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casamentos improváveis (2)

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Vítor Bento, whom I do not know, tem soltado uns gases para engrossar a fétida aragem que tem emergido de mansinho nas últimas semanas: a inevitabilidade de reduzir os salários. Fui ver quem era. Dizem que é presidente da SIBS. Não preciso conhecer a utilidade da SIBS para saber quem o que é Vítor Bento.

Vítor Bento, tal como muitos que aparecem nos jornais e televisões terrestres, é uma criatura do espaço exterior. A julgar pelo discurso, tudo indica alimentar-se de ar e vento, não precisar de um tecto nem de pagar a educação de filhos nem, no seu caso particular, de ir ao barbeiro.

Pedro Sales, whom I also do not know, mas que parece um rapaz sensato, diz aqui o piorio dele. Provavelmente, desconhece a natureza alienígena de Vítor Bento. Utiliza argumentos racionais quando é sabido que no espaço exterior é a lata que prevalece; quanto maior a quantidade de latas mais fácil se torna vencer batalhas intergalácticas - axioma igualmente válido nas eleições terrestres.

Tal preceito remete para as disputas eleitorais que se avizinham. Nenhum dos partidos do costume, mesmo se tiver vontade disso, se atreverá a defender, neste momento, a ideia peregrina de Vítor Bento, o que é uma pena, pois acredito piamente nele. Se a partir de amanhã Vítor Bento decidir, como exemplo revolucionário, passar a ganhar 450 euros por mês, segui-lo-ei sem hesitar, eu e inumeráveis fiéis.

E mesmo se as notórias agruras da sua vida impedirem Vítor Bento de abdicar do seu salário actual, continua a ser indesmentível que a ideia e os seus defensores têm tentáculos para andar (para que servirá um "novo" Bloco Central, senão para legitimar o aperto de mais uns furos no cinto?). Não duvidem: é preciso descer os salários quanto antes. E não é 10 nem 20%. Tem de ser 50% ou mais. Só assim ultrapassaremos a Crise. Talvez só assim as pessoas acordem e possamos ter uma revolução digna desse nome.

Comments

Foda-se! Aplaudo e subscrevo!

Mas apesar de tudo, e vê-se pelo silêncio, somos um povo demasiado sensato e (des)iludido com a revolução de abril para voltar a tais ideais de revolta. Ou então - e isso não é exlusividade "nossa" -, vívemos cada vez mais amedrontados pela eficácia da sociedade de informação.

Resumindo. Enquanto formos permeáveis à violência das medidas tomadas pela sociedade institucional e acharmos que uma posição violenta e inconformada não é solução para nada, não somos mais do que carne para canhão.

em 1385, 1640, 1820, 1910, 1974 (mesmo em 1926…) foi sempre meia dúzia de aves raras, com as motivações mais díspares, mas atentos a uma espécie de sentir colectivo da população, que se lançou em aventuras, e só depois é que as maiorias foram atrás.
não duvido que estas democracias representativas (!) não sejam propícias para alterações bruscas de regime. pelo menos, enquanto os mais prejudicados continuarem a dirigir os sentimentos de revolta para os vizinhos do lado ou adormecerem diante da tv.

talvez um dia se cansem disso e comecem a fazer asneiras a sério, violência à toa mesmo, generalizada. então, talvez os tubarões se assustem e repartam umas migalhas para acalmar o peixe miúdo.
se não repartirem, lá teremos de esperar por outra meia dúzia de aves raras que tome a iniciativa. só espero que sejam mais eficazes do que há 35 anos.

"Violência à toa mesmo" já vemos nós todos os dias, os números não mentem - pela tv, pela internet, pela rádio, pelos jornais, na rua, no passeio, enquanto se bebe um copo (um careca já com idade para ter juízo a enfiar umas-quantas-sardas-por-segundo num puto bêbado só porque tropeçou e caiu por cima dele), depois de comprar pipocas, antes de arrotar, etc, etc, etc... Quanto aos mais prejudicados e à vizinhança, a causa e a consequência, é já um clássico que se repete. Relativamente à revolução de abril, não é difícil; é bem mais soltar as aves raras do jardim zoológico.

Um pequeno pormenor: da ave rara ao tubarão não é um passo assim tão grande, é só uma questão de eficácia. E poderia agora enumerar as datas, tintin por tintin, de todas as grandes revoluções mundiais edificadas por aves raras no século passado. Ou seja, a meu ver, e posso estar errado, esperar pelas aves raras é aceitar o fracasso. Até porque a altura das aves raras já passou; foi um fenómeno que, se vires bem, girou à volta de um sistema político, favorável ou contraditório, que entretanto começou a definhar.

(Não te esqueças também que as aves raras, como são poucas, vivem num círculo demasiado fechado.)

A sociedade é agora outra, e o conhecimento de hoje não é mesmo de, no mínimo e a título de referência, há 35 anos atrás. As aves já não são raras, são bandos que se podem organizar e discutir, como estamos agora a fazer, embora demasiadas vezes absorvidos pelo excesso de informação de que falei. E podes dizer que a culpa é das telenovelas e do telejornal da tvi e trinta por uma linha, mas também tens de perceber que a massificação da informação pela internet também não é menos do que uma perversidade de primeira que nos leva à massificação do "abstracto" e nos desvia cada vez mais deste tipo de sentimentos mais concretos e à flor da pele.

Talvez por isso, a necessidade de violência. Mas nunca à toa para acertar no vizinho do lado* (quando não merece).

* que, tal como o meu, gosta do telejornal da tvi, do 24 horas e de bater na mulher - isto simbolicamente falando.

Daniel,
às tantas, não estou a ver em que discordamos.
vou tentar aproximar as minhas palavras das tuas.

o consumo massivo de informação tanto contribui para a democratização da mesma como para uma certa sensação de impotência/dispersão do impulso necessário para modificarmos de forma consistente o que achamos errado.
o modo como esse processo acontece só beneficia a meia dúzia de detentores do poder financeiro/político/mediático.
talvez precisemos de mais alguns anos para conseguir olhar para a net com a distância/indiferença com que já olhamos a tv.
então, talvez se consiga focar melhor a atenção. talvez a passividade diminua.

a chamada democracia representativa tem os dias contados enquanto não se arranjar uma forma eficaz de garantir que os eleitos cumpram o que prometeram (ou prometerem só aquilo que prevêem poder cumprir)

também acho que a violência é o que resta a quem não se sente representado por eleitos que olham para o n/voto de 4 em 4 anos como um cheque em branco.

«esperar pelas aves raras (capazes de tomar a iniciativa) é aceitar o fracasso»?
É. não consigo ver nos mais desfavorecidos nem na classe média nem nas elites quaisquer sinais que me deixem prever um mundo melhor
estamos todos à espera que piorem ainda mais
espero, desejo, receio o caos

(escrevo isto sentado numa cadeira decente, diante dum pc decente, debaixo de um tecto decente, depois de uma refeição decente, num estado de espírito decente… preciso de perder algo ou tudo isso para me portar de maneira indecente… quem já não tem nada a perder está espera de quê exactamente?)

Pelos vistos, e isto se é que discordamos, é pela margem mínima.

Quanto à espera, é uma pergunta sem resposta - pelo menos para já.

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