hotel de la gare (2)
Deixou de ser preocupante esta tendência de chegar tarde aos sítios, às coisas e às pessoas. Constrangedor seria esperar pelos 70 para começar a viver a sério. Acaba então por ser confortável aderir a músicas 2-5-90 anos após a publicação. No mínimo, significa que o filtro «don’t-believe-the-hype» continua a funcionar. Aconteceu desta vez com o cd de 2003 dos portugueses Wordsong. Bom de uma ponta à outra, entre as faixas menos acessíveis e as três ou quatro que me agarraram à primeira. Hotel de la Gare. Falta um par de anos, sim, mas, é ainda e já a melhor canção pop publicada por cá nesta década - perfeita de frente e de esguelha, no detalhe e no todo, à superfície e nas entrelinhas das palavras de Al Berto.
Não foi fácil arranjar o cd. Experimentei primeiro dezenas de métodos de roubo de comprovada eficácia e nada. Podem existir portugueses felizes por não se poder piratear a sua música. É um direito seu. Visto deste lado, se nem piratas se interessam por música portuguesa – e há piratas para todos os gostos - trata-se de mais um indício de que a música feita por cá, salvo raras excepções, não consegue ultrapassar a fronteira do Caia. Para trás, então, para não descambar na defesa de ilegalidades. Tive de encomendar o cd. Nunca pior. No folheto encontrei uma anotação indicando que «Hotel de la Gare» foi construída a partir de um loop de outra música («What is this love?», de Franco de Gemini - excerto). Essa circunstância levou-me ao atrevimento de aproveitar pontas soltas do poema de Al Berto numa aproximação muito prosaica a experiências pessoais. Refazer, contrafazer, porque não? Tudo vale menos a surdez.