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o fogo está onde está a demanda

Faz agora um tempo e meio tempo, como se diz nas Escrituras, que eu ia para Vila do Conde como quem se interessa de iodos e recreios de mar. Que não. Oito anos de vida no coração de uma vila marítima deram-me uma desilusão de pantominas burguesas entre praia e esplanada, que não me recompus mais. Em Vila do Conde caí num lugar ermo de paganismo estival; um lugar tranquilo, mocho, com namoros de rendilheiras às portas, ao crepúsculo, e garotos de monco e fisga arrumando tiros de pedra aos pardais. [...]


Que não. Fisga não chegou a haver. Salvaram-se o monco e os pardais. Restou também uma memória ainda nítida dos Verões em que os riquinhos da Foz do Porto, aprumadinhos nas suas blusas Lacoste e sapatilhas Sanjo, invadiam as praias e os campos de jogos de Vila do Conde, olhando para os indígenas de soslaio ou com sorrisinhos de desprezo.
Nem seria preciso passar os olhos, uns anos depois, por Marx e Proudhomme para saber qual o meu lado da barricada. Não acreditam que existe uma barricada? E se escrever «fosso entre ricos e pobres» já acreditam?


[...] O baú ardia; cartas e gravatas ardiam como chama fumenta e delgada. Precipitaram-se. E enquanto descia, trupe-trupe, escada abaixo, sob o peso de cem anos enigmáticos, ela ria com uma doçura cismadora e fria. Como não a vi lançar fogo aos papéis, ficou-me a ideia de que ela produzira o incidente por artes inconfessáveis. Mas perguntei-lhe:
- Como foi isso? Não havia lume nem ponta de cigarro…
- O fogo está onde está a demanda.
E, trupe-trupe, desceu mais ainda e foi passear a sua velha sombra sob a ramada verde de sulfato. Os cachos eram de americano e deitavam um perfume lírico e outonal. O pó arenoso vestia-os de branco.

«Chama de Verão», Agustina Bessa-Luís
(in «Conversações com Dmitri e outras Fantasias», 1979)