»Entre os Dedos» e o meu estômago burguês

Curiosamente, parece ter havido por parte dos realizadores um intenção deliberada de não situar demasiado as personagens no espaço e no tempo. Ficamos a saber que o tempo é mais ou menos presente apenas porque o pai do protagonista assim permite supor - tem cerca de 60 anos, a idade actual de muitos dos ex-combatentes das guerras coloniais e, a dado momento, está num quarto a ouvir esta música, das mais fascistas que já ouvi.
Avanço então para um aspecto que me é mais familiar - o modo de falar dos operários – e puxo de galões algo dolorosos: 3 anos, no início desta década, a ouvi-los às dezenas, das origens, credos e cores mais díspares, quase diariamente. Permito-me concluir: quem escreveu os diálogos parece não fazer ideia como os operários, em termos gerais, falam e interagem entre si.
Partindo do princípio (óbvio, creio) que as personagens de «Entre os Dedos» pretendem representar habitantes-tipo dos chamados bairros operários, não basta inserir meia dúzia de caralhos e uns foda-se no meio das frases para caracterizar, através da linguagem, a sua origem social.
Aquele pedreiro desempregado e aquela empregada de limpeza são, por assim dizer, tão circunspectos, minimais, comedidos, que os seus diálogos pareceriam mais verosímeis num casal da classe média. As pessoas que costumam viver naquelas casas e ter aquelas profissões são, generalizando, mais expansivas. Não limitam a comunicação a monossílabos. Falam, às vezes até demais, do que comeram ao almoço, de futebol, das alegrias e canseiras com os filhos, do preço dos ovos e da carne, das vidas dos vizinhos e colegas de trabalho.
Daí ser mais fácil olhar para «Entre os Dedos», não como um retrato estereotipado da vida de operários suburbanos, mas antes como um objecto artístico que descolou de uma realidade para ilustrar uma intenção: revelar a atmosfera concentracionária dos bairros que cercam cidades que cercam bairros, deixando os seus habitantes sem perspectivas de fuga. Exemplifico:
Excepto na imagem final, o horizonte visível das personagens (e dos espectadores) não vai muito mais além da parede mais próxima, sempre demasiado próxima. O próprio modo de filmar os interiores não permite espaço senão para o sufoco. Há uma quantidade significativa de cenas em quartos, salas e cozinhas, em que a câmara se encontra, por assim dizer, no corredor, olhando do lado de fora, com portas de permeio. Reduz-se assim a largura da tela, deixando as personagens apertadas no meio, sitiadas entre manchas escuras de ambos os lados, impelindo-as ao confronto entre si, a um crescendo de violência que estoira em três ou quatro picos no filme.
O seu valor passa muito por aí, por ter concretizado uma ideia de um modo eficaz. Do lado de cá da tela, por muito desconforto que possamos sentir a subir pelas cadeiras do Monumental até aos nossos cus e estômagos burgueses, a maior parte de nós, espectadores, ainda não sentiu na pele a violência latente nos bairros retratados no filme.
Chegados ao final, corremos para casa ou para o bar mais próximo, com a única intenção de preencher o buraco no peito, ou mais abaixo, com uma ceia que aconchegue os nossos receios. Tudo continuará na mesma enquanto os rejeitados deste sistema preferirem dirigir os sentimentos de revolta para os seus iguais.
