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a linguagem é um vírus do espaço exterior (2)
(excertos de «História da Linguagem», de Julia Kristeva)

Nas teorias linguísticas europeias desde o séc. 16 até ao séc. 18, fortemente marcadas pela teologia e pelos seus derivados, o hebreu é a língua fascinadora, origem comum e cifra universal. Encontramos em Fabre D’Olivet a apoteose desta apologia da língua hebraica cuja verdadeira leitura permitiria, segundo o autor, uma compreensão autêntica da Bíblia.

Considera D'Olivet que, embora o hebreu não seja a língua-mãe da humanidade, como acreditavam muitos dos seus predecessores inspirados pela narrativa bíblica, pelo menos os seus princípios gramaticais podem «mais seguramente conduzir a essa origem (da fala) e desvendar os seus mistérios. (…) O mandarim, isolado desde o seu nascimento, procedente das mais simples percepções dos sentidos, chegou de desenvolvimento em desenvolvimento até às mais altas concepções da inteligência. É exactamente o contrário do hebreu: este idioma formado por uma língua que tinha atingido o mais alto grau de perfeição, inteiramente composta por expressões universais, inteligíveis, abstractas, entregue nesse estado a um povo robusto, mas ignorante, caiu nas suas mãos de degenerescência em degenerescência e de restrição em restrição até aos seus elementos mais materiais. Tudo o que era espírito tornou-se substância, tudo o que era inteligível tornou-se sensível, tudo o que era universal tornou-se particular».