I shall be released from my beliefs (2)
Algures no século passado, o filme “The Last Waltz” chegou à minha cidade natal. E lá fomos uns quantos miúdos ao cine-teatro local. Tratava-se de uma festa-concerto-homenagem à banda com esse nome que tinha acompanhado Bob Dylan na 2ª metade da década de 60 e encetado depois uma carreira mais e menos discreta nas fronteiras do folk e do country.
Entre tantos outros, recordo apenas alguns convidados: Neil Young, Van Morrison, Joni Mitchell e uma estranha aparição de Lawrence Ferlinghetti. Nada do outro mundo. As lamechices tocadas por amigos em praias com pôr-do-sol ao fundo tinham vacinado a minha atenção para aqueles géneros musicais. Não podia então imaginar o que viria a descobrir nessa área já neste século. Mal sabia eu também que o pior daquela sessão de cinema estava para vir.
Muito perto do final, surgiu Bob Dylan no palco, o que foi bastante para o meu amigo Carlos saltar possesso para cima das cadeiras e desatar a insultar Dylan, indefeso entre as duas dimensões da tela. Os insultos estavam atrasados quase duas décadas: «Judas! Fascista! Filho da puta!» e por aí fora. Tivemos que sentá-lo à força. Explicou depois que estava fulo por Bob Dylan ser accionista de fábricas de armamento - um rumor que nunca chegou a ser confirmado com segurança.
Pouco depois, perdi o rasto deste meu amigo para voltar a encontrá-lo no final da década de 80. Era sócio de uma daquelas pequenas fábricas de confecção que então pululavam no Norte. O salário mínimo, na altura, rondava os 30.000$00. Perguntei-lhe quanto pagava às operárias. «10.000$00». No Verão passado, falaram-me dele. Encontra-se na Roménia à frente de uma fábrica têxtil.