retrato do trabalho

Entro na casa de desconhecidos e convenço-os de que devem algo a alguém. A maior parte deve – num incerto sentido, todos devemos - se bem que são raros os que o admitem. De uma ou de outra maneira, saco-lhes o que tiverem em troca de atenção. É muito simples: ou pagam ou levam um tiro.
Para adiar o inevitável, contam-me vidas em sinopses de dez, vinte minutos. Precisam de compaixão, de alguém que saiba que existem, ou nem isso. Um simples par de ouvidos, talvez. Falam para mim e eu ouço. Também não sou surdo, ainda. Devo-lhes isso, porque muitos há que já nem falam. Desistiram. Estão só à espera de um tiro, venha de onde vier.
Dos que pagam, apesar de terem acabado de ficar mais pobres, alguns agradecem; outros convidam-me para voltar. Aqui deixo de ouvi-los. Digo-lhes que, no lugar deles, não gostaria de ser visitado por mim.