cidades (mariano peyrou)
Quando finalmente cheguei, ninguém
me esperava, apesar de todas as promessas
e da necessidade de constatar que falaríamos,
daí em diante, um idioma comum.
Mas ao menos deixaram-me um manual de instruções.
Amanhã haverá mercado, podes dar
uma volta e conseguir livros baratos; não
há muito para ler, basta-nos que venhas
todos os dias e consumas qualquer coisa
na cantina enquanto te lembras de um
episódio divertido da tua adolescência
ou começas a inventar um futuro que não terá,
devo avisar-te disso, nada a ver. Nos dias
soalheiros, três ou quatro anos depois,
sairíamos para olharmos do terraço, com
as taças quentes nas mãos, suspendendo
por uns instantes o desejo de estar
noutra cidade.
«Estudo do Visível», Mariano Peyrou
in Telhados de Vidro nº 10
tradução de Manuel de Freitas