realismo e dois prefixos
Conhecemos bem a utilidade das gavetas. Muitos – eu também - servem-se delas com a pressa com que varremos conceitos para debaixo de tapetes convenientes. É evidente que, ao fazê-lo, corre-se o risco de adicionar a «conceitos» o prefixo «pre». À conta disso, o filme «Entre os Dedos» tem sido engavetado, de modo apressado, na cómoda do «realismo», «neo-realismo» e afins. Diga-se de passagem que o Badaró morreu.
Mudando de flanco, mas ainda com os prefixos como bola, de registar algum menosprezo contemporâneo pelo surrealismo com que deparo, ocasionalmente, em sítios dignos do meu respeito. Até Herberto Hélder, numa entrevista à revista Phala de Outubro/Novembro/Dezembro de 1990, despachava o conceito com: «foi um equívoco, uma soma de equívocos». Mesmo Cesariny, talvez o melhor fotógrafo do Portugal salazarento, costuma ser arquivado na gaveta «surrealismo».
Valha-me o professor Karamba. Se estranharmos os temas, se formos avessos ao delírio, reconheça-se ao menos a utilidade dos surreais exercícios enquanto ginástica. Agarrados, como náufragos, à coerência, à lógica dos tubérculos de estufa, ao bocejo de discursos conformes, arriscamos, no mínimo, a perda da liberdade sintáctica, às vezes semântica, necessária para o desenvolvimento da língua, quando não da imaginação.
Fosse este blog um filme e, neste preciso momento, eu surgiria nu, travestido de gif animado da Teresa Guilherme: «Imaginação?! Isso agora não interessa para nada! Verdade, dêem-me a verdade, penetrem-me com inúmeras verdades. Fingirei um orgasmo, se preciso for».