« do twitter e outros pássaros | Main | John Mateer »

a extrema unção da poesia

Reza assim uma citação do último livro de Gastão Cruz, «A Vida da Poesia», encontrada aqui:
«A tensão e o rigor exigidos para o poema deverão igualmente consolidar a reflexão que toma por objecto a poesia: um texto de que a emoção não pode estar excluída e em que o poder da palavra continua a ser essencial. Falar de poesia, se não é tentar o impossível aprisionamento do poema ou do seu fugidio sentido entre as linhas do quadrilátero onde eles não hão-de caber, não poderá ser, também, o desajustado divagar extrapolante que tantas vezes encontramos na chamada crítica de poesia.»

Repito:
«... se não é tentar o impossível aprisionamento do poema ou do seu fugidio sentido entre as linhas do quadrilátero onde eles não hão-de caber, não poderá ser, também, o desajustado divagar extrapolante que tantas vezes encontramos na chamada crítica de poesia.»

Só mais uma vez:
«... se não é tentar o impossível aprisionamento do poema ou do seu fugidio sentido entre as linhas do quadrilátero onde eles não hão-de caber, não poderá ser, também, o desajustado divagar extrapolante...»

Pergunto: como é que um poeta não consegue ver/ouvir quanto isto soa mal? Experimente-se em voz alta:

«o desajustado divagar extrapolante»
«o desajustado divagar extrapolante»
«o desajustado divagar extrapolante
»

Insisto: não será esta a linguagem que afasta leitores das críticas ou poemas ou prosas que contêm tal mistura equitativa de vácuo e de pompa? Há cerca de 20-30 anos era exactamente isto que me levava, a mim e a outros da minha geração, a olhar a poesia de soslaio. É digno de assombro como alguns continuam a escrever deste jeito, ou então será mesmo opção (a Literatura enquanto Gulag só para meia dúzia) e aí nada os distingue, na intenção de fundo e ausência da noção do ridículo, do último projecto elitista de Zita Seabra.

Comments

Lá por sermos um país de poetas é preciso é criar a moda de comprar autores que se vendem como pãozinhos quentes. Autores de marca como a Levy's. ;)

esse tipo (esse livro) merece bem a sovadela que lhe vou dar. ah pois

Maria, não entendi exactamente o que querias dizer com o teu comentário, ou então fui eu que não me fiz entender no post. Neste caso, esclareço: não é pelo facto de achar um perfeito disparate a escolha de algumas palavras daquela citação, em que o seu significado se perde ingloria e desnecessariamente no meio da pompa, que defendo a banalização tout court (a presunção é uma bactéria contagiosa…) da linguagem.

Isso seria esticar a intenção do post até ao extremo oposto, i.e., quem quiser ser entendido tem de escrever de forma light. Curiosamente, a “ferida” encontra-se nessa palavra. Se reparares no post atrás do link (cfr. Bibliotecário de Babel) e noutras entrevistas de Gastão Cruz que se podem facilmente encontrar online, parece que aquele homem alimenta uma obsessão qualquer contra poetas que escolheram, passe a expressão, a simplicidade vocabular para comunicar o seu modo de estar e ver o mundo. Há momentos dessas entrevistas em que é notório um ressabiamento absurdo a que só faltará, creio, apelidá-los publicamente de margaridas-rebelo-pinto da poesia.

Light para um lado, a Luz para outro, repete Gastão Cruz há vários anos. Diz a lenda que Goethe também pediu mais luz antes de fechar os olhos de vez, o que é compreensível. Mais difícil de entender é a cegueira de Gastão Cruz em admitir como natural que outros utilizem uma linguagem diferente. Mal seria se assim não fosse. Formam-se pântanos quando assim não é.

(desculpa-me p.f. o lençol. não era suposto, mas foi assim que saiu)

Olá, Ente. Dá-lhe com a alma, de maneira que a seguir (peço desculpa pelo plágio) apeteça invadir a Bielorússia.

Penso que a teimosia de escrever como há quarenta anos revela que Gastão Cruz não tem nada para dizer.

ND, não posso ir tão longe. precisaria conhecer o que GC tem escrito recentemente. o meu óbice (não só meu, creio) é que aquele tipo de linguagem retira-me qualquer vontade de querer saber mais sobre quem continua a fazer questão em utilizá-la.

Gastão Cruz repete-se como numa ladainha, era o que queria dizer, e não evoluiu, será esta a causa de se repetir. Também a mim me tira a vontade de ler quem escreve hoje desse modo. A poesia, quanto a mim, deve aspirar a transmitir o que se quis dizer com o poema. Sem a batota da polissemia. Mas há sempre quem fique a olhar para o balão, aplauda freneticamente e, mais ainda, faça disso um clube da bola.

a imagem do clube da bola está bem achada. remete tanto para a clubite como para a mafia do futebol-betão-banca-política que detém o poder há décadas.
se até poetas, que por natureza/condicionamento social se dedicam a uma actividade marginal, se organizam de modo semelhante, é mau demais. significa que nem as margens escapam à correnteza. não sei, talvez este país devesse tornar-se uma colónia da sicília.

Post a comment