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linhas trocadas no meu PBX

A senhora daquela ourivesaria no fundo da Rua Marquês da Fronteira alimenta com particular desvelo uma dezena de gatos vadios. O ritual acontece invariavelmente no início de todas as manhãs enquanto mastigo um folhado no Café contíguo. Comove-me a preocupação cristã com que tenta repartir de modo marxista a comida por todos: «tu, chega para lá… e tu, já tens que chegue… vê lá se não andas a comer demasiado». E assim por diante.

Não me espanta que ela trate os gatos por tu. Espanta-me, isso sim, que, em quatro meses, ela nunca tenha nomeado sequer um deles. Recordo algumas divindades orientais que se comportavam desse modo. Talvez aquela senhora também queira ser prestável sem criar demasiada intimidade com os gatos, não sei bem. No entanto, sendo tudo até aqui reprodução fiel da realidade, o que se segue talvez não o seja, pois é difícil ter certezas às 08:45. Não podendo jurar que as palavras tenham sido exactamente estas, creio ainda assim tê-la ouvido dizer esta manhã:

- Pierrot, preguiçoso dum raio, há tanto que não mostravas o teu melhor. Gostei, a sério que gostei, mas aquele filete mal passado não era para ti.