a minha gente
Não sei se é por raramente acontecerem assaltos nesta zona, ou pelo facto de os pobres dos arredores apenas se deixarem ver quando passam por aqui à noite para recolher mobílias e electrodomésticos abandonados junto aos caixotes de lixo.
Nem sequer sei se é do mau feitio ocasional. Esta gente dos scones e das écharpes até tenta comunicar comigo. Eu, por momentos, comunico de volta, mas depois fujo. Não quero perder tempo com eles. Não são a minha gente. Também é certo que, escavando bem fundo, não recordo nenhum lugar com esse nome.
«A Minha Gente», vá-se lá saber porquê, lembra-me uma tabuleta que dizia, fúnebre, «Venda das Raparigas». Esqueço por momentos o funeral e pergunto: «Onde estão as raparigas? Onde está a minha gente? Aconchegados entre mijo, papelão e seringas, debaixo de uma arcada? Nos bairros sociais que cercam Lisboa?» Talvez, mas a minha gente só quer os meus cigarros, trocos e ouvidos. Nada quer com a minha boca.