verdade ou consequência
Casada há 12 anos com um agricultor, queixava-se ela que o marido costumava encerrá-la na adega duas a três vezes por mês, libertando-a apenas depois de ela ter manuscrito meia dúzia de páginas com relatos das suas experiências sexuais. Há 9 ou 10 anos, ainda no início desta profissão desgraçada, foi assim que começou o depoimento de uma mulher com cerca de 30 anos, residente numa aldeia do meu concelho natal.
Tal como o seu aspecto exterior (pele cansada, da cor dos sapatos, olhos desmesurados, vestido de chita donde ressaltavam enormes rosas vermelhas, mãos com vincos escuros do trabalho do campo, arrobas de maquilhagem), as cinquenta e poucas páginas que apresentou para comprovar o que alegava continham uma mistura bizarra de ingenuidade e hardcore animal, erros ortográficos básicos e narrações cruas do "acto".
As outras personagens incluiam o padrasto, logo aos 9 anos de idade, um pároco pelos 11, uma série de rapazolas da jorna durante a adolescência, e mais alguns cultores dos raros ofícios que ainda vão sobrevivendo nas aldeias minhotas.
Se eram imaginários ou reais, nunca o soube, pois pedi transferência para Lisboa pouco depois. Tivesse acompanhado este caso até ao seu desfecho e continuaria provavelmente sem saber - nestas lides quase todos mentem descadaramente quando podem - mas existiam aquelas cinquenta e tal páginas manuscritas sabe-se lá como. Fossem ficção e seria preciso uma apetência absurda pela humilhação pública para apresentá-las como elemento probatório de uma queixa.
Pouco mais há a referir. É sabido que relatos circunstanciais não vendem papel nem pixels. Falta apenas enumerar alguns pormenores que fariam o mesmo sentido no início do post, a meio ou agora. Segundo a depoente:
- O marido só manifestava algum desejo sexual depois de ler as suas prosas;
- Na última reclusão na adega, esgotados os episódios de infância e juventude, ela incluiu-o no relato;
- Ele não apreciou tal facto;
- Perdeu a cabeça;
- Expulsou-a de casa;
- Jurou a familiares e amigos que ela era uma puta e andou uns dias a espalhar cópias dos relatos nos cafés das redondezas.
Acabei por perguntar-lhe se também pretendia apresentar queixa por difamação, se aquilo era mesmo difamação, mas ela nem sequer conhecia o significado da palavra.
Comments
Caramba!Este país está atascado de Cabos Costas.
Posted by: maria arvore | abril 9, 2009 06:44 PM
o gnr de sta comba que matou há uns anos um série de mulheres?
Posted by: José Quintas | abril 9, 2009 07:56 PM
Esse mesmo. Como símbolo dos homens que neste país violam física e psicologicamente mulheres. No caso em apreço ele também matou: socialmente.
Parece que não há barrela que lave o cheiro de Santa Comba.;)
Posted by: maria arvore | abril 10, 2009 08:39 AM
nem sei o que te diga. referir que tanto o gnr como o agricultor são dois exemplos extremos de tipos que não entendem as mulheres seria fechar os olhos à existência de doidos perigosos. mas gostava de ter ouvido o agricultor. especialmente em casais desavindos uma versão nunca é suficiente. muitas vezes nem após ouvir os dois lados conseguia ter a certeza sobre quem mentia menos já que ambos... ainda bem que isso ficou para trás
Posted by: José Quintas | abril 10, 2009 11:05 PM