dos tempos que correm (e doutros que o tempo ainda não correu)

A ecolalia, patologia que herdei de Kurt Vonnegut, Jr., obriga-me a repetir esta pérola, encontrada no Expresso de 14.3.09, que adornava um comunicado da União das Famílias Portuguesas distribuído à entrada de uma conferência de imprensa de MF Leite:
O homossexualismo, que enquanto deficiência psíquica e somática merece compaixão, é agora arrogantemente apresentado com orgulho.
Assim apresentado, o que será isso do homossexualismo? Uma doença do foro ideológico? Mais uma daquelas maleitas que podem levar alguém a condenar nos outros aquilo mais receia em si mesmo?
Não importa aqui a semântica. Olhos na História, p.f.
Repare-se mais abaixo o que pessoas com crenças semelhantes defendiam, há meio século, sobre a emancipação das mulheres. O excerto foi retirado do capítulo «A Evolução dos Costumes em Portugal, 1960-1995», (in «A Situação Social em Portugal, vol. 1: 1960-1995», org. por António Barreto), onde, a fls. 216, se faz referência a uma «Carta a Uma Jovem Portuguesa», publicada n’ A Via Latina, revista/panfleto da Associação Académica de Coimbra, em 19.4.1961. Cito:
A minha liberdade não é igual à tua. Separa-nos um muro, alto e espesso, que nem tu nem eu construímos. A nós, rapazes, a viver do lado de cá, onde temos uma ordem social que em relação a vós nos favorece; para vós, raparigas, no lado de lá desse muro, o mundo inquietante da sombra e da repressão mental […] Beijas-me e sofres. Dizes «não o devia ter feito» porque julgas que não o devias ter pensado, e vives no conflito de livremente me quereres e de intimamente me desconheceres e por vezes detestares. Eu sou o senhor a quem obrigatoriamente tens de te ligar para viveres na consideração e segurança sociais. Sabes que a tua liberdade vem de mim. O teu corpo exige-me e repele-me, surpreso porque me desconhece […] Tens de derrubar connosco o muro que nos separa. Só assim verdadeiramente te conhecerei, saberei o sabor do teu corpo, a cor dos cabelos e dos teus olhos.
Em Abril de 1961, a Universidade de Coimbra acordou pasmada. As coisas não podiam ficar assim. Um grupo de meninas devotas enviou à Direcção da Associação Académica coimbrã um comunicado exigindo que «os ataques à moral cristã tradicional e os comentários contra lares domésticos de direcção religiosa» fossem denunciados como tendenciosos.
Pouco depois, a J.U.C. [Juventude Universitária Católica?] tomava posição. Em Maio de 1961, o «Encontro» publicava uma nota […] onde se afirmava que o artigo d’ A Via Latina constituía «uma apologia do amor livre». Seguia-se a explicitação da posição da Igreja: «O casamento estrutura-se realmente no dever e na obrigação. A dádiva total que pressupõe não se constrói sobre actos reflexos, desejos irreprimíveis, paixões passageiras e arrebatadas […] Quem aqui se insulta não é a abstracção “rapariga portuguesa”; são as raparigas concretas que nos rodeiam, com quem convivemos, as nossas irmãs, as raparigas que amamos, as nossas colegas».
À distância de meio século, é possível sorrir com o teor quer da «Carta» quer dos argumentos dos católicos daqueles tempos. Hoje, faltando ainda concretizar na prática alguns aspectos da igualdade de direitos que a Lei consagra, apenas trogloditas residuais defendem que a emancipação das mulheres foi um erro. No entanto, tratou-se de um salto sociológico com consequências (benéficas, admitam) na vida de quase todos. Agora que uma minoria pretende a equiparação de um direito, sem que isso implique a lesão dos direitos de outrém, que razão restará aos seus opositores?

Comments
Se este post fosse a batalha naval diria que é um tiro no porta-aviões. :)
Porque é a mesma discriminação pelo sexo que alicerça o impedimento para que a liberdade e os direitos de todos sejam iguais. :)
Ou o egoísmo de quem quer impôr a sua moral a todos os outros não suporta que deixem de haver cidadãos de 2ª como os escravos, as mulheres e os homossexuais (de ambos os sexos)para lhes conferir a distinção que não têm?...
Posted by: maria arvore | março 25, 2009 08:24 PM
O panfleto é muito bom. É muito auto-explicativo. Assim dá gosto. O post está bom mas felizmente, pessoas inseridas nas tais "famílias portuguesas" começam a ser inócuas de tão ridículas e ultrapassadas pelo tempo.
Posted by: Pedro Jordão | março 25, 2009 10:06 PM
olá Maria, olá Pedro (Effi Briest, que surpresa!), escolher como porta-aviões / saco de boxe a União das FPs não foi o mais indicado. Ficou demasiado fácil. Devia ter escolhido outros com um discurso à primeira vista mais racional, mais modernaço: Eduardo Nogueira Pinto, Pedro Lomba, mais um ou outro que já esqueci, e alguns desse farol às escuras chamado Cachimbo de Magritte.
Já agora, repare-se em mais um exemplo. Desta vez não se tenta desconversar referindo o casamento polígamo e entre humanos e ursos koala, mas também se compete, em ridículo, com os argumentos da União das Fps.
Foi escrito por Pedro Pestana Bastos, trinta e tal anos, licenciado, pós-graduado, ilustre causídico preocupadíssimo com a ameaça que o reconhecimento legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo representa para o futuro das comemorações do Dia do Pai.
(cachimbodemagritte.blogspot.com/2009/03/um-dia-homofobico.html)
Posted by: José Quintas | março 27, 2009 12:17 AM
Ei, bater no Eduardo Nogueira Pinto tudo bem, agora no Pedro Lomba só por cima do meu comentário!
Posted by: menina limão | abril 3, 2009 04:19 PM
cara menina, todos batemos às vezes em quem outros amam. assim não fosse e só eremitas levariam porrada. não seria justo. eles já se autoflagelam que chegue
Posted by: José Quintas | abril 3, 2009 07:36 PM