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Estou a escrever neste blog porque sim. Apeteceu-me. Ainda pensei colaborar n’O Acidental, mas desisti a tempo. Além do mais, a Marizé e a Luciana, antes de zarparem para Yale, alertaram-me que seriam precisos mais blogues de feição para correr com os bolcheviques da blogosfera, e das outras esferas também. Quais?
Olhem: o Pedro e o Paulo, conhecidos do meu Papi, ainda tentaram endireitar esta pocilga de país. Esta cáfila de pequeno-burgueses, esta súcia de comunas é que não lhes deram tempo. Cambada de brutos, rurais, arrivistas! Bem, isso agora para nada interessa; o que se segue, sim.
Tive o azar de me encontrar hoje, à hora de ponta, num engarramento medonho na Av. D. Carlos I, em Cascais. Destarte, tive demasiado tempo para pensar. Sentadito nos estofos de pele bege do meu Aston Martin DB4 preto-pantera, pude reparar nos olhares que outros condutores e alguns peões ousaram poisar em mim e na minha viatura. Nalguns li ódio; na maioria, inveja. Desconfortável q.b. Mesmo avisado desde sempre pelo meu Papi que os pobres não sabem como sentir muito mais do que isso, não deixou de ser desagradável. Tal levou-me a imaginar no que pensaria ele, o meu Papi, com a minha idade, numa situação semelhante.
Logo após, concluí que, na sua juventude, não existiriam engarrafamentos daqueles, muito simplesmente porque em Cascais, nos anos 60, só umas duas, três dúzias de famílias tinham carros dignos desse nome. Quem me dera a mim viver então. Nunca ficar cercado de Puntos e Polos e Micras e quejandos. Havia respeito. Os pobres, coitaditos, ainda baixavam os olhos quando passavam por nós. Não teria precisado de gastar a mesada com call-girls para dizer adeus à virgindade. Bastaria que as sopeiras lá de casa fossem roliças, inocentes e lavadinhas.
Além disso, havia espaço. No Tamariz não avistaria tanto preto ao sol nem brancos tão grunhos como os de agora. Quem fosse de família, de bom sangue, podia respirar. A Linha ainda era “A Linha”. Agora, se tenho o desnorte de ser sincero e afirmar em público que a única Linha que conheço é a que vai da Boca do Inferno ao Guincho (Quinta da Marinha, não é, seus saloios?), quase me comem vivo. Ó saudade do que não vivi, é deplorável que a clonagem não fosse possível no tempo do Salazar.