da culpa (2)

Também me atira de chofre para quem nunca frequentou os lupanares da actualidade e se traça a perna indolentemente é porque não tem trabalho; para quem tem contas por pagar sem saber como; para quem vem atrás de mim na fila da caixa do Pingo Doce, carregando batatas, massas e óleos Fula, e observa as minhas delicatessen com a culpa inteira no olhar.
Mas culpa porquê? Esquecendo, por momentos, a minoria dos que se deixam cair na miséria por opção, todos os outros, que não têm onde cair mortos, serão inteiramente responsáveis pelo beco sem saída em que se encontram? Talvez, se não souberam votar para além da coligação PS/PSD que nos governa há 34 longos anos. Não obstante, cada vez se torna mais claro que um cheque em branco de 4 em 4 anos não serve de garantia para absolutamente nada.
Daqui, muito daqui, sonho com o dia em que o infeliz atrás de mim, na fila da caixa do Pingo Doce, vai perder a paciência e espetar-me um murro bem assente entre os olhos. Em seguida, roubar-me-á metade das minhas delicatessen com um sorriso selvagem no olhar. E eu, pequeno-burguês de merda, ficarei quedo e mudo, porque a culpa é também minha, pois nada fiz em contrário.