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cronofobia

Aproveito a presente escassez de tempo livre para divulgar mais algumas palavras de Manuel de Freitas sobre Al Berto («Me, Myself and I», de 2004). Deveria talvez pedir desculpa pelo abuso e pela preguiça, mas não peço. Afinal, trata-se de assuntos que me interessam, em que até o itálico, inerente às citações, ficou pelo caminho para reforçar o efeito de apropriação.



Igualmente complexa é a relação que em «O Medo» se estabelece entre memória e esquecimento. O desejo, tantas vezes expresso pelo sujeito poético, de «perder a memória» pelos mais diversos meios (álcool, drogas, recolhimento, fuga) pode ser entendido como uma desiludida ânsia de eternidade: «tento perder a memória / única tarefa que tem a ver com a eternidade» (p. 312).

Por outro lado (que talvez não passe de um aspecto diferente do mesmo), o desejo de esquecimento convoca aquela que é uma das principais «tarefas» da memória – a escrita: «esqueço-me de tudo, por isso escrevo.» (p. 223). Assim, dir-se-ia que a rigorosa anotação dos dias, até ou sobretudo no que eles possam ter de mais banal, é perfeitamente compatível com um reiterado propósito de esquecimento: «cavo, planto, enxerto, podo, varro, limpo, cozinho, arrumo, lavo. É cada vez mais importante não me lembrar de mim.» (p. 233).

Nesta matéria, revelar-se-ia temerária qualquer tentativa de conclusão. O mais provável, no entanto, é que a escrita tenda a ser vista enquanto memória em fuga, apesar da imobilidade que condiciona ou propicia o seu aparecimento. Seja como for, torna-se plausível afirmar que a fuga tem origem numa «sensação» omnipresente na escrita de Al Berto, o medo: «palavra a palavra escondo-me com medo da minha própria voz» (p. 232). E é o medo, precisamente, que parece induzir o sujeito a uma tentativa de distanciação espacial, passível de evocar o anywhere out of the world que dá título a poema de Baudelaire e à aguarela de Mário Botas que o procurou ilustrar: «o mundo só começa para lá do portão da quinta.» (p. 369).

Mas não seria menos legítimo assinalarmos uma obsessão de distanciamento temporal – algo a que poderíamos chamar cronofobia (e que foi, de resto, amplamente tematizado em vários poemas de Baudelaire sobre o «inimigo que todos os relógios devolvem»): «aceito como único corpo aquele que não cresceu dos relógios do mundo» (p.367).

Comments

Simplesmente fascinante.

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