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dos rios e suas margens, da bloga à gente de carne e osso

Registe-se a suspeita, desde o início, de que os bloggers seriam os piores leitores de blogues. Muitas diagonais, antes a árvore do que a floresta, leituras apressadas parem interpretações cegas e por aí fora. Basta, ainda agora, cair na asneira de abrir aleatoriamente caixas de comentários, para concluir que mais de metade dos comentadores – quase todos bloggers – não lê ou treslê o conteúdo dos posts. Parecem mais empenhados em demonstrar que estão vivos. Tudo muito bem. A atenção não se regula por decreto e a distracção ainda é um direito.

Também desde o início, registe-se igualmente o facto de ter evitado informar os mais próximos – pessoas de carne e osso – da existência deste sítio e dos anteriores. A intenção era separar os dois mundos, resguardar alguma distância para, com menores pruridos, utilizar no blog episódios do dia-a-dia.

Ultimamente, descuidei-me.

Às perguntas mais insistentes («mas afinal, se não andas a par das notícias, se raramente sais à noite, como é que passas o tempo livre?»), acabei por responder que «lia o que calhasse e escrevia umas coisas na net». Erro crasso, pois há quem não saiba para que servem os blogues, mas já descobriu a utilidade dos motores de busca, ignorando uma das suas fraquezas: se existirem no mundo três indivíduos com o mesmo nome – p. ex. um membro de uma associação de apoio aos sem-abrigo, um professor que já transmitiu os seus conhecimentos a milhares de alunos e um blogger que publique seja o que for com alguma regularidade – uma busca naquelas máquinas do demo vai apresentar em primeiro lugar o mais inútil dos três.

Tudo isto para chegar aqui: se a leitura dos bloggers, de tão rápida, só costuma esgravatar a superfície dos posts alheios, pelo que me apercebi recentemente nas reacções de pessoas mais próximas a duas séries sobre o amor e a morte de um amigo, constituiu uma surpresa o seu empenho em decifrar intenções ocultas nas entrelinhas.
Noutros tempos, sentir-me-ia um sortudo por estar rodeado de pessoas tão atentas. Hoje, é evidente que esse empenho é uma perda de tempo, uma vez que deste lado existe o esforço deliberado de eliminar, na medida do possível, figuras de estilo, jogos de palavras e a possibilidade de segundas e terceiras leituras. Ou seja, o que cada post pretende significar é exactamente o que transparece no imediato.

Não decorre daí a desvalorização de discursos alheios mais rebuscados. Afortunadamente, ainda não somos todos iguais (compare-se, de passagem, a diversidade de linguagens nos blogues ditos intimistas com a monotonia discursiva demasiado frequente nos especializados em crítica política, literária ou cinematográfica)
Antes de tudo, trata-se de uma reacção a estes tempos em que informação costuma rimar com confusão. «Sound like yourself, say what you mean», dizia o guru Vonnegut e eu vou acreditando.

Ilustrando esta intenção, se alguma vez surgir aqui algo como «imóvel na margem do rio observo a alegria dos peixes nas imediações de um esgoto», será escusado imaginar que vou dedicar-me à pesca ou à natação ou à crítica do consumismo nas sociedades ocidentais. Significará apenas que, num dia destes, dei por mim imóvel na margem do Tejo, observando a alegria dos peixes nas imediações de um esgoto.

(peixes de Faern Sanders e M.C. Escher)