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Monteiro dos Santos


Tenho 27 anos e encontro-me no primeiro de muitos empregos temporários – temporários por opção – opção que os tempos de agora já não permitem. O meu superior hierárquico, homem visivelmente habitado pelos paradoxos da sua geração, exige a cada um dos seus subordinados que prepare uma visita guiada a uma freguesia do concelho de Vila do Conde.

Cabe-me em sorteio Parada. Se, à imagem desta freguesia, o mundo estivesse organizado segundo a correspondência exacta entre os nomes e os objectos, «metáfora», enquanto palavra e conceito, talvez já não existisse. Traduzo: não encontrei qualquer bibliografia disponível sobre aquele sítio; parecia que nada tinha ali ocorrido desde o início dos tempos.

Em desespero de causa, lembro-me de uma personagem local. Bibliotecário, boémio, frequentador de adegas e casas de fado, diseur da poesia de antanho quando o deixavam, era conhecido pelos apelidos «Monteiro dos Santos». Habitava um corpo atarracado, semelhante aos estalajadeiros barrigudos de Molière e, por arrasto, transportava no olhar uma velhacaria aparente com que afastava os mais incautos.

Hoje, com o google à mão, não o teria feito, mas naquele tempo não hesitei em visitá-lo na biblioteca municipal onde trabalhava. Afinal, o risco de ser mal recebido pesava menos que a necessidade de coligir informações sobre a tal freguesia.



Demorei mais de meia-hora a conseguir o que queria. O meu aspecto, demasiado saudável, em nada ajudou, até que ao fim de meia dúzia de perguntas que o surpreenderam, Monteiro dos Santos disparou:
- Há algo de errado em si. Esse corpo não devia albergar essas perguntas, essas palavras. Mostre-me as suas mãos.
Embaraçado, obedeci. São algo frágeis, mais para o alongado, mas cada uma tem frente e verso, cinco dedos e cruzamentos de traços ligeiros e vincos pronunciados como todas.

- Ah, então é isso… - proferiu como se tivesse desvendado algum segredo – Muito bem, vá à cave, vire à esquerda ao fundo do corredor e na prateleira nº (?) encontrará o que procura. Cuidado com o pó. Quando acabar, tente deixar tudo na mesma.
Eu deixei. O olhar desconfiado daquele homem e modo como traduziu um corpo a partir de um detalhe para mim insignificante infundiram-me respeito.

Poucos dias após, a visita guiada foi um sucesso. O meu superior hierárquico, o tal habitado por paradoxos e um dos poucos connaisseurs da História do concelho, perguntou:
- Onde descobriste tudo isso?
- Monteiro dos Santos - repeti – Monteiro dos Santos.

Ainda hoje creio que leio corpos antes das palavras. Ainda hoje é evidente que há corpos que as palavras não traduzem, que não precisam dessa sincronia para emitir um discurso cativante.
Monteiro dos Santos, soube-o há pouco, foi-se no Inverno de 2008. Continuam por cá corpos e palavras por traduzir.