na paragem do 742, em alcântara
A trintona do chapéu de coco beije e o intelectual possível de cabelo rapado e óculos cheios de significado procuram o meu olhar quase todas as manhãs. A que propósito, vou perguntar-lhes num dia mais solarengo, se eu só desejo que se fodam, juntos ou sozinhos ou na companhia do cego do túnel de Alcântara que, até hoje, nunca falhou uma nota no seu acordeão?
Este último, sim, preocupa-me, pois já me iluminou o breu de um montão de manhãs com mil e uma versões redentoras do folclore português. Hoje, o traidor tocava, pífio, o «Jingle Bells». Concedo: tem de facturar, fazer pela vida, vender às pessoas aquilo que supõe ser o seu gosto. E admito: desejei-lhe mal; ansiei até que abrisse os olhos para que pudesse ver o esgoto de paixões onde trabalha.