A poesia, que foi tudo, é quase nada,
se não cura, não faz pão, não tira nódoas
do tecido social. Em vez de versos,
ponho ao sol um vaso de ervas aromáticas,
fomento a couve-rosa, conto as flores
do manacá e atormento-me em janelas
virtuais, avaliando os elementos
da ruína, seus engodos e motivos.
Atormento-me de novo, com os roubos
do momento, disparato, não respiro,
assobio uma canção desencontrada,
popular, o coração impaciente.
E cedo volto, sem prazer, ao passatempo
destes jogos cranianos – escusados,
se não creio que a justiça leia versos
nem me abrigo na memória de vindouros.
«What Use?», José Miguel Silva