Esta pressupunha e resultava da existência de um espaço público, onde os indivíduos trocavam conhecimentos e pontos de vista fora do controlo do Estado.
Segundo ele, o crescimento do número de jornais, diários, clubes de leitura, lojas maçónicas e cafés, ocorrido durante o séc. 18 europeu, determinou a substituição gradual da cultura “de representação” pela cultura da “esfera pública”, cuja característica essencial era a sua natureza crítica, em contraste directo com a cultura anterior, em que só uma minoria desempenhava um papel activo, por oposição à passividade da maior parte da população .
A cultura da esfera pública emergiu primeiro em Inglaterra, por volta de 1700, por ser o país europeu mais liberal de então, tendo crescido ao longo do séc. 18 na Europa continental. Na opinião de Habermas, a Revolução Francesa foi causada em parte pelo colapso da cultura "de representação".
[Comentário: Posso perfeitamente estar a esticar demasiado a especulação que se segue, confundindo-a com o meu próprio desejo, mas é difícil não encontrar semelhanças entre esta visão de Habermas sobre o séc. 18 e os dias de hoje, em termos de política, cultura e informação, i.e., a agonia crescente desta democracia “representativa”, o fosso que não pára de ser cavado entre representantes e representados, entre as elites e a maior parte da população, e o advento da Internet como meio de difusão e discussão de ideias que já não têm lugar nos media tradicionais.
Se a História fosse repetível, faltaria ainda uma tomada da Bastilha...
Falta igualmente aquilatar se as elites, cientes do que aconteceu no séc. 18, irão arrepiar caminho, ou prosseguirão os seus esforços ridículos de iludir as consequências do seu desgoverno. De que outro modo, pergunto a propósito, poderemos olhar para as crescentes tentativas de controlo do tráfego na internet?]
Comments
E, em resumo, J.Q., o que tu nos queres dizer é que...
Posted by: pedro l. | junho 3, 2009 01:53 AM
Há alguma hipótese de lançares um textos paralelos de apoio a todos quantos sentem, por vezes, dificuldades na aprendizagem do teu blog?
Posted by: pedro l. | junho 3, 2009 01:56 AM
"De que outro modo, pergunto a propósito, poderemos olhar para as crescentes tentativas de controlo do tráfego na internet?"
Através da ganância. As empresas querem vender produtos. Pacote vtcabo com acesso ao youtube, promoção caboten com oferta de metacafé e wikipedia. ETC. Tudo se resumo a isso. Não é controlo. O controlo e as bases de dado são passado: redundavam em redundância. Eram uma coisa bastante redonda.
Posted by: pedro l. | junho 3, 2009 02:02 AM
Já tinha desistido desta vida de comentador. Está visto que não sou grande coisa a comentar.
Posted by: pedro l. | junho 3, 2009 02:04 AM
Pedro IV, não é preciso desistir de comentar. Tem dito Paulo Portas com toda a propriedade: «Ter razão não basta. É preciso ter votos»
Pedro III, essa visão mercantilista da motivação dos novos censores é demasiado benigna. Se passares os olhos pela proposta de lei que foi rejeitada (mas não em definitivo) no Parlamento europeu, é notório que, sob o pretexto de impedir os downloads ilegais, o que certos filhos da puta pretendem (Sarkozy é um deles) é passar a vender a net em pacotes como na tv por cabo e facilitar a barragem de conteúdos, sempre que os operadores e as novas autoridades a serem criadas o entendam, ou seja, controlar a net como se da tv se tratasse. Uma só lei iria acabar com a net tal como a conhecemos.
(um judeu barbudo teria dito «venham a mim as criancinhas», «é delas o reino dos céus» e coisa sábias assim)
Pedro II, é difícil entender este blog? Uma sugestão: só ler um post depois de reler meia dúzia de vezes, de trás para a frente, o best-seller «Discursos de Balneário de Paulo Bento». Está tudo lá. Tranquilidade e não sei mais o quê (li-o na diagonal, confesso)
Pedro I, o que quero dizer já Bokonon o disse em Cat’s Cradle: «Live by the foma and foma will supply every need of your goddamn belly» (o que Ibn al Raschid, outro guru dos meus, traduziu por: «Convenhamos: Uma telha num bidon e uma maçã raineta? Tudo o que preciso é cortar o cabelo no Baeta»)
Posted by: José Quintas | junho 3, 2009 12:01 PM