Laurie Anderson: «Language is a virus from outer space»(excertos de «História da Linguagem», de Julia Kristeva)
A língua, concebida como um fundo comum, unitário, unificador e criador, distingue-se das linguagens cuja pluralidade se apresenta como uma punição. (…) «Então desceu o Senhor, irritado por este projecto cheio de orgulho, para ver a cidade e a torre que os filhos de Adão edificavam e disse: Eis que o povo é só um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer. Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua para que não entenda um a língua do outro (Génesis, XI, 5-11).
Um outro mito bíblico, desta vez referente à escrita, está ligado ao nome de Moisés (…) a Bíblia parece considerar a posse da linguagem como uma posse do poder espiritual e do Estado. Ora Moisés, como ele próprio confessa, «nunca teve a facilidade de falar» e é sobretudo a presença de Deus que é o principal obstáculo à sua fala: «desde que começaste a falar ao teu servo – diz Moisés a Deus – tenho a língua menos livre e mais embaraçada do que a tinha anteriormente». (Êxodo, IV, 10)
Estas narrativas escondem uma concepção precisa da linguagem e da escrita. A língua parece representar, para o pensamento judaico, uma essência surreal, extraobjectiva, poderosa e activa cujo estatuto se iguala ao de Deus. (…) Apoderar-se da escrita equivale a encarnar, no sentido restrito da palavra, a linguagem, isto é, a dar um corpo à língua divina, absorvendo-a no corpo humano, introduzindo-o na carne. A escrita na Bíblia engole-se e come-se; para se tornar lei tem de se inscrever na carne, ser assimilada pelo corpo humano [e social]: «Tu, filho do homem, escuta o que te digo (…) Abre a tua boca, come o que te vou dar». Olhei e vi estender-se uma mão que segurava o rolo de um livro. (…) «Filho do homem, come este livro e falarás à raça de Israel». Abri a boca e ele obrigou-me a comê-lo. (…)
A relação da escrita com o real, tal como com a realidade fónica e morfológica da linguagem, não é pensada. Parece ter sido cortada e reintroduzida a posteriori como uma relação de dominação do real pela escrita, pois a escrita é sobretudo o exercício de uma essência legisladora, paternal e autoritária, concebida como um modelo [as ordens de Deus] sobre o qual o real se deve ordenar.