peixes, mapas e monstros

Não me trancaram em nenhum sótão tendo eu treze anos, fui eu
quem trancou o mundo no exíguo espaço que resta fora desta divisão:
não aceito nada que não me caiba nos pulsos ou que já me circule no
sangue; o máximo que posso é forrar as paredes e o triunfo da solidão
com reproduções fac-similadas de um mapa desenhado em estalagem incerta
por um galego desencantado que no ano da graça de mil quinhentos e setenta
acrescentava porções de terra e mar consoante o estado do seu estômago
ou – fonte bem menos credível – relatos de marinheiros, elidia penínsulas
e arquipélagos para os substituir por extensas áreas azuis de corpos insepultos,
ou apagava civilizações inteiras para colocar a inscrição “terra incógnita”,
supremo gesto de humildade comparticipado por gravuras de monstros amorosos.
Um mundo redutível a meia dúzia de graças e um vago sentido de partida,
eis tudo quanto estou disposto a ceder.
«Et Pas De Comissions», António Ramos Pereira
(desenho de Pieter Bruegel)
Comments
Quem é o António Ramos Pereira?
Posted by: Anonymous | abril 10, 2009 01:51 PM
não sei. li-o na revista criatura. gostei. nunca li nada parecido. publiquei
Posted by: José Quintas | abril 10, 2009 02:12 PM
Este blogue é de rir. Faz alarde de poetas, músicos, só nomes obscuros a torto e a direito, e corta na casaca de nomes consagrados. Invejazita, é?
Posted by: Anonymous | abril 10, 2009 02:24 PM
esta 6ª feira deve ser mesmo santa. até que enfim aparece alguém que não me grama. obrigado.
Posted by: José Quintas | abril 10, 2009 02:31 PM
Invejazita, é?
Posted by: Anonymous | abril 10, 2009 02:43 PM
caro anónimo, tudo indica que tirou a tarde para se coçar por estas bandas. nenhum problema com isso. também não estou a pensar ir a lado nenhum. se for sua intenção que eu responda aos comentários anteriores, talvez fosse melhor inventar um nick menos comum. não é por nada de especial. não é o meu nome que me faz menos anónimo. mas não custa nada inventar um. é só p/evitar confundi-lo com outro qualquer anónimo que possa aparecer no entretanto.
Posted by: José Quintas | abril 10, 2009 03:08 PM
Serve João Carlos?
Posted by: Anonymous | abril 10, 2009 03:12 PM
seja. João Carlos, não concordo mesmo nada que este blog seja "de rir", ou só de rir. talvez não seja visível desse lado, mas há um certo esforço para que o blog sirva também para choramingar, pular, espicaçar, ensimesmar, judiar, denunciar. o que for. até bocejar. já me teria cansado disto se tivesse encalhado num estado de espírito, numa atitude, num só discurso. quanto à invejazita, não estou a ver onde queres chegar.
Posted by: José Quintas | abril 10, 2009 03:21 PM
Para já, agradecia que não me tratasse por tu. O anonimato requer distância. Inveja é o que se depreende quando se denigre nomes como Gastão Cruz (todos os que lhe atribuíram prémios estarão errados?) e se promove nomes completamente desconhecidos cujo valor está longe de ser demonstrado.
Posted by: João Carlos | abril 10, 2009 03:29 PM
João Carlos, aquele «queres» saiu de forma inconcsiente. acredite se quiser: nunca me servi do tratamento por tu para respeitar ou deixar de respeitar fosse quem fosse. mas seja feita a sua vontade. não me custa tratá-lo por você. adiante. para quem não me conhece pessoalmente, a inveja da minha parte relativamente a autores consagrados seria uma possibilidade se tivesse ambicionado ser um autor, com obra publicada em papel, com críticas e prémios à mistura.
Ora, não conheço nenhum amigo de infância ou actual que possa jurar ter-me ouvido algum dia dizer «quero ser escritor» ou bombeiro ou presidente da república (bem, talvez astronauta… banal, sim). O que posso assegurar-lhe é que um blog serve todas as minhas ambições para ocupar o tempo livre. O papel nunca iria permitir combinar palavras, desenhos, música, vídeos, links num arranjo gráfico escolhido por mim.
é certo que o papel permite uma leitura (como dizê-lo?) mais absorvente. écerto que não há piores leitores do que bloggers (lêem quase tudo à pressa, na diagonal). mais certo ainda é que este blog não chega a um nº de desconhecidos que eu gostaria de atingir. paciência. precisaria ser “mediático” ou então portar-me como um cão que mija em todas esquinas, comentando em sítios mais populares para me dar a conhecer a mais gente. não há pachorra para isso.
Posted by: José Quintas | abril 10, 2009 03:41 PM
Fico-lhe muito agradecido pela resposta, José. Balelas talvez, mas porquê privilegiar nomes desconhecidos em detrimento de autores reconhecidamente com maior valor?
Posted by: João Carlos | abril 10, 2009 03:59 PM
caro João Carlos, vou fazer de conta que não li «balelas». isso, e o desrespeito subjacente, bastaria para sugerir que se dedicasse ao levantamento topográfico de plutão ou mais longe ainda. repare pf: nem acho que divulgue apenas desconhecidos. costumo visitar uma dúzia de sítios com um gosto mais apurado que o meu, que divulgam poetas e músicos e assuntos bem mais obscuros que aqueles que costumo fazer aparecer por aqui.
o que me leva a divulgá-los é excatamente o mesmo que me levou a dar-lhe a si, comentador anónimo, maior atenção do que a dispensada a amigos e conhecidos. já existem sítios bastantes que apontam os seus focos para personas do star system.
desde os 18-20 anos que sei como funciona o dito sistema em portugal: é difícil furar, mas uma vez lá, por feliz acaso, persistência ou amizades convenientes, 9 em 10 deitam-se na cama, produzindo mediocridades destinadas ao incenso de amigos e do vulgo.
o que me resta por natureza/opção/profissão?
«relying on the kindness of strangers» talvez conheça a expressão. obrigado pela sua, mas, às tantas, perdemos ambos o nosso tempo. espero que pelo menos tenha servido para ficar a conhecer as palavras (as do post) de alguém tão anónimo quanto você
Posted by: José Quintas | abril 10, 2009 04:43 PM
João Carlos:
http://www.luisolival.net/downloads/Macgyver.pdf
Posted by: Luis | abril 12, 2009 09:09 PM