hoje
Não interessa agora se se trata de uma ficção ou de uma narração literal de factos. Chamo-lhe aqui «história» por razões de economia, por assim dizer, semântica.
Desde miúdo que aquela história de alguém se deixar matar para redimir os pecados do mundo me parece forçada – quase um artifício desnecessário com que um argumentista de filme de acção justifica/cola pontas soltas da intriga. Talvez desse modo fizesse mais sentido para o público de há vinte séculos.
Tivesse aquela história sido escrita hoje, seria bem provável que descrevessem aquele homem (ou Homem, se preferirem) de um modo mais simples, mais de acordo, talvez, com a ideia que dele me ficou: como tendo defendido aquilo em que acreditava até ao ponto em que os seus inimigos tiveram de o eliminar.
Poderiam manter-lhe a ascendência divina, alguns milagres e, sobretudo, os exemplos morais, porque a maior parte das pessoas parece sentir necessidade disso; poderiam até deixar como está aquele «Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem».
Assim mesmo, admitindo tudo isso como verosímil, a coincidência de escrever isto enquanto ouvia «You’re gonna miss me» levou-me a imaginá-lo, num momento de revolta surda, a murmurar:
You're gonna wake up one morning
as the sun greets the dawn.
You're gonna look around in your town
to know, to find that I'm gone.
You didn't realize,
You didn't realize,
You didn't realize,
Oh you're gonna miss me, baby.
I gave you the warning,
but you never heeded it.
How can you say you miss my lovin’
when you never needed it?
You're gonna wake up wonderin' how
you've found yourself all alone.
(…)