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o bem comum ou um-dois, esquerda-direita-volver, uma coisa assim

Deixem-me bater num conceito que demasiados, porventura vítimas dos ares das últimas décadas, julgam demasiado gasto.

Num debate da RTP Memória, um homem engravatado, que vim a saber depois chamar-se Paulo Rangel, utilizava aquele já velho argumento de que já não existe esquerda nem direita. Justificava este homem, com candura, que ambos os quadrantes desejam o bem comum, que o suporte ideológico era secundário, que o importante era aplicar políticas que visassem o tal bem comum.

Há um par de dias, avistei o mesmo homem na bancada de deputados do PSD e ficou então mais fácil enquadrar o motivo da sua dificuldade, demasiado comum, no acto de distinguir diferenças entre esquerda e direita. Entre outros menos benignos, essa patologia pode ser explicada do seguinte modo:

Em 1974-75, o receio dos ventos que corriam obrigou o CDS a assumir-se como partido do centro, enquanto o então PPD reclamava como seu o centro-esquerda e o PS se posicionava na esquerda, passo a citar, «não totalitária»;

Durante as décadas de 80 e 90, tornou-se convenção colocar o CDS na direita, o PSD no centro-direita e o PS no centro-esquerda – uma arrumação previsível, com um confortável deslize, não só semântico, à direita em cada um daqueles três partidos.

Actualmente, o CDS continua à direita, mas tornou-se um projecto de um homem só; o PSD é, como sempre foi, um saco de gatos; e o PS faz o que os grandes empresários lhe encomendaram – ofereceu o caramelo do aborto à esquerda, promete mais rebuçados no futuro, enquanto vai enchendo chouriços que o CDS e o PSD sempre sonharam encher (mas nunca tiveram condições para concretizar, com o PS na oposição), e continua a usar o rótulo «esquerda moderada» (um deles chegou a utilizar recentemente uma expressão brilhante: a «esquerda possível»).

Simplificando, supra ficaram registadas algumas das razões da aparente avaria no GPS ideológico de Paulo Rangel e tantos outros. No entanto, aquele cândido homem não ficou muito longe da epifania quando defendeu que o mais importante era a aplicação de políticas que visassem o bem comum. Para lá da cortina de fumo mediática, só isso pode definir se uma governação é de esquerda ou de direita.

Sobre o bem comum, qualquer um pode dizer (evitando declará-lo relativamente à cara-metade) que «o meu bem é mais comum que o teu»; qualquer um sabe, ou deveria saber, que os detentores do poder só pensam no bem comum quando são pressionados na rua, e por tabela previsível, nas urnas, por multidões descontentes.

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