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Joshua Avram Leymer

Leymer era, como todos nós, comerciante de afectos, só que não tinha jeito para tal negócio. Descendente, como parece convir, de judeus sefarditas, viveu nos arredores de Brugges na segunda metade do séc. 17 e início do séc. 18, onde assistiu aos primeiros sinais de apodrecimento da aristocracia europeia de então. Dele, nenhuma referência se encontra através do Google nem na Wikipedia nem na Encyclopædia Britannica nem em lado nenhum, devido, crê-se, ao facto de Leymer raramente levantar a sua voz e ter vivido no pavor constante de lhe ser prestada demasiada atenção.

Ao contrário dos poucos amigos, que lhe teciam amiúde encómios que não entendia, os familiares e anónimos com que privou ao longo dos 47 anos da sua vida fizeram-lhe a vontade: apreciavam os seus ouvidos; nunca ligaram patavina ao que ele dizia, o que Leymer achava digno da mais elementar justiça.

Já então ciente da relatividade imanente de todas as coisas conhecidas, lamentava-se em privados murmúrios que o Mundo, sob tal crivo, se assemelhava a uma prisão com grades invisíveis, para, como se disso retirasse algum prazer, se contradizer logo de seguida, lançando no ar a suspeita de que um Universo repleto de verdades absolutas seria pior do que uma masmorra de Filipe V de Espanha, que então ocupava a Flandres.

Mercê desse raro talento para arruinar a sua própria credibilidade com exercícios de contraditório e vagas noções da multidimensionalidade das coisas visíveis o seu restrito círculo de amigos, inadvertidamente, popularizou um artíficio retórico conhecido nos nossos dias como «disclaimer». Foi esse o seu legado.