dos tempos que corriam
Começo pelo fim: De nada adianta fugir do Tempo. Enquanto construção colectiva, ele corre sempre mais, muito mais que cada um de nós. E depois paro. Entro numa biblioteca municipal nas imediações das Avenidas Novas, em Lisboa. É suposto trabalhar aqui uma mulher algo difícil de encontrar. Para ela, vou ser como o Tempo, vou ter que agarrá-la, quer ela queira quer eu não. Não está de momento. Decido esperar.
Local tranquilo, aprazível, «clean and well-lighted», diria o suicida Ernesto. Um óbice: toda a literatura está catalogada em… «Literatura». Nem me atrevo a formular um desejo absurdo em voz alta: «em que prateleira posso encontrar poetas do Uzbequistão?». Atrás de mim, repousa um calhamaço organizado por António Barreto intitulado «A Situação Social em Portugal, vol. 1: 1960-1995». Sem mais delongas, opto por aquele estudo elaborado pelo ministro co-responsável pela ruína precoce da Reforma Agrária no pós-25 de Abril. Folheio-o de trás para a frente até estacionar no capítulo «Evolução dos Costumes...».
Por norma, aos costumes nada digo, mas eles, costumes, quase sempre têm que se me diga, mesmo quando não me afectam directamente. Neste caso, o sufoco implícito em ser mulher no antigo regime, a catréfada de coisas que estavam legal e praticamente impedidas de fazer. Anoto alguns detalhes que irão servir o post de cima até que a mulher que procuro chega nesse entretanto. Pouco depois, enquanto justificava as razões por trás do problema que ali me levou, refere o marido já falecido, do qual «devia ter-se divorciado logo em 60 e muitos... talvez a minha vida e a do meu filho tivessem sido diferentes... para melhor, mas naquele tempo só as mulheres dos ricos tinham algumas condições para se divorciarem e mesmo essas tinham de enfrentar o escândalo.»