turba infantium
Num saco de plástico, uma coisa sobre Jorge de Sena, organizada por Gilda Santos, «O Declínio da Mentira», de Oscar Wilde, outra coisa sobre o matemático Alan Turing e computadores («The Man Who Knew Too Much», de David Leavitt), e «A Cruzada das Crianças», de Marcel Schwob.
De encantar, este último. Foi o escolhido. 65 páginas com 8 relatos colocados na boca de 10 intervenientes naquela cruzada de 1212 que ficou conhecida com o nome do título. Acabei de lê-lo quando este sol danado me obrigou a vir transcrever uns parágrafos para o blog, aqui num cibertasco da Calçada do Garcia, em pleno kasbah lisboeta.
O ambiente é pouco claro, longe de um «clean and well-lighted place». Sou o único português. No livro, a cor branca é referida duas, três, meia dúzia de vezes por página. Pureza para Schwob, morte para mim. Nunca me senti mal no estrangeiro.
- Johannes, o Teutão – respondeu e as suas palavras eram límpidas e salutares.
- Onde vais?
- A Jerusalém para conquistar a Terra Santa.
Então ri-me e perguntei:
- Onde é Jerusalém?
- Não sei.
- O que é Jerusalém?
- É o Nosso Senhor.
Então ri-me de novo e perguntei:
- O que é o teu Senhor?
- Não sei. É branco. (…)
Havia homens que nos amaldiçoavam porque não conheciam o Senhor. Havia mulheres que nos pegavam pelo braço e interrogavam-nos e cobriam-nos a cara de beijos. E também houve boas almas que nos trouxeram escudelas de madeira, leite morno e fruta. E todos tinham piedade de nós. Porque eles nem sabem para onde vamos e não ouviram as vozes.
Sobre a terra há florestas densas e rios e montanhas e atalhos cheios de silvas. E no fim da terra está o mar que em breve iremos atravessar. E no fim do mar está Jerusalém. (…)
O empregado talvez paquistanês do cibertasco fala comigo em inglês. Digo-lhe que pode falar português, se quiser. Ele diz preferir o inglês. O sotaque é de fugir. Ainda antes disso, mais uma passagem de «A Cruzada das Crianças», de Marcel Schwob.
Estou a falar à toa porque estou cheio de alegria. Rio por causa da Primavera e daquilo que vi. O meu espírito não é muito forte. Recebi a tonsura de clérigo com a idade de dez anos e já me esqueci das palavras em latim. Sou como um gafanhoto porque salto, daqui para ali, e zumbo e, às vezes, abro umas asas às cores e a minha cabecinha é transparente e vazia. Dizem que S. João se alimentava de gafanhotos no deserto. Tinha que comer muitos. Mas S. João não era feito como nós.
Sinto-me cheio de adoração por S. João porque ele era errante e pronunciava palavras sem seguimento. Parece-me que essas palavras deviam ser mais doces. A Primavera também é doce, este ano. Nunca houve tantas flores brancas e cor-de-rosa. Os prados estão lavados de fresco. Em toda a parte o sangue de Nosso Senhor rebrilha sobre as sebes. O Nosso Senhor é da cor do lírio, mas o seu sangue é rubro. Porquê? Não sei. Deve estar nalgum pergaminho. Se eu tivesse habilidade para as letras, havia de ter pergaminhos e de escrever neles. Assim, podia comer muito bem todas as noites. (…)