a linguagem é um vírus do espaço exterior (3)(excertos de «A Passo de Caranguejo», de Umberto Eco)
Estávamos numa época em que floresciam os estudos sobre a língua-mãe que estaria na origem de todas as civilizações, habitualmente identificada com o hebraico falado por Adão. (…) na altura, um século e meio depois da descoberta da América, começavam a ouvir-se notícias cada vez mais detalhadas acerca daquelas populações distantes (…) novas expedições e viagens cada vez mais frequentes rumo a países exóticos, incluindo a China.
Nos meios mais “liberais” começava a ganhar força uma hipótese atribuída a Epicuro (numa carta a Heródoto), e mais tarde retomada por Lucrécio, segundo a qual os nomes das coisas não foram atribuídos no princípio do mundo por uma língua privilegiada (…) E é aqui que surge a proposta do calvinista Isaac de la Peyrère (…) que avança a ideia de uma poligénese dos povos e das raças.
La Peyrère apercebeu-se de que a cronologia bíblica, com os seus seis mil e muitos anos, era demasiado limitada em relação às cronologias dos Caldeus, dos Astecas, dos Incas e dos Chineses, especialmente na descrição que fazia da origem do mundo. Teria então existido uma humanidade pré-adamita. Só que, se assim era, esta civilização (…) não podia ter sido contaminada pelo pecado original, e quer este episódio, quer o do dilúvio universal, diziam apenas respeito a Adão e aos seus descendentes na terra hebraica.
Esta hipótese também já tinha sido levantada pelos muçulmanos. No séc. 10, ao estudar o Corão, Al Maqdisi tinha aludido à existência de outros seres na Terra, antes do aparecimento de Adão. (…) Em suma, seis mil anos de história sagrada reduzidos a um pequeno incidente mediterrânico.