bela vista
Por fora, blocos de prédios cor-de-laranja, com um aspecto global não muito degradado. Lá dentro, cada corredor, cada vão de escada, se confunde com certas casas de banho públicas: seringas, beatas, papel de alumínio, uma quantidade de detritos e dejectos digna dos arredores de megapólis asiáticas.
Nos átrios que separam os blocos, miúdos jogam à bola enquanto gringos encostados às paredes, talvez à espera do dealer ou do freguês, olham para mim com desconfiança. Retribuo-lhes com a dose exacta de indiferença. Por via do risco, não fiz a barba para não ser confundido com um bom rapaz. Toco à porta da vítima e dizem-me que volta daí a pouco.
Enquanto espero no café daquele átrio, homens e mulheres entre os 50 e 60 anos, todos desempregados, metem-se comigo. A barba não serviu para nada. Gostava de ter um corpo insignificante, um olhar opaco ou ausente, ou então não, pois fiquei a conhecer a D. Celeste, reformada, que vive em bairros sociais desde os 3 anos, quando ficou órfã de pai e deixou a mãe em Braga, onde uns tios a foram buscar em 70 e poucos.
Apresentam-me à Bela (Anabela?) que sofre de palpitações quando se lembra da “grande cabra da Paula”, uma sua prima, mãe biológica de um par de crianças a quem “nunca ligou patavina e agora quer-mas tirar, a mim que fui mais do que mãe delas desde que foram paridas”.
Falta ainda a Maria Semedo e o seu pano colorido enrolado em volta da cabeça. Em Portugal desde 1999, viveu até há pouco na Azinhaga do Besouros, num anexo feito de tábuas e chão de cimento. Seis filhos, quatro menores, sem notícias dos mais velhos vai para dois anos. Diz que “não tinha mão neles”, que têm “mau sangue, saem ao pai”, morto em 1994, numa rixa em Bissau.