« retratos de dois militantes anti-acordo ortográfico | Main | um verso para duas versões »

turba infantium

I'm feelin' rough, I'm feelin' raw, I'm in the prime of my life
Let's make some music, make some money, find some models for wives
I'll move to Paris, shoot some heroin and fuck with the stars
You man the island and the cocaine and the elegant cars

This is our decision to live fast and die young
We've got the vision, now let's have some fun
Yeah it's overwhelming, but what else can we do?
Get jobs in offices and wake up for the morning commute?

Forget about our mothers and our friends
We’re fated to pretend

I'll miss the playgrounds and the animals and digging up worms
I'll miss the comfort of my mother and the weight of the world
I'll miss my sister, miss my father, miss my dog and my home
Yeah I'll miss the boredom and the freedom and the time spent alone

But there is really nothing, nothing we can do
Love must be forgotten, life can always start up anew
The models will have children, we'll get a divorce
we'll find some more models, everything must run its course

We'll choke on our vomit and that will be the end
We’re fated to pretend


Expulso de casa pelas sete da manhã por uma turba de miúdos e miúdas adolescentes que fugiam da claridade. Um deles trauteava um refrão mais ou menos assim: «Nothing we can do, dididi-dadada, we’re fated to pretend». Antes de descobrir que pertencia a uma canção dos MGMT, peguei à pressa nos livros mais à mão e fugi também em busca de uma sombra com árvores.

Num saco de plástico, uma coisa sobre Jorge de Sena, organizada por Gilda Santos, «O Declínio da Mentira», de Oscar Wilde, outra coisa sobre o matemático Alan Turing e computadores («The Man Who Knew Too Much», de David Leavitt), e «A Cruzada das Crianças», de Marcel Schwob.

De encantar, este último. Foi o escolhido. 65 páginas com 8 relatos colocados na boca de 10 intervenientes naquela cruzada de 1212 que ficou conhecida com o nome do título. Acabei de lê-lo quando este sol danado me obrigou a vir transcrever uns parágrafos para o blog, aqui num cibertasco da Calçada do Garcia, em pleno kasbah lisboeta.


Relato do Papa Inocêncio III: (…) São sete mil nas estradas com a cruz e o bordão. Não tem nada que comer, não têm armas, são incapazes e envergonham-nos. Ignoram qualquer verdadeira religião. Os meus servidores interrogaram-nos. Responderam que vão para Jerusalém para conquistar a Terra Santa. Os meus servidores disseram-lhes que não poderiam atravessar o mar. Responderam que o mar se separaria e secaria para os deixar passar. Os bons pais, piedosos e sensatos, esforçam-se por segurá-los. Eles quebram os ferrolhos durante a noite e saltam as muralhas. Muitos são filhos de nobres e cortesãs. Faz muita pena. Senhor, todos estes inocentes irão naufragar e serão entregues aos adoradores de Maomé. (…)



O ambiente é pouco claro, longe de um «clean and well-lighted place». Sou o único português. No livro, a cor branca é referida duas, três, meia dúzia de vezes por página. Pureza para Schwob, morte para mim. Nunca me senti mal no estrangeiro.


Relato do Leproso: (…)- Quem és tu? - perguntei.
- Johannes, o Teutão – respondeu e as suas palavras eram límpidas e salutares.
- Onde vais?
- A Jerusalém para conquistar a Terra Santa.
Então ri-me e perguntei:
- Onde é Jerusalém?
- Não sei.
- O que é Jerusalém?
- É o Nosso Senhor.
Então ri-me de novo e perguntei:
- O que é o teu Senhor?
- Não sei. É branco. (…)



Relato de três crianças: (…) Há muito tempo que caminhamos. Foram umas vozes brancas que chamaram por nós durante a noite. Chamavam todas as crianças. Eram como as vozes dos pássaros mortos durante o Inverno. E no princípio vimos muitos pobres pássaros estendidos na terra gelada, muitos passarinhos de pescoço vermelho. Depois vimos as primeiras flores e as primeiras folhas e com elas entrançamos cruzes. Cantámos à entrada das aldeias, como costumávamos fazer pelo Ano Novo. E todas as crianças corriam para nós. E avançámos como um exército.
Havia homens que nos amaldiçoavam porque não conheciam o Senhor. Havia mulheres que nos pegavam pelo braço e interrogavam-nos e cobriam-nos a cara de beijos. E também houve boas almas que nos trouxeram escudelas de madeira, leite morno e fruta. E todos tinham piedade de nós. Porque eles nem sabem para onde vamos e não ouviram as vozes.
Sobre a terra há florestas densas e rios e montanhas e atalhos cheios de silvas. E no fim da terra está o mar que em breve iremos atravessar. E no fim do mar está Jerusalém. (…)



O empregado talvez paquistanês do cibertasco fala comigo em inglês. Digo-lhe que pode falar português, se quiser. Ele diz preferir o inglês. O sotaque é de fugir. Ainda antes disso, mais uma passagem de «A Cruzada das Crianças», de Marcel Schwob.


Relato do Goliardo: Eu, pobre goliardo, clérigo miserável que vagueia pelas florestas e pelas estradas mendigando, em nome do Nosso Senhor, o meu pão de cada dia, vi um espectáculo piedoso e ouvi as palavras das criancinhas. (…)
Estou a falar à toa porque estou cheio de alegria. Rio por causa da Primavera e daquilo que vi. O meu espírito não é muito forte. Recebi a tonsura de clérigo com a idade de dez anos e já me esqueci das palavras em latim. Sou como um gafanhoto porque salto, daqui para ali, e zumbo e, às vezes, abro umas asas às cores e a minha cabecinha é transparente e vazia. Dizem que S. João se alimentava de gafanhotos no deserto. Tinha que comer muitos. Mas S. João não era feito como nós.
Sinto-me cheio de adoração por S. João porque ele era errante e pronunciava palavras sem seguimento. Parece-me que essas palavras deviam ser mais doces. A Primavera também é doce, este ano. Nunca houve tantas flores brancas e cor-de-rosa. Os prados estão lavados de fresco. Em toda a parte o sangue de Nosso Senhor rebrilha sobre as sebes. O Nosso Senhor é da cor do lírio, mas o seu sangue é rubro. Porquê? Não sei. Deve estar nalgum pergaminho. Se eu tivesse habilidade para as letras, havia de ter pergaminhos e de escrever neles. Assim, podia comer muito bem todas as noites. (…)