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nota de resgate (4)


Lisboa, Kalahari. Estou só na paragem de autocarro, ali ao fundo da Calçada da Cruz de Pedra. Chega um homenzinho com um saco enorme às costas e pergunta se falta muito para o 759. Eu não sabia. Sem perder tempo, diz que tem 57 anos. Que vai vender coisas para a Feira da Ladra. Que tem um relógio fantástico-fantástico. Que faz um preço especial-especial. Que carago, penso e mostro-lhe os pulsos. Devolvi o último ao meu pai quando tinha 18 anos, digo-lhe. O homem saca da carteira e exibe um cartão da Legião Estrangeira. Tinha essa idade quando se alistou. Várias comissões em países do centro de África. Aquilo é que foram tempos, jura. Se matou alguém, pergunto. Hesita uns segundos e desvia a conversa:

- Quer ver o autocarro? Quer ver o autocarro parar aqui em dois minutos?
- [!]
- Basta puxar um cigarro e ele aparece aqui antes de acabar de fumar.
Assim fez e assim aconteceu. Ao subir para o autocarro, ainda disse:
- Sabe, eu tenho um anjo da guarda que me quer bem. Um bom dia para si.