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o pecado original d'Olivet

«Tudo o que era espírito tornou-se substância, tudo o que era inteligível tornou-se sensível, tudo o que era universal tornou-se particular», escreveu Fabre D’Olivet sobre a língua hebraica, associando a esse processo a noção de degenerescência. Porque o fez é para mim um mistério, uma vez que tudo me leva a crer que se trata de um óptimo projecto de vida para uma língua, e não só.

Parta-se do princípio de que o deus cristão encarnou no seu filho, que alguns deuses do Olimpo, quando aborrecidos, até desciam das nuvens para inseminar as mais belas do Peloponeso e arredores, que ainda hoje há quem se queixe de ser vítima de possessão demoníaca.

Nesse plano hipotético, afigura-se como possível que o próprio Sobrenatural, por vezes, queira deixar de estar sobre, sendo então natural que o espírito anseie pela substância, o intelecto pela sensibilidade, o universo pelo indivíduo, e do avesso também. A bem dizer, para lá das nuvens e abaixo delas, o desejo nunca foi pecado.




[É evidente que o rigor destas deduções ficou no tinteiro da Movable Type Publishing Platform – uma infelicidade que remete para outra: quando D’Olivet acusou Byron de que a sua peça «Cain» minava a fé cristã dos britânicos, consta que Byron terá respondido «Sou só um poeta. Nada tenho a ver com as suas preocupações filosóficas»; e para outra ainda: não sou poeta nem filósofo, my name is Ahasuerus, an exemplum of a fool]