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cidades (nelson gonçalves / tartarugalzinho)

Não fosse ridículo e seria impressionante como «cidades» poderia servir de título para quase tudo, ainda mais num blog acentuadamente saloio como este. Fui até sobrevoado pela tentação de seguir a mesma receita nos títulos de todos posts até ao próximo Natal. E quem escreve Natal, poderia escrever Jijoca de Jericoacoara, Pindamonhagaba, Itaquaquecetuba, Bangu, Belfort Roxo, Peixe-Boi, Imbituva, Irati, Prudentópolis, Caraguatatuba, Guaratinguetá, Cumuruxatiba, Tartarugalzinho, Assis Chateubriant...

Assis Chateubriant? O que eu não daria para ser filho de uma Angelina de Assis e de um Reinaldo Chateubriant, para poder ouvir um renovado grito do Ipiranga, agora deste lado do Atlântico; um berro tamanho que varresse para longe este privilégio luso da falsa modéstia, da sobriedade tacanha, do despojamento snob, do vómito salazarento: «somos pequeninos, mas muito maneirinhos, respeitamos sempre a realidade e a ordem das coisas.»

Agostinho da Silva, em «os brasileiros ficaram com o melhor de nós», lapidou mais de metade de uma verdade, sobretudo naquilo que à capacidade inventiva diz respeito. Antes de mais, a ousadia de sonhar em grande, eis o que falta, nos falta, me falta, vou conjugando, especado nesta padaria de esquina, sussurrando o quanto gosto de cidades por entre lamentos da pequenez do território, interiorizada por todos nós muito para além da náusea.

Os geógrafos não acreditam, mas é preciso repeti-lo até que muitos mais se fartem mesmo a sério: Tartarugalzinho não fica no estado brasileiro de Amapá, não. É já aqui, entre Espanha e o mar.

Comments

Vou tentar comentar quando parar de rir com esta tua veia humorística (na escrita e na música).

só na música, Maria, só na música e do outro lado do atlântico(caramba, não se nota nenhuma acidez? 'tá visto que perco tempo com palavras; devia só desenhar trovoadas)

Caro José,

Nunca parou para pensar que pode haver quem não queira saber da sua acidez?

já, caro Vasco, mas não posso ligar a isso. e desde quando uma sequência de parágrafos tem de reflectir só um estado de espírito? porque não começar pela diversão com nomes bizarros de cidades brasileiras para acabar com o objecto principal: zangar-me comigo mesmo. se na passagem mais alguém ficar zangado, tanto melhor. este país precisa de mais gente zangada. não é deprimida. zangada, mesmo.

José, nem eu nem ninguém precisa de mais um a saber o que o país precisa…

Vasco, mesmo com as reticências, esse argumento é apenas benevolente à 1ª vista. quanto a mim, também é por demasiados pensarem assim que os n/representantes se marimbam para quem os elegeu; podem, porque ninguém os impede, limitar-se a defender os seus próprios interesses e os daqueles com quem podem trocar favores.

é por isso que, quer as receitas e os unguentos dêem resultado (?) ou mostrem ser uma ficção, os gurus do economês e do politiquês são sempre os mesmos.

a maioria não quer saber se são os mesmos ou outros, “porque são todos iguais”, e então permite que sejam sempre os mesmos.
muito bem pensado, sim senhor…

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