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a minha gente

Não sei se é por dormir entre demasiadas écharpes no pescoço dos homens e mulheres demasiado loiras, ainda vestidas de ganga debruada com cornucópias, carradas de cores pastel, restos do creme de scones no canto da boca de velhinhas emperucadas que me perguntam o que penso do futuro político do Paulinho e choram agarradas à minha mão por inventar desculpas impossíveis enquanto recuso, polido, convites para tomar chá.

Não sei se é por raramente acontecerem assaltos nesta zona, ou pelo facto de os pobres dos arredores apenas se deixarem ver quando passam por aqui à noite para recolher mobílias e electrodomésticos abandonados junto aos caixotes de lixo.

Nem sequer sei se é do mau feitio ocasional. Esta gente dos scones e das écharpes até tenta comunicar comigo. Eu, por momentos, comunico de volta, mas depois fujo. Não quero perder tempo com eles. Não são a minha gente. Também é certo que, escavando bem fundo, não recordo nenhum lugar com esse nome.

«A Minha Gente», vá-se lá saber porquê, lembra-me uma tabuleta que dizia, fúnebre, «Venda das Raparigas». Esqueço por momentos o funeral e pergunto: «Onde estão as raparigas? Onde está a minha gente? Aconchegados entre mijo, papelão e seringas, debaixo de uma arcada? Nos bairros sociais que cercam Lisboa?» Talvez, mas a minha gente só quer os meus cigarros, trocos e ouvidos. Nada quer com a minha boca.