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(tradução livre: continuando a malhar nesta sociedade da informação)
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entre Vian e Huxley (e um tipo qualquer que, enquanto não cai de vez, vai descaindo entre esta democracia e a exigência de algo mais)

Boris: Todos os meios de expressão podem dar lugar a obras de arte, mas um que vos exigisse à partida uma pá de vapor de 700 milhões, um martelo-pilão de 2.000 toneladas e um transatlântico para transportar blocos de pedra, limitaria de forma singular a capacidade de expressão. Não haveria muitas pessoas que tivessem meios de financiamento para tal.

Se uma tela custasse 800.000 francos, um tubo de tinta um milhão e um pincel dois milhões, haveria muito menos pintores do que agora. Acontece que o papel não é caro, a pluma também não, a caneta também não e a tinta também não. Logo, pode haver mais livros e, consequentemente, mais bons livros. Na totalidade, há forçosamente mais bons do que maus.



Aldous: Defrontamo-nos aqui com um facto puramente aritmético. No decurso do século passado [19], a população da Europa Ocidental mais que duplicou. Mas o material de leitura ou ilustrado, segundo imagino, aumentou na proporção de 1 para 20 ou talvez até de 1 para 50 ou 100. Logo, se uma população de X milhões dispõe de N talentos artísticos, uma população de 2X milhões disporá provavelmente de 2N.

Podemos resumir a situação da seguinte forma: enquanto há 100 anos se publicava uma página de material escrito e ilustrado, hoje [1933] publicam-se 20 ou mesmo 100 páginas. Por outro lado, enquanto há 100 anos existia um talento artístico, hoje existem 2.
Admito que, como consequência da escolarização, haja actualmente um maior número de talentos virtuais que outrora não pôde tornar-se produtivo por não ter podido desenvolver os seus dotes. Admitamos pois que a um talento artístico de então, correspondam hoje três ou mesmo quatro.
Isso em nada altera o facto de o consumo de material de leitura ou ilustrado ter ultrapassado em larga medida a produção natural de escritores ou desenhadores talentosos.

Com o material sonoro passa-se o mesmo. A prosperidade, o gramofone e a rádio criaram uma audiência cujo consumo cresceu de forma desproporcional relativamente ao crescimento demográfico e, por conseguinte, ao crescimento 'normal' de músicos de excepção.
Daí resulta que em todas as artes, quer em números absolutos ou relativos, a produção de resíduos é maior que anteriormente; e assim permanecerá enquanto as pessoas continuarem a consumir em excesso […]



(citação de Boris Vian, extraída por Nöel Artaud de artigos publicados em inúmeras publicações francesas versus citação de Aldous Huxley, extraída de «Croisière d'Hiver, Voyage en Amerique Centrale»)

Comments

É caso para dizer que um mata e o outro esfola.

Há coincidência de pontos de vista e divergência também, Daniel. Enquanto para Boris Vian da democratização do acesso às artes/cultura/uma coisa assim só poderia resultar o aumento da quantidade/qualidade da produção artística, Aldous Huxley era bem mais pessimista relativamente aos resultados da massificação da informação que acompanhava (e tem acompanhado) essa democratização.

Sim sim, eu percebi perfeitamente e conheço a obra dos dois, daí a minha afirmação. No entanto, acho bem mais realista e científica a visão de Huxley. Se por um lado, Boris Vian roça o absurdo, e sabemos que era essa a sua interessante especialidade, pelo o outro, Huxley, consegue, a meu ver, ser mais pessimista; ou seja, realista q.b.

Sim sim, eu percebi perfeitamente e conheço a obra dos dois, daí a minha afirmação. No entanto, acho bem mais realista e científica a visão de Huxley. Se por um lado, Boris Vian roça o absurdo, e sabemos que era essa a sua interessante especialidade, pelo o outro, Huxley, consegue, a meu ver, ser mais pessimista; ou seja, realista q.b.

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