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há uns meses

Duas entrevistas recentes. Uma mulher e um homem, ambos com cerca de sessenta anos. Ainda não lhe tinha dito «bom dia» e a mulher começou logo a chorar. Sem entender a razão do choro tão prematuro, perguntei se era eu o responsável. Que não, a vida é que não está fácil, respondeu, para continuar depois com o pranto minimal incomodativo. Chegou a dizer que havia dias que passava fome. Fiquei na dúvida.

Há uns meses, seria capaz de obrigá-la a aceitar a primeira nota que me saísse do bolso; desviaria o choro com um assunto estapafúrdio. Desta vez, esperei pacientemente que se esgotassem as lágrimas e lá acabei por indicar-lhe três saídas possíveis para o problema em causa.

O homem chorou de um modo diferente. Tinha uma pequena loja de pronto-a-vestir que foi perdendo clientes de ano para ano. Enquanto a mulher da entrevista anterior intercalava as frases com schuif-schuifes e assoadelas, este homem usava como pontuação «os chineses» e «os centros comerciais». Também devia ser telepata, pois respondeu a uma pergunta que não lhe fiz (porque não mudou de ramo ou não experimentou vender outro tipo de roupa?), dizendo que tinha baixado os braços há meia dúzia de anos e tudo tinha piorado a partir daí; não só por causa da loja, deixou de acreditar na generalidade das pessoas, deu como assente que todas as pessoas, mais tarde ou mais cedo, iriam desiludi-lo.

Há uns meses, talvez tivesse dito: «E daí? Nunca foi suposto as pessoas serem perfeitas. Deixe de procurar Deus nas pessoas e vai ver que tudo corre um pouco melhor». Agora, nem um pio. Fiz o que tinha a fazer e fui-me embora, surpreendido com esta indiferença crescente diante do sofrimento alheio. Estou a ficar um homenzinho, concluo. A encolher, portanto.