Olival
De volta ao Luís, pois este post é sobre ele, servindo também o objectivo da definição por contraste, como numa sala de revelação de negativos. Ele diz-se de direita. Eu encontro-lhe mais semelhanças com os revolucionários do início do século passado, só que ele ainda não o sabe (e mal o descubra, insultar-me-á). Um dia, dei por ele a falar comigo como se eu fosse um adolescente retardado e ele tivesse cerca de 70 anos. Disse-lhe isso no momento, o que não o impediu de continuar no mesmo tom, alheado (ainda bem) da década que nos separa no B.I. Outro aspecto que nos afasta tem a ver com ideais de paisagem: o Luís zarpou de Lisboa, rumo ao interior, perseguindo uma ideia de família e comunidade a que tenho conseguido escapar.
Onde se cruzam então os passos de ambos? Talvez na renúncia da artificialidade subjacente ao discurso típico de uma incerta classe média, na aversão à respeitabilidade e tiques adjacentes: «somos todos tão bem educados, tão cultos, só lemos os livros recomendados, vemos os melhores filmes, podemos partilhar de quando em vez alguma sinceridade com os da nossa capela, mas sempre com um certo panache, e nunca-mas-nunca-mesmo ficamos completamente à vontade com desconhecidos; temos pavor da pobreza e só confiamos nos nossos iguais ou em gente da alta, porque nos podem ser úteis».
Nunca encontrei essas peneiras nem o tal distanciamento blasé nas fotos do Luís. Mesmo quando deixa as pessoas fora da objectiva – o que não é frequente – não resultam daí naturezas mortas nem exercícios de vacuidade formal. A perspectiva raramente é neutra. Uma subjectividade forte ressalta das imagens e impõe-se. A intenção de algumas parece ser acordar olhares ainda semicerrados pela indiferença pós-moderna que tarda em morrer neste país. Traduzidas em palavras, parecem dizer-me: «Ei morcão (poderia ser «biltre» ou «palhaço»), isto é mesmo para mexer contigo!». Conseguiu, o grande filho de um cão perneta!
