génio, divagações sobre o
Enquanto procurava recortes sobre Arthur Russell para um ou dois posts dos próximos dias devo ter entrado em cerca de quatro dezenas de sítios. Em muitos deles, associados ao seu nome e à sua música, encontrei adjectivos como «génio», «genial» e similares.
Gosto muito, muito mesmo, da sua música, tanto que comprei/rapinei quase tudo o que se pode encontrar em lojas e baías infestadas de piratas, mas franzi as sobrancelhas diante daqueles epítetos. Os «ses» são os de sempre em face de cadáveres famosos a posteriori:
- se Arthur Russell não tivesse morrido tão cedo e continuasse a fazer a sua música do mesmo modo discreto chamar-lhe-iam génio actualmente?
- se esse reconhecimento tivesse ocorrido durante a sua vida seria bastante para ofuscá-lo, desvirtuando talvez um dos percursos mais singulares da música popular das últimas décadas?
Está visto que não é fácil saber o que é um génio.

Olhemos então para o Génio enquanto sujeito. Se alguns houve para quem o reconhecimento público funcionou como estímulo ou bóia de salvação, outros tantos perderam-se, creio, no lodoso visco da fama. Quantos não terão desesperado enquanto trepavam arestas até ao pico mais próximo (tão distante e blasé em países minúsculos)? Quantos, uma vez lá chegados, não estiolaram no sufoco rarefeito das alturas, no consolo das palmadinhas nas costas (revered by idiots, descreveu um dia Bukowski), desencantados com a mesquinhez que costuma aninhar-se sob os pedestais?
Repensemos o génio enquanto atributo. Existindo previamente ao reconhecimento público, terá de sobreviver na sua ausência, já não para satisfazer ânsias de ribalta, mas uma pulsão lá mais do fundo. É esta, ao fim e ao cabo, a única obrigação dos eventuais detentores de tal víscera, sobretudo nestes tempos em que a globalização mediática esvazia egos inflacionados e esmaga os mais inseguros de si.
Regressemos, por fim, ao Sujeito (nos seus vários sentidos, «génio» talvez não seja uma palavra muito feliz). Não lhe restará, imagino, senão acreditar na força dessa pulsão. Persistindo, um dia incerto em que os aplausos se cruzem com a crença em si próprio poderá sempre jogá-los para o fundo de uma gaveta como medalhas de latão. Na gaveta, antes as medalhas do que uma pulsão, remato às escuras, sem avistar a lâmpada nem sequer Aladino.