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nada ou afoga-te em lixo
(um espécie de manifesto anti-jornalismo peroração contra esta sociedade da informação)

Em 3 blogues e 4 anos e meio disto talvez não tenha efectuado mais do que um par de links para edições online de jornais. Preconceito meu, é óbvio, e, mais ainda, reflexo da recusa de viver na realidade, com e sem aspas, que a imprensa nos oferece.

No entre-vírgulas «com e sem aspas» cabe quase tudo: desde factos – factos mesmo, coisas que aconteceram – até notícias do género «fulano de tal declarou que isto vai ser assim ou assado», passando por sombras de factos noticiados antes de o serem, de origem muito duvidosa, e que, frequentemente, nunca chegam a sê-lo.

A crescente prevalência desta última tendência é suficientemente dissuasora do impulso benigno que pode levar à compra de um jornal. Nem precisaria apelar ao instinto básico de não atafulhar a memória com informação irrelevante.

O que tenho perdido por desconhecer ou chegar tarde ao que muitos estão fartos de saber? Assim de repente, não recordo mais do que uma multa por ignorar que as inspecções aos carros já não se podem fazer quando me dava na veneta.

Vem este parlapié, igualmente irrelevante para o aumento da sabedoria colectiva, a propósito do link mais abaixo paras as crónicas de Manuel António Pina no JN. Na última, transcrita a seguir quase na íntegra, encontra-se ilustrado, reductio ad absurdum, um modo cada vez mais frequente de preencher papel de jornal com nada de nada vezes nada. NADA.




Nota final: Aprendi a nadar no início dos 90 quando me cansei de ler jornais com a regularidade intensiva da década anterior. Tantos anos depois, é desolador reparar que, à censura e à escassez informativa do antigo regime, a democracia "plena" em que vivemos acabou por contrapor um modelo de jornalismo assente na quase total ausência de substância, deixando aos leitores o papel de frangos de aviário, i.e., obrigados a esgravatar, a esgravatar sem parar, para conseguir encontrar grãos de informação realmente útil por baixo da ração de lixo que nos servem diariamente.

Comments

O Pina, se queres que te diga, o que duvido, não deveria ser para aqui chamado. O Pina opina como ninguém pina, e prontos. Criticar o Pina por recorrer ao copypaste, é o mesmo que dizer que os factos, só por si, não chegam. Penso eu que somos suficientemente inteligentes para perceber aquilo que ele pretende dizer com a crónica do post anterior.

Peço desculpa por não comentar o resto, apenas me importou este sacrilégio. Mas não assim muito.

Caro Daniel,
Sobre copy-paste e M.A. Pina: reparo agora que ao encurtar o título inicial do post de baixo («chegou a minha vez, sendo certo que nunca são demasiados os copy-paste dos dardos de M.A. Pina»), posso ter criado mais uma ambiguidade. Com «copy-paste» não aludia ao teor da crónica de M.A. Pina, mas à reprodução por mim efectuada da crónica em si, sabendo que, felizmente, mais bloggers o fazem há mais tempo.
Juntamente com as de Rui Tavares, são as crónicas da imprensa que prefiro. Daí que, em «preencher papel com nada» não me referia a M.A. Pina, mas sim aos jornalistas ou spin doctors que fizeram notícias das declarações ridículas do ministro da economia.

Sobre o teu «se queres que te diga, o que duvido», se o que nisso está implícito é alguma sensação de menosprezo por eu não ter respondido a dois comentários teus das últimas semanas, vou tentar demover-te dessa conclusão apressada. Não lhes respondi por nada me ter ocorrido para dizer, o que não aconteceu só aos teus comentários. Ambos temos blogues e sabemos que isso acontece de vez em quando.
Nessas alturas, parece-me mais correcto nada dizer do que inventar uma inanidade qualquer só para ser simpático. Acho mesmo que a simpatia está longe ser o mais importante numa caixa de comentários, sendo certo que não recordo ter sido antipático quando respondi a outros comentários teus.

Dito isto da forma mais clara que me ocorre neste momento, gostava que ficasses completamente à-vontade para comentar o que entenderes e quando te apetecer. Tentarei, como até agora, responder sempre que algum comentário, teu ou de mais alguém, suscitar alguma reacção da minha parte.

Por acaso fiquei mesmo na dúvida relativamente à tua opinião relativamente ao pinante, mas como mais vale prevenir que remediar, optei por remediar a coisa pelo sim pelo não.

Quanto à não-resposta não é coisa que me preocupe, em nada teve a ver com isso, foi a maneira apressada que encontrei de nutrir algum respeito pela tua opinião, por muito que, em termos gerais no que toca a andorinhas*, por vezes me custe.

*é óbvio que não me referia a ti. E já agora, arruma o "caro" para canto.

Por acaso também não tinha percebido bem o post (é o que faz ler a estas horas da manhã) mas, ajudado pelos comentários, tenho de facto de reconhecer que a coluna do MA Pina tem pertinência. Aliás a falta de originalidade (será só?) é agoniante.

Daniel, preferia que as minhas opiniões não fossem respeitadas por ninguém. a sério.


Vítor, só reparei nas crónicas de M.A. Pina muito recentemente (em blogues não no JN). O sujeito chega a ser brilhante na forma como consegue ser sucinto, eficaz, directo ao assunto. Nota-se que escreve para ser entendido. Nem parece português.
Quanto à originalidade das declarações do ministro, ai senhor...

Pertinente, José, a tua nota final. A "informação" faz-se cada vez menos com factos e cada vez mais com opiniões. Claro que, muitas vezes, factos e opiniões enrolam-se de tal maneira que, sem a devida contextualização, é impossível saber onde terminam uns e começa a outra. É inútil, claro, esperar dos jornais e das televisões que nos forneçam contextualizações; desde logo, porque a maioria dos jornalistas não sabe nada de história, e depois, porque a confusão dá muito jeito a quem manda e sabe que informação é poder, e que o poder fica melhor nas mãos de poucos do que nas de todos.

«a confusão dá muito jeito a quem manda», está tudo aí.
Particularizando, pelo menos quando ouço ou leio notícias sobre área em que trabalho, é notório, por pequenos e grandes indícios, que a maioria dos jornalistas não sabe mesmo do que fala ou escreve, sendo muito provável que o mesmo aconteça noutras áreas. A responsabilidade, assim à distância, deve poder ser repartida tanto pelos próprios como por quem lhes paga o salário.

Por um lado, é flagrante a quantidade de notícias que parece ter sido escrita “em cima do joelho”. Por outro, e não sei se isto é completamente verdade, parece que 70% das notícias dos jornais portugueses não são exactamente elaboradas por jornalistas. Ou são canalizadas pelas 4 agências noticiosas que distribuem as notícias em bruto para quase todo o planeta, ou vêm directamente dos spin doctors de cada governo, quantos deles ex-jornalistas…
Enfim, já deve ter sido bem mais estimulante ser jornalista.

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