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80 e tantos

Poucas horas faltam para regressar, por uma semana, aos meus queridos anos 80. Vou encontrar uns, ser encontrado por outros, e ficar ao corrente de mais uns divórcios, doenças, mortes prematuras, azares pessoais e familiares, depressões dos próprios e alheias. Sem exagero: naquela cidadezinha-fantasma, raros são os que terão ocorrências positivas para contar. E depois alguém vai ter compaixão de mim e pôr todos a rir, transformando em caricaturas episódios tristes do passado. Um qualquer dirá de seguida «o que a gente se divertia em 80 e tantos», e aí eu desviarei o olhar e não perguntarei «até que ponto se pode ter a vida estuporada no presente para conseguir dourar memórias desta maneira?». É que os anos 80, não só para mim, creio, não foram uma década. Foram A Decepção. Foram tantas que não sobrou paciência para as decepções subsequentes. Mas nem pensar em dizer-lhes isto. Não, vou antes diverti-los com uma falsa suspeita: «vocês juntaram-se todos antes e inventaram essas desgraças para me deprimir, porque estão fartos de me ver aqui no Verão e no Natal, não?». E alguém vai responder com um disparate equivalente, seguido de risos, silêncios, disparates, risos e silêncios por ali fora. Tal e qual em 80 e tantos.