Quão mau podes ser?
«How evil can you get?» é uma questão bastante comum que, por razões profissionais, me tem ocupado nas últimas semanas. Para além do Bem e do Mal (para além do chato do Nietzsche, apeteceria dizer), tenho repassado os olhos por Yukio Mishima. Escrevia ele em «O Templo do Pavilhão Dourado»:
O templo acaba por simbolizar para Mizogogushi, o gago, a harmonia de um mundo, de uma ordem das coisas que ele rejeita e que o rechaça. Diante dessa beleza, não há outra maneira de existir senão opor-lhe o que lhe pode ser mais antinómico, uma enfermidade — essa careta do ser — ou então a malignidade de um acto que introduza “um átomo de mal” para servir de contrapeso a uma perfeição cuja autosuficiência nos aniquila.
Também vou a meio de «Eumeswil», de Ernst Jünger, um romance que, de tão paradoxal (não encontrei melhor adjectivo), tem desfeito em pedaços o meu frágil esqueleto moral. Ao ler Mishima e Jünger torna-se mais difícil descolar das costas uma etiqueta antiga: «anarco-fascista».
No entretanto, vou tentando conhecer através da experiência (sempre através da experiência) o que se encontra naquele hífen. É simultaneamente triste e aliciante quando um hífen encerra mais significados do que os adjectivos que lhe servem de fronteira.